V.S Naipaul: um observador independente e incômodo do mundo



RIO — No coração de todo livro de V.S. Naipaul, morto anteontem, aos 85 anos, há um observador implacável, forasteiro e fora da curva. Pode ser algum alter ego do autor, ou o próprio, relatando o que viu em viagens pelo mundo. O comerciante de “Uma curva no rio”, que do seu balcão relata o impacto de uma modernização forçada em um vilarejo africano dizimado pela guerra; ou o escritor deslocado de “O enigma da chegada”, que reflete sobre a morte e a decadência do mundo em um país estrangeiro, misturando memória e ficção. Não importa por qual personagem passa a narração: a capacidade de enxergar novos ângulos é sempre a mesma, num tom incômodo e direto. Ao conceder-lhe o Nobel de Literatura, em 2011, a Academia Sueca afirmou que o havia premiado por “ter misturado percepção narrativa e observação incorruptível em suas obras, que nos condenam a ver a presença da história esquecida”.LEIA TAMBÉM: Nobel de Literatura: veja os últimos vencedores V.S. Naipaul, vencedor do Nobel de Literatura, morre aos 85 anosNada disso seria possível se seu olhar não voasse livremente sem outro compromisso senão com a literatura. Como lembraram os jurados do Nobel, Naipaul era o tipo de sujeito que não presta contas a ninguém, pois sentia-se “cômodo somente em seu interior, no seio de sua expressão inimitável”. Era um autor difícil de igualar até mesmo em seu background — um britânico nascido no Caribe (Trinidad e Tobago), com origem indiana e nepalesa. Confira cinco livros essenciais de V.S. Naipaul Para esse viajante autônomo, nacionalidade era uma noção fluída. Territórios e suas fronteiras funcionavam como hotéis desconfortáveis, onde ele se hospedava sempre à espera do próximo check out. Em “Num estado livre”, reunião de cinco novelas avulsas, ele acompanha o infortúnio de personagens refugiados, expatriados e imigrantes. Cedo ou tarde, todos são confrontados com os seus conceitos ilusórios de independência. Naipaul encarnou o desenraizamento contemporâneo. Não por acaso era comparado a Joseph Conrad, um polonês nascido na Ucrânia que se aventurou pelos mares e também escolheu o exílio na língua inglesa. Como Conrad, Naipaul expôs as cicatrizes do colonialismo (ambos são criticados por sua abordagem ambígua sobre o assunto, aliás). Em seu — subestimado — trabalho de jornalista, diagnosticou os impasses em relação ao futuro da África (“A máscara da África”) e da Índia (“Índia”), o choque entre modernidade e tradição. Também mostrou o impacto da fé em países muçulmanos como a Indonésia e o Irã. O Naipaul-repórter, aliás, só existe graças ao editor-chefe do “New York Review of Books”, Robert Silvers. Sabia que o jornalismo era um meio perfeito para que questionasse as nossas suposições de mundo.Temperamento difícilConhecido por seu temperamento difícil e por sua indisfarçada arrogância, o escritor dava trabalho aos entrevistadores. Em uma tensa conversa para as páginas da célebre “Paris Review”, exigiu que os seus dois interlocutores reformulassem várias vezes suas perguntas. “O que você quer dizer com isso?”, “Coloque de outra maneira”, “Não sei se essa é uma pergunta justa”, devolvia. Ao ser indagado sobre sua percepção de “mundo”, no entanto, deu uma resposta que poderia resumir a sua obra: “Acho que o mundo é aquilo em que você entra quando pensa — quando você se educa, quando você questiona — porque você pode estar no grande mundo e ser absolutamente provinciano”.Apesar de tudo, Naipaul também tinha um lado doce. Pelo menos, quando estava em Portugal, informou no sábado o jornal luso “Expresso”. Ao passar por Coimbra, gostava de se sentar no hotel e olhar para o mar. Ainda segundo o jornal, fez amizade com o ator Tobias Monteiro, que lhe explicou o significado do fado e daquela palavra que só existe em nossa língua. “Hoje ensinaste-me uma palavra: saudade”, teria lhe dito o escritor, que se revelou uma pessoa “de poucas palavras”, mas de trato “nada difícil”.
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