Saída de Tillerson preocupa países com laços diplomáticos delicados com EUA

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MOSCOU, PEQUIM, TEERÃ e TÓQUIO – A destituição do secretário de Estado americano, Rex Tillerson, surpreendeu governos pelo mundo, que se manifestaram nesta quarta-feira. Ainda que demissões no governo do presidente Donald Trump não sejam novidade, a saída de Tillerson foi anunciada em meio a altas expectativas da diplomacia americana, que está com equipe incompleta: a reunião de Trump com o líder norte-coreano Kim Jong-un, as negociações de paz entre Israel e palestinos e o acordo nuclear do Irã.

O governo iraniano disse que a demissão de Tillerson sugere que Trump pretende abandonar o pacto nuclear, que suspendeu uma série de sanções econômicas contra o Irã. Segundo o vice-ministro de Relações Exteriores iraniano, Abas Araghchi, “as mudanças no Departamento de Estado foram feitas com esse fim, ou ao menos é uma das razões”, disse ele.

Trump apontou na terça-feira divergências com o agora ex-secretário, em particular sobre a questão com o Irã:

— Rex e eu (…) nos damos muito bem, mas divergimos em coisas — disse Trump aos jornalistas. — O acordo com o Irã achei que era terrível, ele achou que estava bem. Eu queria rompê-lo, ou fazer algo, ele sentia um pouco diferente. Então, realmente, não estávamos pensando do mesmo jeito — completou.

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No entanto, outros funcionários do governo iraniano minimizaram o impacto da chegada do novo secretário de Estado, Mike Pompeo, ex-diretor da CIA, sobre o acordo nuclear, dizendo que a mudança é uma questão americana interna.

— Essas mudanças e desenvolvimentos e demissões no governo Trump não são novidade — disse o porta-voz do Ministério do Exterior iraniano, Bahram Qassemi. — Testemunhamos desenvolvimentos similares e essa é uma questão interna deles. O que é importante para a República Islâmica (do Irã) é a política dos EUA em assuntos internacionais e suas interações conosco, e vamos adotar nossas próprias posições.

Ele destacou, por outro lado, que, “por experiência, já foi visto que políticas e abordagem dos Estados Unidos não podem ser confiadas”:

— O país não é muito confiável — indicou Qassemi.

Já a Rússia, que tem sido uma questão recorrente na diplomacia americana em meio as acusações de interferência na eleição dos Estados Unidos de 2016, disse esperar que as relações entre os dois países sejam abordadas de maneira construtiva e séria. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse ser improvável que as relações entre Moscou e Washington possam piorar ainda mais.

— De qualquer forma, há esperança para relações construtivas e sérias — disse a repórteres.

COREIA DO NORTE: QUESTÃO EM ABERTO

A China afirmou que espera trabalhar com Pompeo para lidar com as diferenças entre os dois países. O porta-voz do ministro do Exterior, Lu Kang, disse em pronunciamento diário que o país espera continuar a trabalhar junto com os Estados Unidos em questões latentes, como a Coreia do Norte.

— Nós, é claro, esperamos que o ímpeto positivo na península coreana, inclusive a vontade política para conversas dos Estados Unidos e da Coreia do Norte, seja mantido — defendeu.

O funcionário americano designado para a Coreia do Norte, Joseph Yun, anunciou sua aposentadoria em fevereiro, e desde então não foi substituído. Há mais de um ano no poder, o governo Trump ainda não nomeou um embaixador para a Coreia do Sul. E o Senado ainda não confirmou quem será o diplomata de alto escalão responsável pelo Sudeste Asiático.

Já o ministro das Relações Exteriores japonês disse que pessoalmente lamenta a saída do “franco e confiável” secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, antes da cúpula entre Trump e Kim Jong-un.

— Ele (Tillerson) era uma contraparte franca e confiável e eu achava que ele lidaria com a questão da Coreia do Norte, mas pessoalmente sinto que esta situação que se desenvolveu é lamentável — disse o chanceler do Japão, Taro Kono, a repórteres em Tóquio. — Certamente os Estados Unidos ditam as regras, então quero me encontrar com seu sucessor como secretário de Estado logo e trocar ideias sobre a Coreia do Norte e outras questões — acrescentou.

Alguns críticos ficaram surpresos com a decisão de trocar diplomatas de alto escalão tão perto do esperado encontro inédito entre Kim e Trump, e temem que Pompeo incentive Trump a endurecer sua postura com Pyongyang. A chanceler sul-coreana, Kang Kyung-wha, decidiu manter uma viagem planejada a Washington para debater a Coreia do Norte apesar da saída de Tillerson, informou a chancelaria em uma mensagem de texto. Mais cedo uma autoridade havia dito que ela cancelaria a visita.

Outras autoridades da Coreia do Sul, falando sob condição de anonimato, disseram que, embora Pompeo seja conhecido por suas opiniões duras a respeito da Coreia do Norte, é um político experiente e parece saber fazer concessões.

— Estamos cientes de que Pompeo foi uma das vozes mais fortes nas conversas sobre uma ação militar e que transmitiu a Trump avaliações semelhantes, mas as coisas mudaram muito desde então — disse um funcionário graduado, referindo-se às conversas intercoreanas futuras e à perspectiva da reunião entre Kim e Trump. — Então veremos.

O porta-voz da chancelaria chinesa, Lu Kang, disse que seu país espera que a troca de pessoal não afete o desenvolvimento das relações e áreas importantes de cooperação.


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