Por que Trump resiste a criticar a Arábia Saudita pelo desaparecimento de um jornalista opositor?

Reino atua como parceiro estratégico dos EUA em negócios de armas e contra o avanço do Irã no Oriente Médio Jamal Khashoggi durante evento promovido pelo Middle East Monitor em Londres, no dia 29 de setembro
Middle East Monitor/Handout via REUTERS
O governo Trump apostou todas as suas fichas no príncipe saudita Mohammed bin Salman como reformista e parceiro estratégico no Oriente Médio para conter o Irã. Agora se vê diante de um dos maiores embaraços de sua política externa e de direitos humanos: o misterioso desaparecimento, do jornalista Jamal Khashoggi, que tem residência fixa nos EUA, dentro do Consulado da Arábia Saudita em Istambul.
Trump é pressionado para criticar publicamente o reino aliado sobre os detalhes escabrosos que vêm sendo revelados desde o dia 2 de outubro. Colunista do “Washington Post” e crítico contumaz do atual governo saudita, o jornalista entrou no consulado para obter documentos para seu casamento. E dali não saiu.
Segundo o “Post”, autoridades turcas têm áudios e vídeos mostrando que ele teria sido torturado, morto e esquartejado por uma equipe de 15 oficiais sauditas enviada a Istambul, a mando do príncipe, em dois aviões do reino.
Mas o que faz Trump resistir a adotar uma dura posição contra a Arábia Saudita é o contrato de US$ 110 bilhões para a venda de armas ao país. O próprio presidente admitiu isso nos primeiros dias após o sumiço de Khashoggi. Alegou que, se desistisse do contrato, provavelmente o reino se voltaria para a Rússia ou a China, pondo em risco empregos de americanos.
Trump foi recebido pelo rei Salman bin Abdulaziz al-Saud
Mandel Ngan / AFP Photo
A Arábia Saudita foi o primeiro país visitado por Trump assim que assumiu a presidência. Desde então, os laços com o reino só se fortaleceram. Conhecido por suas iniciais, Mohammed bin Salman se proclama como reformador. Mas não é bem assim. Ao mesmo tempo em que contém a polícia religiosa e abre o país aos empresários, trancafia ativistas e opositores.
Em novembro passado, o regime liderado por MBS deteve por duas semanas no país o primeiro-ministro do Líbano, Saad Hariri, que, durante este período, renunciou ao cargo para depois voltar atrás. Deteve também dezenas de membros da família real em um hotel cinco estrelas, que só teriam sido libertados mediante extorsão. E protagonizou uma crise política sem precedentes com o Catar, acusado de patrocinar o terrorismo.
O governo saudita nega a participação no desaparecimento de Khashoggi, um dos poucos intelectuais a criticar o atual regime e disposto também a criar uma organização para promover a democracia em países árabes.
Como observou o colunista Ishaam Tharoor, colega de Khashoggi no “Post”, o caso provocou, em uma semana, uma espécie de ira coletiva contra a Arábia Saudita que anos de bombardeios liderados pelo reino no Iêmen não conseguiram.
A suspeita do assassinato de um opositor no exterior põe o reino num patamar ainda mais sombrio. Empresários já começam a se distanciar da Arábia Saudita. O britânico Richard Branson, da Virgin, anunciou a suspensão de negócios, avaliados em US$ 1 bilhão. Outros desistiram de participar de uma conferência de investidores em Riad, no fim do mês. O secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, contudo, mantém sua presença, indicando mais uma vez que a política de direitos humanos dos EUA tem dois pesos e duas medidas.
Sandra Cohen
Arte/G1
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