Por legitimidade de Putin, Rússia quer alto comparecimento em eleições

CRIMEA-RUSSIA-VOTE-PUTIN-G763L3KA1.1.jpgMOSCOU — Vote na eleição presidencial da Rússia neste domingo ou seja ameaçado por uma hiper-inflação e africanos fazendo parte do Exército. Essa é a mensagem surpreendente divulgada em um video destinado a encorajar cidadãos a participarem da votação, em um pleito cujas pesquisas apontam uma fácil vitória de Vladmir Putin. Enquanto o atual presidente dominou a cena política do país nos últimos 18 anos, o Kremlin e seus aliados se esforçam para garantir uma alta participação dos eleitores nas próximas eleições.

O clipe, que fez surgir acusações de racismo e homofobia, foi divulgado pela TV estatal e assistido seis milhões de vezes online. Alexander Kazakov, um consultor político pró-Putin que promoveu o vídeo, afirmou querer garantir que a vitória do presidente fosse totalmente convincente.

— Só então Putin será capaz de conduzir a melhor política interna e externa — disse ele.

Enquanto Putin, de 65 anos, se prepara para o que pode ser seu último mandato de seis anos, a mídia russa, citando fontes do Kremlin, dizem que conselheiros desejam uma aprovação de 70% ao presidente nas urnas. Como Putin é realmente popular e a concorrência real está ausente, as autoridades vêem a participação como um termômetro para sua legitimidade. Os críticos dizem que os esforços para aumentar a participação são tentativas cínicas de ajudar Putin a se consolidar.

— A principal tarefa das autoridades nesta “eleição” é assegurar alta participação dos cidadãos para criar uma aparência de legitimidade — diz o líder da oposição, Alexei Navalny.

Putin precisa de uma participação convincentel para manter críticos afastados e apoiadores felizes, diz Chris Weafer, da consultoria econômica e política, Macro Advisory.

— Enquanto Putin mostrar um forte apoio da população, seu lugar entre as elites e dentro do Kremlin está seguro — diz Weafer.

Um porta-voz do presidente, Dmitry Peskov, diz que a campanha de participação é “absolutamente objetiva” e que a crítica é infundada.

Putin é apoiado pela TV estadual, o partido no poder, e possui uma taxa de aprovação de cerca de 80%, mas ainda assim o Kremlin não pode garantir que as eleições tenham um alto índice de comparecimento. Impedido de se candidatar pelo que diz ser uma sentença de prisão forjada, Navalny convocou os russos a boicotar o que ele chama de um “desonesto processo de reeleição”.

Fontes do Kremlin dizem que também estão preocupadas com a participação eleitoral não por causa de Navalny, que as pesquisas indicam não se aproximar de Putin em número de votos, caso seja permitido se candidatar. Mas porque todos esperam que Putin ganhe, votem nele ou não.

— Por que eu deveria ir votar num fim de semana se já sei que Putin ganhará? — disse uma fonte próxima das autoridades russas.

Pesquisas mostram que nenhum dos sete candidatos contra Putin é uma ameaça, que também pode adiar os eleitores. O estilo de campanha de Putin provavelmente não fará a participação aumentar: ele se recusa a participar de debates pré-eleitorais.

Para líderes políticos russos, a última eleição parlamentar, em 2016, foi um marco importante. O partido Rússia Unida, pro-Putin, teve uma vitória esmagadora, mas a participação nas urnas foi abaixo do esperado, com menos de 50% dos eleitores comparecendo para votar, índice mais baixo desde o fim da União Soviética.

O CHICOTE E O PÃO

Querendo que o comparecimento à votação seja grande e convincente, autoridades políticas estão realizando o maior esforço para que pessoas votem desde que Putin chegou ao poder em 2000. A Comissão Central de Eleições investiu cerca de 770 milhões de rublos (US$ 13 milhões) para divulgar as eleições e contratou uma consultoria para auxiliar no processo.

RUSSIA-ELECTION_TURNOUT-G763L3HRL.1.jpgO vídeo que alerta sobre hiper-inflação foi o mais visto, mas outros dois também foram divulgados pela TV estatal. Um deles retrata uma jovem garota tirando suas roupas e se dirigindo a um jovem para se afastar logo em seguida, ao descobrir que o rapaz não vai votar. Outro mostra uma mulher grávida, em um táxi, aparentemente em trabalho de parto. A situação se revela ao descobrirmos que a gestante, na verdade, estava ansiosa para chegar a um posto de votação.

A publicidade para incentivar a votação está em toda parte. Em caixas de leite, sacolas de supermercado, outdoors, TV e até alguns recibos de lojas. Além disso, funcionários estão indo de porta em porta lembrando as pessoas da data das eleições. Mensagens enviadas para os celulares dos cidadãos fazem trabalho semelhante, enquanto os eleitores de Moscou receberam um curioso “convite à eleição” da comissão eleitoral. “Lembre-se: você vota e o país ganha”, está escrito no texto.

A agência de pesquisas estatal VTsIOM disse que uma pesquisa realizada em 9 de março mostrou que 74% dos russos planejavam votar. No entanto, o único grande instituto de pesquisas independente da Rússia, o Levada Center, informou que menos de um terço dos russos planejavam ir às urnas.

Os políticos da oposição têm opiniões diferentes sobre o quanto uma baixa participação é de fato um problema político para Putin. Alguns dizem que qualquer número abaixo de 50% questionará sua legitimidade. Outros dizem 55%. De qualquer forma, as autoridades parecem estar implantando a estratégia o que os russos chamam de “o chicote e o pão de gengibre” para garantir que a participação seja forte, coagindo os milhões de eleitores que são funcionários públicos e oferecendo incentivos a outros.

Em Moscou, jovens que votarem antecipadamente receberão ingressos gratuitos para shows , enquanto na região de Sverdlovsk, bônus financeiros estão sendo oferecidos para mesários que promoverem as eleições. O Kremlin recomendou aos funcionários regionais que eles deveriam oferecer iPads e iPhones como prêmios para as melhores selfies realizadas nos postos de votação pelos eleitores, de acordo com um documento vazado do Kremlin, publicado pelo jornal RBC em janeiro.

A Comissão Central de Eleição, que já recebeu mais de 80 mil reclamações pré-eleitorais, afirmou que funcionários que ilegalmente pressionam cidadãos a votar serão severamente punidos.

Na região de Cheliabinsk, uma mãe disse que o filho do estudante está sendo obrigado a votar. Em Tulskaia, um empregado de uma empresa estatal afirmou seus chefes disseram aos funcionários que a votação é obrigatória, entregando-lhes cupons para comprovar que votaram.

Se o método de chicote e pão de gengibre falhar, os oponentes de Putin dizem que os oficiais eleitorais simplesmente irão divulgar os números que o Kremlin quiser. A comissão eleitoral, no entanto, diz que não permitirá que isso aconteça.


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