Padre usa a web para falar sobre gays e política com fiéis: 'Sair do arroz com feijão'

Kleber Cardoso, da Praia Grande, tem seguidores fiéis e resolveu abordar questões polêmicas no Facebook e no WhatsApp. Cardoso aborda temas polêmicos pelo Facebook e Whatsapp
Leticia Gomes
Conectado praticamente 24 horas por dia, como gosta de dizer, o padre Kleber Luiz Cardoso, 42 anos, encontrou um modo de unir mais de dois mil seguidores no mundo digital. Por meio da página da Paróquia de Santo Antônio, onde atua, em Praia Grande, no litoral de São Paulo, e de seu perfil pessoal no Facebook, além de listas de transmissão no WhatsApp, ele leva aos fiéis temas até pouco tempo considerados tabus, por meio de postagens e vídeos curtos.
Entre os assuntos polêmicos abordados, estão política, prostituição, homossexualidade, questão carcerária, drogas, educação sexual, ideologia de gênero e aborto. “As pessoas me escrevem comentando que se sentem desafiadas por mim, porque muitos desconhecem os temas debatidos e passam a pesquisar para entender”, afirma Cardoso.
Esse modo de passar mensagens religiosas chamou a atenção em poucos meses. Discussões temáticas no ‘Responda se Souber’ e no ‘Minuto para Deus’ são veiculadas todos os dias no Facebook e Whatsapp, a partir de uma pergunta que faz o público pensar além dos limites do convencional. No decorrer do dia, o sacerdote envia reflexões por meio de áudios e textos.
O padre Kleber Cardoso conta que, com os questionamentos diários, não pretende esgotar os assuntos com um aprofundamento completo, e sim fazer com que as pessoas pensem. Além disso, ele leva referências sociais para o público entender o contexto e refletir por mais de um ângulo o assunto.
O padre Kleber Cardoso usa mensagens de texto, áudios e vídeos curtos na evangelização de brasileiros e estrangeiros
Leticia Gomes
A estratégia empregada pelo padre tem um fundamento filosófico, a maiêutica, técnica utilizada pelo filósofo Sócrates de questionar e incentivar o processo do pensamento. Formado em Filosofia, Teologia e Psicologia, Cardoso se encontra no momento fora da sala de aula. A ligação entre a tecnologia e o sacerdócio é um jeito de não apagar o seu lado acadêmico. “As pessoas ainda olham para mim e falam que eu continuo um professor. Tento manter isso vivo, enquanto estou ocupado com outros planos”, diz.
Todos dias, pela manhã, o padre lança um novo questionamento. Como os cristãos lidam com a questão da homossexualidade é um deles. Ou então, pode ser uma discussão sobre as redes sociais como espaço para evangelização. Os comentários trazem posicionamentos diferentes, e não só dos brasileiros. Boa parte das respostas está em espanhol.
Como religioso, Kleber Cardoso já teve a oportunidade de atuar em vários países da América do Sul, como o Paraguai, onde apresentou dois programas de rádio por quase seis anos, além de celebrar missas. Também foi no país vizinho que iniciou sua experiência com as redes sociais, transitando entre rádio convencional, blogs e canais do YouTube.
Na plataforma de vídeos, e com a assinatura de Padre Clever Luiz Cardoso, ele apresentou o programa Dirección Espiritual. Os vídeos eram gravados em pontos turísticos, onde tirava dúvidas dos fiéis, dava conselhos e trazia reflexões sobre assuntos específicos. Ao todo, foram 42 edições.
Exercendo o sacerdócio há 8 anos, padre passou por países da América do Sul
Leticia Gomes
Depois de seis anos, o padre tinha duas opções: retornava ao Brasil ou ia para a Colômbia. Cardoso escolheu a segunda opção, e em Bogotá, continuou a lecionar e apresentar um programa de rádio. Ainda hoje, recebe convites para retornar ao país, algo que ele não descarta. “Visitei a Colômbia para conhecer a realidade de lá e me encantei. Teria uma experiência muito próxima à que vivenciei no Paraguai, trabalhando no meio acadêmico. Mostrei meu trabalho, e até hoje me pedem para voltar”, relata.
Natural de São José dos Campos, Cardoso está na Diocese de Santos pela primeira vez. Antes disso, quando vinha visitar a família, celebrava missas esporádicas em capelas de Praia Grande enquanto estava de férias, mas sem possuir ligação com a Paróquia.
Em um fim de semana, o padre reza seis missas para um público que varia de 50 até 400 pessoas por celebração. Na internet, ele alcança números expressivos, e consegue alcançar centenas de pessoas no Facebook e Whatsapp diariamente.
‘Heavy user’ dos meios digitais, Kleber Cardoso é crítico a respeito das redes sociais. “Elas têm coisas muito banais, inclusive as religiosas. A minha intenção é melhorar um pouco a qualidade daquilo que é veiculado, sair daquela religiosidade arroz com feijão. Quero fazer com que as pessoas pensem”, afirma.
Página da Paróquia Santo Antônio no Facebook tem forte engajamento de usuários
Leticia Gomes
As mensagens de bom dia com versículos e frases motivacionais também não são bem vistas por ele. “É legal que a pessoa tenha se lembrado de você, mas aquilo é muito raso”. Por isso, a cada resposta nas publicações, ele levanta outro questionamento, com o objetivo de levar o fiel a refletir ainda mais sobre o assunto.
O bom relacionamento com a tecnologia é defendido pelo padre, que vive com sacerdotes mais experientes. “Tento mostrar para os meus companheiros que nós temos de entender a tecnologia e participar, não ficar apenas de sentinela vendo o que as pessoas fazem”, explica.
Apesar da cautela nas redes sociais para abordar os assuntos, o padre admite que ainda há resistência por parte dos usuários mais conservadores. Parte da rejeição pode ser explicada pela carência do contato além das telas, afirma. “Apesar da índole acadêmica, eles têm expectativas em relação a mim como um sacerdote. Querem me ver e ter contato presencial, não só na internet”.
Há fiéis que aprovam tanto o contato virtual que juntam os textos diários em uma espécie de coletânea, e torcem para que o padre publique um livro com o material. Ele não descarta essa hipótese. “Quem sabe um dia”, finaliza.
*Sob supervisão de Alexandre Lopes, do G1 Santos
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