ONU exige 'verdade' sobre desaparecimento de jornalista em consulado saudita


ANCARA — O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, exigiu a “verdade” sobre o
desaparecimento do jornalista saudita Jamal Khashoggi, que não foi mais visto após entrar no
consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia. A linha de investigação das
autoridades turcas é que Khashoggi
foi torturado e assassinado, o que Riad nega.
Em Bali para reunião do Fundo Monetário Internacional, Guterres demonstrou preocupação com o caso e
temor de que a perseguição a críticos se torne normal no reino saudita. riaddavos— Precisamos exigir que a verdade seja clara. Precisamos saber exatamente o
que aconteceu e quem é o responsável, e, é claro, quando vemos a multiplicação
de situações como essa, acho que precisamos encontrar maneiras para exigir a
responsabilização — afirmou Guterres
neste sábado, em entrevista à BBC. — Devo dizer que estou preocupado com este
aparente novo normal. Como esse tipo de incidente está se multiplicando é
absolutamente essencial garantir que a comunidade internacional diga de forma
clara que isso é inaceitável.Na quinta-feira, o jornal americano “Washington Post”, onde Khashoggi era colunista, revelou que autoridades
turcas disseram ter áudios
e vídeos que comprovam que o jornalista foi torturado, agredido e
assassinado dentro do consulado saudita. Segundo a fonte, as informações
teriam sido passadas a autoridades americanas, mas as gravações não seriam
divulgadas pois revelariam como Ancara espiona instalações estrangeiras no
país.Khashoggi
entrou no consulado da Arábia Saudita em Istambul no último dia 2, para
conseguir documentos para seu casamento. Imagens de câmeras de segurança
instaladas na parte externa do prédio mostram o jornalista entrando, mas não
saindo. A noiva de Khashoggi,
a turca Hatice
Cengiz, que o aguardava do lado de fora do
prédio, também não o viu saindo. Investigadores turcos acreditam em assassinato.
O caso poderia ser facilmente solucionado com imagens do circuito interno de
vigilância, mas Riad alega
que, neste dia, o sistema não estava funcionando. Neste sábado, o jornal turco “Sabah”
afirmou que os investigadores encontraram informações gravadas pelo relógio
Apple Watch do
jornalista, que indicariam a tortura e o assassinato dentro do consulado. A
reportagem foi publicada um dia após a chegada de uma delegação saudita em
Ancara, para investigação conjunta entre os dois países.“Os momentos em que Khashoggi
foi interrogado, torturado e assassinado foram gravados na memória do Apple
Watch”, diz o jornal, acrescentando que o relógio
estava sincronizado com o iPhone do jornalista, que estava com a noiva do lado
de fora do consulado.A informação de que o jornalista vestia um Apple Watch que estava sincronizado com o iPhone já era
conhecida, mas não estava claro se os dados coletados pelo relógio foram
transmitidos para o celular, nem se os investigadores conseguiram desbloquear o
aparelho. O “Sabah”, que
cita “fontes no departamento de inteligência”, afirma que Khashoggi havia ligado a ferramenta de gravação
antes de entrar no consulado.O jornal afirma que agentes de inteligência saudita perceberam após a morte
do jornalista que o relógio estava gravando, usaram a sua digital para
desbloqueá-lo e apagaram alguns arquivos, mas não todos. E as gravações foram
encontradas no iPhone. Especialistas em tecnologia, contudo, dizem ser
improvável que o relógio possa ter gravado dentro do consulado e sincronizado
com a nuvem. A maioria dos modelos requer proximidade com o iPhone, com limite
máximo de distância de 15 metros. E os modelos mais novos, que se conectam
diretamente com o iCloud,
exigem uma rede WiFi.Arábia Saudita nega assassinatoNeste sábado, o ministro do Interior da Arábia Saudita, príncipe Abdel Aziz bin Saud bin Nayef,
denunciou as “falsas acusações contra a Arábia Saudita (..) no caso do
desaparecimento do cidadão Khashoggi”.
As teorias que “circulam sobre ordens para matá-lo são mentirosas e acusações
infundadas”, afirmou o ministro, à agência oficial de notícias SPA.O caso está gerando repercussão internacional e manchando a reputação da
Arábia Saudita. O país abriga a conferência Future Investiment Initiative a partir do dia 23, conhecida como
“Davos do deserto”, mas já registra baixas de peso
por causa do desaparecimento do jornalista. O sul-coreano Jim Kim, presidente do Banco Mundial, já anunciou sua
retirada do evento. O bilionário americano Steve Case, um dos fundadores da América On Line (AOL),
e o diretor executivo do conglomerado Viacom,
Bob Bakish,
também desistiram de viajar para a conferência. O multibilionário britânico Richard
Branson,
fundador do grupo Virgin,
suspendeu negociações para o investimento de US$ 1 bilhão do governo saudita em
seu negócio de turismo espacial e se retirou de projetos turísticos no país
saudita. “Se o que dizem sobre o desaparecimento de Khashoggi for verdade, isso muda claramente nossa
capacidade, no Ocidente, de fazer negócios com o governo saudita”.A diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, se disse “hororrizada” com as informações vindas da
Turquia, mas ainda confirma sua participação na conferência.— Eu preciso conduzir negócios do FMI em todos os cantos do mundo. Neste
momento, minha intenção é não mudar os meus planos e ficar muito atenta às
informações que chegarão nos próximos dias — afirmou Christine, neste sábado.
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