É fraude ou Freud?

Todos os anos, uma pesquisa da Associação Americana de Psicologia (APA) investiga as causas da ansiedade, da raiva e da fadiga que assolam os cidadãos nos Estados Unidos. Dinheiro e trabalho costumavam estar no topo da lista, mas, no ano passado, o acréscimo de uma nova pergunta ao questionário abriu um caminho desconhecido até então. Revelou que o que mais estressava os americanos eram preocupações com o futuro do país. A pesquisa, divulgada em novembro de 2017, entrevistou adultos residentes nos Estados Unidos. Foram ouvidos 1.376 homens e 2.047 mulheres. O “futuro da nação” foi a fonte de estresse mais citada: 63% relataram ansiedade quanto aos rumos do país. O “atual clima político”, mencionado por 57% deles, ficou em quarto lugar. A eleição presidencial de 2016, quando Donald Trump foi eleito, foi citada por 52% como uma fonte significativa de estresse. Por fim, 59% disseram não se lembrar de tempos piores que os atuais — uma sensação que atravessava gerações e foi relatada, inclusive, por americanos que viveram a Segunda Guerra Mundial, a Crise dos Mísseis de 1962 e os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.Não há, no Brasil, trabalhos empíricos especializados em mapear as origens das ansiedades nacionais. Sabe-se por pesquisas de opinião que o desalento está em alta. Um levantamento do Datafolha divulgado há duas semanas mostrou que 78% dos entrevistados estão desanimados com o país, 68% sentem raiva quando pensam no Brasil e 59% têm mais medo do futuro do que esperança. Psicanalistas sentem os reflexos disso. Perceberam mudanças nos consultórios nestes tempos de crise política, recessão econômica e disputa eleitoral agressiva. Quatro profissionais ouvidos por ÉPOCA — todos também professores de cursos de psicologia e de formação em psicanálise — afirmaram que cada vez mais pacientes têm relatado angústias causadas pela política no divã. “Questões políticas, e reflexos delas, têm aparecido direta e indiretamente no consultório”, disse Miriam Debieux Rosa, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP) e autora de A clínica psicanalítica em face da dimensão sociopolítica do sofrimento (Escuta). “Mesmo as pessoas de classe média e média alta, que são a maioria dos pacientes, temem o desamparo social, que, se não é vivido na realidade, é vivido como uma possibilidade muito próxima.” “Nunca se falou tanto de política no divã”, contou Christian Dunker, também professor do IP-USP e autor de Reinvenção da intimidade: políticas do sofrimento cotidiano (Ubu). “As pessoas se sentem inseguras e injustiçadas. Esse sentimento geral de injustiça explica por que evoluímos de uma cultura do medo e da exclusão para uma cultura do ódio. Isso tem tornado a vida das pessoas muito sofrida.” freudDunker explicou que, em tempos de anomia social, os conflitos íntimos das pessoas, cujas origens não remontam à política, são traduzidos de acordo com uma gramática pública. “É como se nossas fantasias, nosso desejo, estivessem em jogo quando falamos de democracia, ocupação dos espaços públicos ou injustiça. Cada um faz essa tradução para sua forma típica de sofrer: os paranoicos se tornam mais paranoicos; os melancólicos, mais melancólicos; os obsessivos, mais obsessivos.” Dunker apontou que alguns pacientes recorrem a um vocabulário político para descrever seus impasses subjetivos. “Uma paciente me falava de um rapaz com quem está amorosamente envolvida, mas que não a respeita e não cumpre suas promessas. Ela estava sofrendo e reclamava que esse tipo de escolha amorosa se repetia na vida dela. Eu comecei uma intervenção e disse “ele não…” e ela me interrompeu e disse: ‘É exatamente isso, #EleNão’”, contou. “Ela descreveu seu sintoma com essa expressão de forte valência política porque reconheceu que seu sofrimento se repete também na vida de outras mulheres. Ainda assim, ela usou o #EleNão para falar de si mesma, das escolhas amorosas que ela faz.”Dos quatro psicanalistas consultados, três afirmaram ter pacientes que relataram sonhos com políticos — em especial, com o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL). “Figuras políticas fazem eco a questões subjetivas. O paciente sonha com determinado candidato porque este ativa alguma questão inconsciente nele”, disse Marta Cerruti, professora do Instituto Sedes Sapientiae. “Um paranoico, quando ouve um discurso mais autoritário, que promete livrá-lo de todo mal, pode até se sentir mais protegido, mas não mede todas as consequências disso em tantas outras questões, às vezes inconscientes, que ele traz consigo.” “Bolsonaro assume a face daquele pai perverso que habita nossas fantasias, aquele tirano que todos temos dentro de nós e que (Sigmund) Freud chamou de ‘supereu’”, afirmou Dunker. “Políticos como Bolsonaro ou Lula ocupam o lugar do ‘maldito’ dentro de nós. Esse ‘maldito’ agora tem nome.”Daniel Kupermann, professor do IPUSP e autor de Estilos do cuidado: a psicanálise e o traumático (Zagodoni), não ouviu sonhos políticos no consultório, mas seus pacientes têm reclamado muito de brigas eleitorais em grupos de WhatsApp. “Esses grupos têm servido de mecanismo de projeção de ódio e agressividade dirigida a familiares e amigos com inclinações políticas diferentes”, disse. “Um tema que tem despertado a atenção de todos é o trauma. Vivemos um momento em que os sujeitos se sentem desalentados, sem ter a quem recorrer, em permanente estado de trauma, o que provoca tantas adições e depressões.”Kupermann se referiu ao psicanalista húngaro Sándor Ferenczi (1873-1933) para explicar que trauma não é um episódio, como um assédio sexual ou moral, mas ocorre num segundo tempo, quando o sujeito sente que não tem a quem recorrer, que não há quem reconheça seu sofrimento. “Traumático é quando não temos com quem contar, quem reconheça a infâmia ou a injúria que sofremos. Os efeitos do trauma podem ser a ruptura do laço social e a visão do outro como um rival, um competidor, a quem eu nunca posso recorrer.”Oaumento da sensação de desconfiança no outro, de desalento e de solidão também foi percebido pelos psicanalistas. “O universo político tem se apresentado como um universo de monólogos, o que impede que reconheçamos que o outro sofre de outras maneiras e por outros motivos. Quando isso acontece, a coisa fica pior, porque nesses monólogos cruzados, quando um grita de um lado e o outro grita de outro, todos se sentem não reconhecidos, não ouvidos e mais solitários”, explicou Dunker. “As pessoas estão muito assustadas e amedrontadas com a intolerância e o ódio. Estão receosas de declarar voto porque não sabem que tipo de violência podem sofrer por expressarem suas opiniões”, disse Cerruti. “O ódio é um tema frequente, assim como o rompimento de laços com familiares, amigos e colegas de trabalho.”Cerruti também relatou um aumento das reclamações de trabalho: os pacientes se sentem cada vez mais reféns de seus empregos e substituíveis. “Eu atendo pessoas do mundo corporativo que me ligam em cima da hora para desmarcar porque o chefe mandou ir para uma reunião ou trabalho qualquer e eles não têm a menor condição de dizer não — e olha que eu os atendo às 8 ou 9 horas da noite! Reivindicar horários ou dizer ‘não’ se tornou impensável. Muitos se sentem sempre em dívida com o empregador porque não conseguem atingir metas que não são factíveis”, disse.Embora já tenham visto os efeitos de crises no consultório antes, os psicanalistas afirmaram nunca ter presenciado tanta angústia política como agora. “Eu sou do tempo em que o paciente pagava a análise com cheque e você corria para depositar antes que o dinheiro perdesse o valor. Já vivi grande turbulência política no Brasil, mas nunca com os efeitos de incremento de sofrimento psicológico que vemos hoje”, disse Dunker. Eles citaram momentos diversos para indicar quando a política passou a comparecer com mais frequência ao divã: o mensalão, os protestos de junho de 2013, a reeleição de Dilma Rousseff, o impeachment, o derretimento da economia, a ascensão do espectro do autoritarismo. “Há uns dez anos, eu atendia uma criança fóbica que retratou bem o que acontecia, quando me disse que tinha fobia de sair na rua porque tinha medo de pobre. A fala dessa criança mostrava essa tendência social de articular pobreza e violência, de transformar as classes populares em classes perigosas”, disse Debieux Rosa.Dunker lembrou que a palavra alemã usada por Freud para falar de “desejo” é “Wunsch”, que também significa “voto”, no sentido de “aspiração” ou “pedido”, de votos de bom aniversário ou de recuperação da saúde. Não é o voto que depositamos nas urnas, mas, como o assunto é psicanálise, a livre associação é válida. “No voto está posta nossa relação com nosso desejo”, disse ele sobre as eleições de um país que precisa desesperadamente de terapia.
Leia a notícia completa em O Globo É fraude ou Freud?

O que você pensa sobre isso?