Banco Mundial e investidores desistem de ir a conferência saudita após sumiço de jornalista

RIAD – A cada dia está mais esvaziada a conferência internacional de investidores conhecida como “a Davos do deserto”, marcada para acontecer no fim do mês na capital da Arábia Saudita. O motivo é o suposto envolvimento da corte real saudita no desaparecimento (e possível assassinato) do jornalista Jamal Khashoggi, que sumiu após entrar no consulado do país em Istambul no último dia 2. A situação ficou ainda mais complicada depois que autoridades turcas afirmaram que Khashoggi foi morto e esquartejado por 15 agentes sauditas enviados a Istambul para esse fim sob ordens da realeza saudita. Além de o multimilionário britânico Richard Branson ter cancelado investimentos de US$ 1 bilhão (R$ 3,7 bilhões) em projetos na Arábia Saudita, várias instituições e empresas internacionais decidiram abandonar o evento, que está na segunda edição e cujo nome oficial é Iniciativa de Investimentos Futuros. O presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, anunciou que não mais iria ao congresso, que acontece de 23 a 25 deste mês, e vários órgãos importantes de imprensa também cancelaram sua participação e patrocínio, como o jornal “New York Times”, a revista “The Economist”, o “Financial Times”, a agência Bloomberg e as redes CNN e CNBC. A “Davos do deserto” — o apelido é uma referência à reunião anual da elite mundial dos negócios nos Alpes suíços — é um veículo para os projetos faraônicos do líder saudita, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que pretende transformar o país, que já é o maior exportador de petróleo do planeta, num gigante nos setores de tecnologia e turismo. Nem Uber vaiO “Financial Times” “não patrocinará [o evento] enquanto não se esclarecer o desaparecimento de Khashoggi”, escreveu o editor-chefe do jornal, Lionel Barber, no Twitter. A empresa Uber, responsável pelo oaplicativo de transporte, também não irá a Riad para a conferência “a menos que surja uma série de fatos consideravelmente diferentes” sobre o sumiço do jornalista saudita na Turquia, afirmou à Bloomberg o diretor da empresa, Dara Khosrowshahi. A Uber recebeu investimentos de US$ 3,5 bilhões (R$ 13,2 bilhões) do reino árabe em 2016. riaddavos Branson, fundador do grupo Virgin, por sua vez, havia recebido do país o posto de conselheiro de turismo e promessas de investir bilhões de dólares em seus projetos de turismo espacial, mas se distanciou da realeza local. “Se o que se disse sobre o desaparecimento de Khashoggi é verdade, isso mudaria claramente nossa capacidade, no Ocidente, de fazer negócios com o governo saudita”, declarou o multimilionário num comunicado. O bilionário americano Steve Case, um dos fundadores da América On Line (AOL), e o diretor executivo do conglomerado Viacom, Bob Bakish, também desistiram de viajar para a conferência. A gigante alemã Siemens não chegou a suspender sua participação, mas disse à agência AFP que procurava “acompanhar de perto a situação” sobre o paradeiro de Khashoggi. Nomes retirados de siteNa sexta-feira, o website da conferência removeu todos os nomes dos executivos e autoridades anunciados anteriormente, devido ao esvaziamento. Mas, antes, o evento anunciava on-line a presença da chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, do presidente do banco americano JP Morgan, Jamie Dimon e do secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, além de altos executivos dos bancos de Wall Street. Mnuchin confirmou que iria.— Por enquanto penso em ir à conferência. Se surgirem novas informações [sobre Khashoggi], nós as levaremos em conta, mas por ora pretendo comparecer — afirmou Mnuchin na sexta-feira. Outras presenças anunciadas na conferência eram as dos dirigentes das gigantes francesas BNP Paribas, Société Générale, Thales, EDF e AccorHotels.— Os investidores têm muito interesse [no país] para brigar com os sauditas — comentou o diretor adjunto do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), grupo lobista francês, Didier Billion. — O que pode acontecer é que as empresas não estejam representadas por seu primeiro escalão.Grandes bancos da comunidade financeira internacional aparentemente não desistiram de comparecer, como HSBC (que preferiu não comentar sobre a ida de seu presidente John Flint), Credit Suisse e Standard Chartered (banco focado em investimentos no Oriente Médio, Ásia e África), além de Bank of America, Citigroup, Goldman Sachs e Morgan Stanley (que não responderam a pedidos de entrevista sobre o assunto).EUA não congelarão venda de armasAinda que os Estados Unidos, aliados tradicionais da Arábia Saudita, tenham exigido investigações e esclarecimentos sobre o estranho sumiço do jornalista em Istambul, o próprio presidente americano, Donald Trump, já descartou o congelamento da venda de armas para o reino árabe. — Os sauditas gastam US$ 110 bilhões (R$ 416 bilhões) em equipamentos militares e outros produtos que geram empregos nos EUA — afirmou Trump na Casa Branca. — Não gosto da ideia de acabar com esse investimento aqui, sabendo que eles poderiam gastar esse dinheiro na Rússia ou na China. Washington, no entanto, já foi alertada por fabricantes americanos de armamentos de que o Congresso poderá bloquear futuras vendas ao país em retaliação ao sumiço de Khashoggi.Para o príncipe bin Salman, a conferência vai além de uma simples questão de prestígio — ele precisa do apoio dos grandes investidores internacionais para seu ambicioso programa econômico. E quer convencê-los a acolher a entrada nas bolsas de valores de 5% da gigante petroleira Aramco. A oferta pública inicial das ações está prevista para o fim de 2020 e poderia gerar aportes de pelo menos US$ 100 bilhões (R$ 378 bilhões) para a Arábia Saudita.
Leia a notícia completa em O Globo Banco Mundial e investidores desistem de ir a conferência saudita após sumiço de jornalista

O que você pensa sobre isso?