Artigo: Dona Ivone está no topo, seja qual for a amostragem

RIO – “O que a mão ainda não toca/ Coração um dia alcança”. “Esses versos são mesmo uma síntese para a biografia dessa mulher”, pensei e, enquanto ouvia “Força da imaginação”, parceria de Dona Ivone Lara com Caetano Veloso, constatei que meus amigos estavam emocionadíssimos – alguns choravam baldes. Vivíamos o último dia 31 de março, quando a Casa do Jongo reabriu suas portas em Madureira com uma homenagem para Dona Ivone. Uma roda de samba composta exclusivamente por cantoras e instrumentistas mulheres, egressas de seis grupos do Rio, de São Paulo e de Curitiba, desfiou o repertório da compositora por mais de três horas.

Quem ouviu, e ainda não tinha se dado conta, pôde constatar sua magnitude: Ivone é uma gigante, equivalente a um Cartola, um Nelson, um Candeia. Isso se formos comparar apenas com outros compositores que marcaram a história das escolas cariocas. Porque, seja qual for o escopo ou a amostragem, Ivone está no topo. Ela é panteão. Para quem já sabia disso, aquela tarde de sábado, iniciada com “Amor inesquecível” e terminada já de noite, com “Alguém me avisou”, foi a oportunidade não apenas de festejar, também de se despedir. Marcando na palma da mão, dissemos um adeus reverente e alegre à menina-prodígio que, como na canção lá do início deste texto, sempre alcançou com o coração o que a mão não podia tocar. Órfã aos 6 anos de idade, fez o primeiro samba aos 12, era excelente aluna, foi chamada de “rouxinol” por Villa-Lobos e conquistou duas profissões – a de enfermeira e a de assistente social. Tinha gana para ser o que quisesse. E escolheu ser aquilo que era interditado para as meninas do seu tempo, e ainda para muitas do nosso: autora.

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Com as raízes fincadas na Prazer da Serrinha, escola que daria origem ao Império Serrano, Ivone poderia assumir tranquilamente um posto de destaque na escola, nas posições geralmente destinadas à mulher: baiana, passista, destaque e, mais tarde, integrante da velha guarda. Seu caminho, como sabemos, foi outro: em 1965, já compositora experiente, criou, em parceria com Silas de Oliveira e Bacalhau, aquele que é considerado um dos maiores sambas-enredo da história do carnaval, os “Cinco bailes da História do Rio”. Mas ela só seria incorporada oficialmente à Ala dos Compositores do Império na década de 1980, quase 20 anos depois do samba ser consagrado na avenida (a escola seria vice-campeã, em disputa apertada com o Salgueiro) e permanecer na memória dos desfiles.

O hiato e mesmo a raridade de uma figura como a de Dona Ivone Lara mostra um pouco como o carnaval e o meio do samba – em última instância, o meio cultural – ainda é misógino e machista. Fundamentais nos bastidores e no dia-a-dia dos barracões das escolas, as mulheres ainda têm poucas posições de destaque como carnavalescas (salve Rosa, salve Maria Augusta), compositoras ou mestras de bateria. À exceção da porta-bandeira, figura arquetípica e parte de um casal, e de outros papéis ligados mais aos atributos físicos que intelectuais, as mulheres não são reconhecidas como fonte criadora. Cabe a elas a cozinha dos desfiles: a literal, no comando das feijoadas de cada quadra; a figurada, nas tarefas laboriosas de costura e arremate, nos naipes de metal e de instrumentos percussivos mais leves e de menos ênfase na bateria, caso dos chocalhos.

Ivone reverteu todas as expectativas para uma “mulher do samba”, talvez por representar como poucos artistas o que o samba foi e ainda pode ser. A formação clássica recebida na escola e nos concertos com Villa-Lobos, somada às origens quilombolas da Serrinha, faz com que seu cancioneiro seja praticamente uma aula do grande encontro promovido pelo samba: o da ordenação/formalização da música branca, europeia, com o canto e a percussão dos ritmos de origem africana. Em canções como “Candeeiro da vovó”, “Andei para Curimá”, “A sereia Guiomar” ou mesmo a já citada “Alguém me avisou” ouvimos o eco da ancestralidade e muitas vezes sentimos ainda a presença ritual das religiões africanas. Mas esse legado é embolado a uma estrutura muito consistente, que organiza os fraseados e muitas vezes invade com valsas e citações da música clássica a batida afro. Ivone pisou devagarinho em seu chão ancestral, mas o reinventa a seu modo, com sua história – e por isso foi e é tão gigantesca.

Pioneirismo ao lado também de Nise da Silveira

O pioneirismo de Dona Ivone não se resumiu ao samba. Ela quis se inscrever como enfermeira da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra. Parte de seus amigos e parentes atribui a esse desejo a adulteração de seus dados de nascimento, que a tornaram um ano mais velha (tinha 96 anos, e não 97, como dizem os registros).

Outros depoentes dizem que a mudança foi para facilitar questões escolares e adoção pelos tios da jovem órfã. O fato é que ela jamais foi para o front, o que não a impediu de enfrentar outras batalhas. Em 1946, foi a única enfermeira do Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, a aceitar trabalhar espontaneamente ao lado de uma médica taxada de excêntrica, que havia sido presa política da ditadura Vargas e que acabara de reassumir seu posto: Nise da Silveira. Ao lado da doutora e do artista Almir Mavignier, participou da fundação do Ateliê de Arte e da Oficina de Música que dariam origem, respectivamente, ao Museu de Imagens do Inconsciente e ao bloco Loucura Suburbana. Nise humanizou o tratamento dos pacientes esquizofrênicos e com outros males psíquicos, antes dados como casos perdidos e submetidos à violência dos choques elétricos e à lobotomia.

A convivência de Ivone com a psiquiatra começou um ano antes da fundação do Império Serrano (a escola é de 1947), mas a compositora já tinha uma obra extensa na música. Coube a ela conduzir as atividades nessa seara, enquanto Mavignier assumiu o ateliê de pintura e escultura. Para conseguir montar sua oficina, contou com a ajuda do primo, ídolo do time de futebol da fábrica de tecidos Nova América, com a ajuda do primo, e arrancou do dono da empresa o dinheiro necessário para a compra de todos os instrumentos, além de microfones e caixas de som para as festas, extremamente necessárias no processo de reaproximação dos internos, que Nise chamava de “clientes”, com seus familiares. Ivone era essa ponte, a reintegração do lar. Gastou muito sapato e muita lábia convencendo parentes de que os “loucos”, antes dados como causa perdida, agora contavam com um tratamento novo e uma médica que acreditava na sua reintegração psíquica e social. Visitou lares em todos os cantos do Rio de Janeiro, viajando ainda para cidades e estados vizinhos. Por fim, quando começou a ver que muitos “clientes” de fato poderiam ir para casa, passou a envolver os parentes e voluntários na criação de cadernetas de poupança, de modo a dar a eles um novo início financeiro.

Ivone foi um dos poderosos vértices do encontro ocorrido no Engenho de Dentro. A partir do humanismo visionário de Nise, a música que ela trazia no corpo e na voz encontrou com a arte de Mavignier, e eles transformaram e foram transformados pela loucura. O impacto das atividades realizadas pela equipe de Nise no Engenho de Dentro na história recente da arte brasileira é imenso. Mavignier era funcionário do hospital, e através dele outros dois artistas – Abraham Palatnik e Ivan Serpa – e o crítico Mario Pedrosa passaram a frequentar o hospital. Palatnik acabou se tornando uma espécie de voluntário, participando ativamente da rotina dos internos, a quem até hoje se refere como “meus colegas”. A liberdade com que “clientes” como Raphael Domingues e Emygdio de Barros tratavam a cor e a forma provocou uma espécie de crise criativa no artista, que abandonou a pintura figurativa e ficou dois anos sem produzir nada, perseguindo modos de transgredir e superar o que vinha fazendo. Até que, em 1949, Palatnik inventou o primeiro “Aparelho cinecromático”, obra que é a um só tempo pioneira da arte cinética e da arte construtiva no Brasil. Já cheguei a afirmar, em textos sobre arte, que a loucura do Engenho de Dentro foi uma das sementes para a fusão entre arte e vida que artistas egressos do Neoconcretismo vão realizar no fim dos anos 1960. Qual é o um impacto que esse convívio com a doutora Nise e seus “clientes” teve na música de Dona Ivone? É uma das histórias que persigo a partir de agora, na pesquisa de sua biografia.

* Daniela Name é jornalista e prepara biografia sobre Dona Ivone Lara


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