A voz do morro se cala

No curto período de três meses, quatro escolas de samba do Grupo Especial do Rio divulgaram a decisão de não realizar os concursos de escolhas de samba-enredo para o carnaval 2019. Paraíso do Tuiuti e Acadêmicos do Grande Rio encomendaram seus sambas a compositores consagrados; São Clemente reeditará um samba clássico, e Império Serrano desfilará com um samba do falecido Gonzaguinha, um ícone da MPB. Ao que parece, o sucesso alcançado pelo desfile da Tuiuti em 2018, quando a escola optou por não realizar disputa de sambas e desfilou com uma obra encomendada, chegando ao vice-campeonato, acabou por incentivar uma prática que pode abalar de forma radical ou mesmo destruir um dos pilares da cultura carioca.A reedição de sambas-enredo famosos, nos primeiros anos do século XXI, já tinha sido criticada por desvalorizar as alas de compositores, eliminando todo um processo de escolha de sambas sedimentado na tradição do carnaval. É fundamental lembrar que as agremiações nasceram e cresceram em torno dos compositores, de núcleos fundadores que compunham obras cantadas nos terreiros e depois no carnaval. O esvaziamento da moda das reedições, entretanto, não parece ter evitado a contínua desvalorização das alas de compositores, um dos poucos espaços de diálogo entre o espetáculo visual produzido nos barracões e a criação eminentemente popular dos sambas-enredo.O ciclo tradicional de escolha dos sambas, iniciado com a apresentação da chamada sinopse do enredo pelos carnavalescos, é o ponto de partida de uma singular atividade criativa que, mesmo muitas vezes dominada pelo poder econômico, abre espaço para a divulgação do trabalho de centenas de compositores ligados às comunidades de sambistas e às camadas populares. Estes, sozinhos ou em parcerias, criam as obras que vão participar de um concurso realizado em forma de “cortes” semanais, as “eliminatórias”, que culmina na chamada “escolha do samba”, o maior evento organizado pelas escolas, com exceção do desfile oficial.Reunir semanalmente compositores, puxadores, ritmistas, músicos e público em geral em torno de uma expressão musical tão marcadamente carioca tem sido uma forma enfática de afirmação daquilo que nossa cultura tem de mais popular. É um espaço e um momento únicos de fortalecimento da identidade dos sambistas, do sentimento de pertencimento a uma comunidade e da troca de vivências musicais, tudo isso centrado no poder da tradição e da transformação da ala dos compositores, que guardam consigo a memória musical de cada escola. A profusão de obras apresentadas e apreciadas nesses eventos, entre cem e 200 a cada ano somente nas escolas de Grupo Especial, é um verdadeiro mostruário do falar de nossa sociedade e de sua capacidade criativa. A disputa, que extrapola as quadras e invade o universo virtual, incentiva o diálogo entre diferentes vozes que é, essencialmente, o que se entende por cultura popular.Pois é exatamente essa riqueza que está sendo ameaçada com a atitude radical tomada por algumas escolas atualmente, no Grupo Especial e também no Grupo de Acesso — onde, no último carnaval, cinco agremiações desfilaram com sambas feitos sob encomenda.O que está em questão não é a qualidade das obras encomendadas. Estas, compostas por grandes nomes da música popular, ou escolhidos no repertório de obras clássicas do cancioneiro, têm a garantia de qualidade de seus autores. O ponto nevrálgico é o estreitamento, ou a possível eliminação total, de um dos espaços de expressão da arte popular carioca, o que sufocará a produção musical e calará vozes de centenas de artistas. Pode será a morte das alas de compositores, destruindo sua função criativa e de articulação dentro das escolas de samba.Fecham-se, uma a uma, as portas que se abriam para vozes que, muitas vezes, não têm outros espaços de divulgação. Deixam de serem ouvidas as sintaxes e harmonias populares próprias do mundo do samba que enriqueceram nosso cancioneiro e lançaram muitos dos gênios de nossa melhor cultura musical, como Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara, Cartola, Monarco, Djalma Sabiá, Zé Katimba e Martinho da Vila, entre tantos outros.Esse verdadeiro tiro no pé dado por algumas escolas pode não só dificultar sua caminhada, mas calar a voz do morro cada vez menos ouvidas nas quadras e na avenida.Felipe Ferreira é coordenador do Centro de Referência do Carnaval da Uerj, e Aloy Jupiara é jornalista
Leia a notícia completa em O Globo A voz do morro se cala

O que você pensa sobre isso?