Três projetos sociais da Zona Norte unem forças para enfrentar a crise


RIO — Seja na delicadeza do balé, na agilidade do passinho ou na quebrada do hip hop, a dança é fonte inesgotável de inspiração. É o que defendem Daiana Ferreira, Ellen Serra e Thiago de Paula, diretores de ONGs da Zona Norte que, a despeito das dificuldades, encontraram na beleza do corpo ritmado uma maneira de fazer a diferença na vida de crianças e jovens. O gesto de um contagia o do outro. Não à toa, agora eles fazem parte do “Três movimentos”, projeto que cristaliza a sintonia das iniciativas e aponta uma maneira de enfrentarem juntos a crise financeira que assola ainda mais as comunidades e periferias.

Dança Zona Norte— Só a gente sabe o que é estar à frente de um projeto social. Digo que a gente não vive, mas sobrevive, parece “The walking dead”. A gente está sempre em busca de parcerias e apoios — resume Daiana, bem-humorada, ao fazer referência à serie americana sobre zumbis.

Há seis anos, ela administra o Ballet Manguinhos, no bairro de mesmo nome, onde atende 174 alunos. Formada em Educação Física, Daiana idealizou o “Três movimentos” após ajudar a campanha da Reserva Mini, marca de roupas e acessórios infantis que criou sua nova coleção com estampas relacionadas à dança. São os meninos e meninas das ONGs que participam das ações de marketing da empresa. Em troca, parte da renda adquirida com a venda das peças será revertida para o projeto. Mais que o dinheiro, eles frisam, importa manter aberta a janela da visibilidade, essencial num contexto em que os mais pobres se tornam invisíveis aos olhos do poder público.

Em junho, quando o passinho conquistou o título de patrimônio cultural do Rio, De Paula comprovou o efeito positivo que atitudes do gênero provocam na autoestima de jovens dançarinos.

— Faz muita diferença na vida de todos nós. As crianças e os adolescentes se sentem parte da construção da nossa cidade. Então, não estão mais só dançando funk, mas reconstruindo a história do lugar que eles moram. O pacto social é surreal — ressalta ele, que, no dia anterior à entrevista para esta reportagem, comemorou os três anos da Companhia Passinho Carioca, localizada na Penha.

Embora se organizem em torno da dança, os projetos se desdobram para, saudavelmente, extrapolá-la. São uma segunda casa e abrigam os alunos, criando um cinturão afetivo de proteção. Diretora do Vidançar, no Complexo do Alemão, Ellen Serra conta com orgulho a história de Luís Fernando, que, há dois anos, foi aprovado para a filial do balé Bolshoi em Joinville, em Santa Catarina.

— Ele tem oito irmãos, seis deles autistas e com problemas psiquiátricos. Ele chegou ao projeto com 12 anos e estava mal na escola. Nós conseguimos fazer o resgate dele. Com 15, ele foi aprovado. O Luís se tornou um dos primeiros alunos negros, de periferia, do Bolshoi. É uma história muito inspiradora para outros jovens que estão nesse mesmo caminho. De fora, alguém poderia pensar que ele não ia chegar a lugar nenhum. Mas você precisa acreditar no potencial das pessoas — destaca.

‘Quando danço, me sinto mais feliz’

Thallys Mayrink é tímido, especialmente diante de estranhos. Mas isso muda quando está no palco. Fora dele, a voz sai quase sem querer, mas o que ela diz traduz muito bem o que a dança representa na sua ainda breve vida.

— Eu amo dançar. Quando danço, me sinto mais feliz. Meus pais e meu tio dançavam. Minha irmã, que só tem 2 anos, está começando e já ensino uns passos para ela — conta Thallys, de 9, cujos ídolos são Michael Jackson e Chris Brown.

Crianças como ele são a matéria-prima do “Três movimentos”. Se hoje são guiados pela experiência dos mais velhos, o desejo é que cumpram esse papel no futuro. Para isso, é preciso cuidado com cada etapa desse crescimento. É como está estampado na camisa dele: “Um passinho de cada vez”. Essa certeza explica por que os três projetos dedicam especial atenção aos jovens.

— Gostamos de trabalhar com a juventude, dos 15 aos 29, uma fase perigosa. Quem está na favela sabe que o jovem que está lá sem fazer nada pode desviar o caminho, engravidar, ir para a bandidagem… Então nós fazemos com que eles não tenham tempo para mais nada. Até no fim de semana damos um cansaço neles — reforça Daiana.

Quando ficou grávida, aos 28, ela reuniu os alunos para falar da sua experiência. “Se eu, que sou casada, formada, tenho minha casa, só quis engravidar agora, imagina vocês?”, perguntava ela. Hoje, Daiana comemora o fato de nunca ter havido gravidez na adolescência no grupo.

— O foco é no exemplo. É o que somos para eles. Nós podemos falar, fazer barulho, mas o que importa são as nossas ações — destaca.

Essa preocupação norteou como Thiago acolheu os 19 alunos que estão atualmente em sua companhia:

— Nós não excluímos quem não estuda. Às vezes os próprios muros da escola e o tiroteio nas favelas tiram o aluno de lá. Se fizermos isso, vamos criar outra barreira para a juventude preta das favelas. Mas no projeto sempre incentivamos e falamos da importância do conhecimento.

O processo na Vidançar é diferente, sustenta Ellen. Por lá, além da obrigatoriedade da matrícula escolar e da vacinação em dia, há um acompanhamento das notas dos 124 alunos da ONG.

— Já na matrícula, falamos: “Quer participar? Vai na escola para se matricular”. Começamos em dezembro justamente para dar tempo de fazer. Após passarmos a cobrar mais que a assiduidade, sentimos os pais mais participativos. Há três anos não temos reprovação escolar. Aliás, já avisamos: só vai ganhar presente no Natal quem… Quem o quê, Thallys? (Ellen olha para ele).

— Tirar nota boa — completa o menino, com a certeza de que seu embrulho está garantido.

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