Transiberiana: Birobidjan vive dilema entre expectativa e realidade

Um dos memes mais populares da internet é aquele da “expectativa x realidade”. Você conhece. Já viu alguma vez no Instagram ou recebeu no grupo de WhatsApp da família. Uma montagem mostra uma bela foto — a expectativa — e outra já nem tão bela assim — a realidade. Esse meme descreve brevemente a história da pacata e pouco conhecida Birobidjan.A cidade foi criada em 1934 como uma região autônoma judia, uma ideia soviética para estabelecer um território para os judeus, o primeiro no mundo, já que o Estado de Israel só seria fundado em 1948. A expectativa era, portanto, grande. Mas o local escolhido para a “terra prometida” não era exatamente um paraíso. Birobidjan fica a 8.351 quilômetros de Moscou, naquele lugar que convencionamos chamar hoje em dia de “meio do nada”. O inverno era rigoroso, seria difícil plantar qualquer coisa. Mesmo assim, muitos judeus resolveram apostar na empreitada.Se a realidade já não era fácil, piorou poucos anos depois. No fim da década de 1930, teve início o Grande Expurgo de Josef Stálin, atacando opositores políticos e “elementos antissoviéticos”. Os judeus passaram a ser perseguidos, e o iídiche, língua usada por eles na Europa Oriental, foi banido. A região voltou a ser procurada após a Segunda Guerra Mundial, quando muitos judeus, sem ter para onde ir, se fixaram em Birobidjan. Com o fim da União Soviética e a crise do início dos anos 1990, ocorreu nova diáspora. Estima-se que cerca de 20 mil judeus tenham deixado a região rumo a Israel.Cerca de três mil judeusHoje, Birobidjan tem cerca de 80 mil habitantes. As ruas são calmas, com pouquíssimo movimento. A cidade é bem cuidada e arborizada, com várias praças — quase sempre vazias. Um belo boulevard à beira do rio estava praticamente deserto no fim da manhã em que passei por lá. Os sinais em iídiche podem ser vistos em vários lugares. Nas placas com nomes de ruas, nas fachadas de alguns restaurantes, nas sinalizações de algumas praças. No letreiro da estação ferroviária, Birobidjan está escrito em russo e iídiche. O rabino local, Eli Riss, acredita que cerca de três mil judeus ainda vivam na cidade.— A comunidade não é grande, mas sou rabino aqui há seis anos e posso dizer com certeza que estamos crescendo. Estamos construindo um centro jovem e um restaurante kosher. Vivemos aqui com a ideia dos judeus, de ajudar uns aos outros.Se o restaurante com comida típica judaica ainda não está pronto, quem quer provar a culinária chinesa não passa fome. A presença oriental é forte na região. Na fachada do hotel onde fiquei hospedado havia um letreiro em chinês. A fronteira com a China não está longe — são pouco mais de 100 quilômetros. Eu não queria comida chinesa. Estava sonhando com um bom pedaço de carne. Encontrei um restaurante bem recomendado na internet e me apaixonei pela foto de um filé que vi no cardápio. Caminhei até lá já salivando, entrei e fui saudado pela garçonete, que me fez uma pergunta. Obviamente não entendi, mas um pouco por instinto e muito por fome, respondi “sim”. Talvez ela estivesse perguntando “mesa para um, senhor?”. Não era isso. Aparentemente eu havia aceitado o menu do dia. Bastou eu me acomodar e minha mesa passou a ser servida com pães, sopa, salada e um prato quente. E eu não havia nem tirado meu casaco ainda. Fiquei satisfeito com meu engano involuntário e comi quase tudo, mas eu estava ali para devorar o filé que havia visto no cardápio. Fiz o pedido, e a garçonete ficou ao mesmo tempo confusa e espantada com o tamanho da minha fome.Você certamente já foi alguma vez enganado pela foto do cardápio, não? Aquele prato lindo estampado no menu raramente se materializa na sua mesa. Não foi o caso. O filé chegou e era ainda mais bonito do que eu esperava.Ao menos nesse caso, a realidade bateu a expectativa.
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