Silva evolui, mas ainda oscila ao questionar o país em álbum de brasilidade pop

É sintomático que o quinto álbum de estúdio de Silva, Brasileiro (selo slap), feche com samba que exalta o país a partir da imaginação de um estrangeiro. “Brasil, Brasil / Onde é que fica o Brasil? / Brasil, Brasil / Quem conhece o Brasil? / Ouvi dizer / Que é um lugar bem bom pra se morar / Quem mora lá / Não quer nem viajar”, supõe o cantor e compositor capixaba em letra ouvida sobre o baticum que embasa esse samba intitulado Brasil, Brasil (Lúcio Silva e Lucas Silva).
Por mais que haja certa ironia em questionamento que bem pode exprimir saudade do país de um futuro que nunca chega, os versos focam um olhar estrangeiro sobre o Brasil cantado e poetizado por Lúcio Silva em álbum que sedimenta a guinada pop esboçada pelo artista no anêmico álbum autoral anterior, Júpiter (2015), e consolidada no projeto de 2016 em que Silva abordou o repertório da cantora e compositora Marisa Monte.
Ao cantar Marisa em show que virou disco, Silva se deparou com cancioneiro que embute brasilidade na arquitetura pop. É que o Silva faz, com menor êxito, em Brasileiro, álbum produzido pelo próprio artista, que se revezou no estúdio nos toques de piano elétrico, piano acústico, sintetizador, programações, violão, baixo, violino e percussão (há outros músicos nos sopros, na bateria e na percussão). Como mostram músicas como Duas da tarde (Lúcio Silva e Lucas Silva), a brasilidade do disco é filtrada pela bagagem pop gringa desse compositor que começou imerso em onda tecnopop que fez emergir influências do som da década de 1980.
Silva
Divulgação slap / Wilmore Oliveira
Há ecos desse tecnopop nos beats sintéticos do arranjo de Ela voa, música com a qual Silva abre parceria com o compositor fluminense Ronaldo Bastos, letrista de emblemáticas canções do Clube da Esquina. Em Ela voa, o lirismo poético e popular de Bastos plana em sintonia com o clima leve e geralmente cool do disco.
Música que abre o álbum confirmando a evolução de Silva como compositor, Nada será mais como era antes – uma das oito parcerias de Silva com o irmão Lucas Silva incluídas na safra mais nacionalista do artista – reverbera e atualiza o título de famosa canção de Bastos, Nada será como antes (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1972), demolindo símbolos nacionais (em versos como “Derrubaram a palmeira do bicho” e “Nunca vi um sabiá por aqui”) e fazendo questionamentos como exilado que se sente estrangeiro na própria terra (des)amada. “Eu já me perguntei / Como a gente vai ser brasileiro”, pondera Silva, articulando pensamento que sintoniza a desperança dos brasileiros que já sentem que, não, nada será mais como era antes.
Capa do álbum ‘Brasileiro’, de Silva
Arte de André Paste
Como simboliza a expressiva arte da capa criada por André Paste, o álbum Brasileiro reflete a visão que Silva tem de um país que se equilibra na corda bamba entre as belezas e as mazelas nacionais. Um dessas belezas é o samba, ritmo recorrente do disco. É o samba que sereniza Guerra do amor (Lúcio Silva e Lucas Silva), que ganha clima de bossa nova no pagode romântico Prova dos nove – música do compositor Dé Santos que mostra Silva já disposto a abordar canções alheias após o mergulho providencial na obra de Marisa Monte – e que pauta o ritmo do violão condutor do tema instrumental Sapucaia (Silva).
É um samba com bossa. Por mais improvável que a conexão possa soar, a voz e o violão que introduzem Milhões de vozes – primeira parceria de Silva com Arnaldo Antunes – ecoam o canto e a bossa matricial de um certo João Gilberto, uma voz única.
De todo modo, por mais que o álbum transite na rota que guia Silva rumo a uma brasilidade latente (o texto distribuído aos formadores de opinião informa que o artista ouve discos de João desde criança), o álbum Brasileiro também pega atalhos que poderão manter Silva no trilho mais pop seguido pelo cantor desde 2015.
Gravada com Anitta em dueto fraterno, condizente com a natureza de letra que soa como papo entre amigos, Fica tudo bem (Lúcio Silva e Lucas Silva) é música que tem potencial para o sucesso popular e que exemplifica a simplicidade adotada pelo compositor em canções mais recentes. É como cigano cidadão do mundo pop que Silva cai no samba em Let me say (Lúcio Silva e Lucas Silva), dizendo “adeus à terra do que sou”.
Silva
Divulgação slap / Wilmore Oliveira
Nessa rota pop nacionalista, o brasileiro-estrangeiro reivindica origens e demarca território. “Sou nascido e moro nessa terra / Mas se eu morrer me deixe morto / Já que sou pedaço desse chão”, canta na frutífera Caju (Lúcio Silva e Lucas Silva) sobre baticum que remete ao universo musical afro-pop-baiano no qual brotou o matiz do axé A cor é rosa (Lúcio Silva e Lucas Silva), deliciosa música previamente lançada como single que anunciou, sem aviso prévio, a chegada ao mercado fonográfico deste álbum em que Silva apresenta temas instrumentais como Palmeira (Lúcio Silva), levado ao piano.
A questão que dilui a força de Brasileiro (e que impede o álbum de ser o grande disco que talvez pudesse ser) é que, mesmo em nítida evolução como compositor (progresso atestado na criação da melodia de Palavras no corpo, feita sobre letra de Omar Salomão para o álbum que Gal Costa lança em agosto), Silva ainda oscila. A safra autoral de Brasileiro é menos inspirada do que o conceito deste disco cívico que questiona o Brasil ao mesmo tempo em que exalta o país com o ufanismo possível nos dias de hoje. (Cotação: * * * 1/2)
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