'Senti como se Leila estivesse presente em mim', diz Ittala Nandi sobre homenagem no Festival de Cinema de Brasília

Atriz recebeu o Prêmio Leila Diniz, dedicado a mulheres que marcaram a história do cinema nacional. Ao G1, Ittala falou sobre a carreira e a luta pela liberdade sexual. Tontura, nervosismo e falta de ar. Sensações que a atriz Italla Nandi nunca esteve acostumada a sentir apareceram quando ela recebeu o Prêmio Leila Diniz na abertura do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, no dia 14 de setembro.
“Eu estava tão pirada de nervosa, eu fiquei tonta”, disse Ittala ao G1. “Acho que nem agradeci a ideia de terem criado este prêmio de tão emocionada. Tinha pensado no que ia dizer, até anotado, mas me deu um branco total.”
“Foi impressionante. Eu senti como se a Leila estivesse muito presente, presente em mim.”
O prêmio presta homenagem a mulheres que marcaram a história do cinema nacional na primeira edição do festival em que as mulheres são maioria na direção dos filmes selecionados para as mostras competitivas. A montadora Cristina Amaral também foi condecorada.
A atriz Ittala Nandi e a montadora Cristina Amaral recebem o Prêmio Leila Diniz, no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Humberto Araújo/Divulgação
Italla e Leila Diniz foram grandes amigas nas décadas de 1960 e 1970. Juntas, defenderam a liberdade sexual feminina e quebraram estigmas no teatro e no cinema.
A trajetória da atriz carioca acabou em 1972, quando morreu em um acidente aéreo, mas Ittala segue mantendo viva a história que construíram.
Ela protagonizou o primeiro nu do teatro brasileiro, na peça “Na selva das cidades” (1969), e estrelou em filmes que ganharam importância internacional, especialmente durante a ditadura, como “Prata Palomares” e “Pindorama”.
A atriz Ittala Nandi aos 76 anos
Júnior Aragão/Divulgação
Formada em ciências contábeis, Ittala afirma que não escolheu a carreira de atriz e tampouco imaginou que assinaria a direção de dois filmes e chegaria até a 51ª edição do Festival de Cinema de Brasília protagonizando mais um – “Domingo”, de Clara Linhart e Fellipe Barbosa.
“Eu nunca optei por essa profissão, ela que foi me pegando.”
Cena do filme “Domingo” (RJ), de Clara Linhart e Fellipe Barbosa, que abre o 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Festival de Brasília do Cinema Brasileiro/Divulgação
Em entrevista ao G1, Ittala Nandi falou sobre:
O simbolismo do Prêmio Leila Diniz
A luta pela liberdade sexual na ditadura
A relação com os homens nas artes
O nu em “Na selva das cidades”
A sessão exclusiva para censores
Filmes censurados e exibidos em Cannes
A história no teatro
De contadora a atriz
A ditadura e o Teatro Oficina
A migração para o cinema
Teatro ou cinema?
A luya de hoje
Leia entrevista completa:
G1: O que significou, para você, receber o Prêmio Leila Diniz?
Ittala Nandi: O prêmio é uma resposta positiva a tudo o que nós duas queríamos na época. Porque a repressão era muito grande e nós inventamos de não sentir a repressão, a gente queria ser o que era e fazer o que quisesse.
A atriz Ittala Nandi recebe o Prêmio Leila Diniz, no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Humberto Araújo/Divulgação
Quando recebi o prêmio, senti a Leila presente de uma forma, que não me lembro nem o que eu disse. Só sei que tive que tomar fôlego, porque estava trancada.
G1: Como foi a luta de vocês duas pela liberdade sexual feminina durante a ditadura?
Ittala: Nós éramos censuradas e fomos catalogadas de putas. Eu me lembro de uma entrevista para o Alessandro Porro, um jornalista italiano maravilhoso da revista Realidade, em 1968. A matéria era: “Essa mulher é livre”. Depois foi até retirada das bancas.
Leila Diniz no filme “Todas as mulheres” (1966)
Acervo O Globo/Reprodução
Eu falei sobre a liberdade sexual, que não achava justo que os homens que transavam com mulheres fora do casamento, dentro do casamento, com mais de uma, mais de duas, mais de três, fossem os machões e tudo ótimo. Mas, se a mulher fizesse isso, era uma puta.
“Eu dizia ‘isso tem que parar’.”
A atriz Ittala Nandi aos 76 anos
Júnior Aragão/Divulgação
Esse foi o ponto que ferrou tudo, porque a repressão ficou ainda maior. Contra mim ainda mais que contra a Leila, porque ela não teve a chance de dizer isso, mas era o que nós duas pensávamos.
Depois dessa entrevista, eu fiquei um ano proibida de falar. Não podia nem me justificar. Os jornais estavam proibidos de me procurar e falar qualquer coisa comigo.
Também nunca mais vi outra edição da revista. Aquela, que deve ter sido a última, fazia homenagem às mulheres. Pela primeira vez, aparecia a foto de uma mulher parindo, isso foi uma coisa muito, muito poderosa.
G1: Como era sua relação com os homens no teatro e no cinema?
Ittala: Eu e a Leila éramos muito procuradas por homens, todos os melhores, mais bonitos, amados queriam transar com a gente e a gente não transava.
A Leila estava casada com o Ruy [Guerra, cineasta moçambicano], eu estava casada com o André [Faria, cineasta], pai do meu filho, na maior felicidade – pelo menos isso estava acontecendo de bom.
A atriz Ittala Nandi aos 76 anos
Júnior Aragão/Divulgação
Me lembro até que o Renato Borghi, com quem eu trabalhava no Teatro Oficina, falava assim: “Você é o único símbolo sexual que não transa. Vai transar mulher!”. Fazia dois anos que eu não transava com outra pessoa.
O que acontece é que eu tinha ficado nua na peça “Na selva das cidades”, o primeiro nu do palco brasileiro. Isso me estigmatizou muito, como se eu fosse uma puta, como se transasse com todo mundo – e eu não transava.
G1: Para o que você defendia na época, o nu na peça “Na selva das cidades” foi bom ou ruim?
Ittala: Foi bom por um lado, porque eu não tinha a menor ideia do impacto que esse nu provocaria.
Nos ensaios, eu usava um kimono roxo e a personagem que fazia queria provar para o homem que ela o amava. Na cabeça dela, a personagem achava que a nudez era a maior prova de amor, de entrega. Eu fazia a cena com calcinha, mas sem nada nos peitos.
Nem Zé Celso [José Celso Martinez Corrêa], que dirigia a peça, nem o Renato, nem o Fernando Peixoto, nenhum de nós, que éramos os cabeças da Oficina, comentamos sobre isso em algum momento.
Eu achava, na minha ignorância – eu era muito nova, tinha 22 anos, e não conhecia muito bem a história do teatro brasileiro – que o teatro de revista já tinha feito nus. Nunca me passou pela cabeça que o meu seria o primeiro. Nunca.
Mas foi, e foi aquele escândalo. Só tomei consciência depois, pela reação que teve. Aí que eu comecei a perceber a loucura que eu tinha feito, mas o Zé manteve e foi um sucesso.
G1: Como foi quando a censura passou para assistir ao espetáculo?
Ittala: No dia da censura, foram seis censores, Doutor Coelho e mais cinco assistentes. A peça demorava sete horas, a única pessoa de fora que assistiu a essa montagem foi o Arnaldo Jabor.
Eu estava me preparando para para fazer a cena em que ela revela o seu amor e o Zé veio para falar comigo, ver se estava tudo bem e eu perguntei “o que eu faço? tiro a calcinha ou não tiro a calcinha?”. O Zé olhou pra mim e disse “faz o que tu achar na hora”.
“Na hora de entrar eu pensei: ‘ah, que se dane’. Tirei.”
A atriz Ittala Nandi aos 76 anos
Júnior Aragão/Divulgação
Terminou a sessão, me arrumei rápido, a Etty [Fraser] e o Zé Celso estava conversando com o censores e eu perguntei sobre nudez. A Etty foi questionar o Doutor Coelho e ele respondeu “ah, muito pura”. E ficou.
Eu acho que eles dormiram, porque a peça era muito longa e a nudez aparecia bem no meio. Com isso, a gente abriu uma jurisprudência da nudez e as peças que estavam presas pela censura puderam ser encenadas.
Em São Paulo, a peça foi um sucesso absoluto, uma loucura. Mas aí chegamos no Rio de Janeiro – no João Caetano, aquele teatro enorme – e veio o aviso da censura de que a mulher de um general ficou revoltada com a minha nudez e que tínhamos que cortar.
Eu pensei: “Essa mulher é infeliz pra caramba ein”. Para não tirar, o Zé resolveu fazer um contra luz. E vou te dizer… Eu nunca tive um segundo de problema com essa cena, porque, para mim, ela era muito importante e muito linda.
Quando passou a ter a contra luz, eu comecei a ter vergonha, porque não era mais natural, mas a gente teve que fazer assim até o final.
Uma coisa engraçada é que no João Caetano sempre teve bombeiros do lado de fora do prédio para casos de emergência e, na hora da cena, todos eles entravam para ver. O Zé Celso falava: “pronto, chegou a hora do fogo”.
G1: No cinema, você também viu seu trabalho ser censurado. Quais filmes foram e como isso repercutiu no mundo?
Ittala: Eu tive quatro filmes proibidos pela censura, todos por questões políticas. O que aborda a vida da Darlene Glória, que fiz com a Leila, mas nunca mais vi. Nem tenho ideia de como pode ter ficado. O do José Mojica Marins [“O despertar da besta” (1969)] e o “Prata Palomares”, que era produção minha e do André.
Este, ficamos oito anos sem poder colocar em cartaz, uma história sobre dois guerrilheiros que só foi liberada quando houve a anistia.
Mesmo assim, nós chegamos a ir com o filme clandestinamente para o Festival de Cannes em 1970, porque fomos convidados para exibir na semana da crítica.
Palma de Ouro do Festival de Cannes
Reuters/Regis Duvignau
Quando estávamos lá, o Reis Veloso [ministro do Planejamento entre 1969 e 1979] ficou sabendo que o filme ia passar e enviou um mandato de prisão pra gente e o filme não passou. Foi em cima da própria organização do festival.
Então, eles resolveram fazer algo que foi melhor ainda. O diretor do festival, Pierre Henri Delo, propôs fazer uma sessão privada, só para convidados. Era um cinema muito grande e lotou, porque a informação de que o filme havia sido censurado vazou – todo mundo queria ver.
Nessa sessão, eu me lembro que estava John Lennon, o Gláuber [Rocha], a Susan Sontag [escritora, crítica de arte e ativista dos direitos humanos norte-americana], o Costa-Gravas [cineasta grego reconhecido pelos filmes de denúncia política] e Louis Malle [diretor francês] – que depois passou o filme em Paris.
A gente ficou muito evidente, tinha emprego, tinha tudo na Europa. Todo mundo queria trabalhar com a gente, mas decidimos voltar para o Brasil e o filme foi preso.
Depois da ditadura, o “Prata Palomares” acabou premiado aqui, no Festival de Brasília, como um reconhecimento. O André recebeu o prêmio de “melhor filme”, o que foi muito gratificante.
G1: Voltando no tempo, como começou sua história no teatro?
Ittala: Comecei no teatro com 16 anos. O primeiro dinheiro que ganhei foi com a Fernanda Montenegro, em Porto Alegre, com “Beijo no asfalto”.
Havia uma personagem que tinha uma única cena com o Francisco Cuoco, que era um secretária, e eles recrutavam essa atriz em cada cidade pode onde passavam. O Fernando Torres fez teste e eu passei.
A atriz Ittala Nandi aos 76 anos
Júnior Aragão/Divulgação
Antes disso, eu já fazia teatro amador com o Teatro de Equipe, também em Porto Alegre. Fiz a peça “O despacho”, do Mario de Almeida, com direção dele.
Neste meio, acabei casando aos 16 com o Fernando Peixoto, crítico de cinema e televisão do jornal Correio do Povo, que criou esse grupo.
Com 15 anos me formei em contabilidade, porque tinha estudo avançado, e com 16 anos me casei contra a vontade do meu pai, que queria que eu administrasse a cantina de vinhos dele.
Fiquei mais dois anos em Porto Alegre e o Augusto Boal [dramaturgo e diretor] foi assistir à nossa peça. Ele foi muito importante para o início da minha carreira, porque convidou o Fernando Peixoto para trabalhar com ele no Teatro de Arena, em São Paulo.
Nós nos mudamos e eu sempre trabalhei como secretária, porque era contadora. Em Porto Alegre mesmo, eu trabalhava no banco de dia e fazia teatro à noite.
G1: Quando você se mudou para São Paulo, o teatro ainda não era sua profissão oficial. Como você encontrou espaço nos palcos?
Ittala: Eu comecei a trabalhar num escritório de publicidade e o Teatro Oficina estava em cartaz com a peça “Toda donzela tem um pai que é uma fera” fazendo um grande sucesso, salas lotadas de terça à domingo.
Eu sempre esperava o Fernando na saída do teatro e aí veio o Zé Celso e pegou o borderô – ele nem olhava na minha cara. Eu dei uma olhadinha e disse “desculpa, mas isso não é aí, é aqui ein”. Eu falei que era contadora e ele me colocou como a contadora da Oficina.
Enquanto isso, a peça em cartaz e o grupo ensaiando “Pequenos burgueses”. Entra Zé Celso no escritório, senta em cima da mesa – porque ele nunca sentava na cadeira –, pega o telefone e fala com o Boal que a Rosamaria [Murtinho], que fazia a atriz principal, estava com pneumonia e precisava de uma atriz.
O Boal respondeu “você tem uma atriz aí do teu lado”. Ele desligou o telefone, me puxou pela mão, me levou pro palco, fiz o teste e a Rosamaria nunca mais voltou para a peça. Ela até não queria mesmo, porque estava exausta.
G1: Foi neste momento que começou a ditadura. Como ficou o Teatro Oficina?
Ittala: Estreou “Pequenos burgueses” e entrou a ditadura em 1964. A polícia invadiu o teatro, espantou todo mundo e levou Zé Celso, Renato e Fernando. Eu me escondi debaixo do vão do escritório. Eles entraram, não viram nada, foram embora, mas ficou um camburão na porta do teatro.
Eu virei a noite, botei um avental de manhã e fui varrer como se fosse a empregada. Eles nem ligaram para mim. Liguei para o advogado, que entrou com um mandato.
A atriz Ittala Nandi aos 76 anos
Luiza Garonce/G1
Os meninos foram liberados, mas tiveram que se esconder em uma fazenda de uma amiga entre São Paulo e o Rio de Janeiro. A repressão ainda não estava tão firme, mas o aviso era “esconde porque vai voltar”.
A ordem que o Zé deixou pra mim, pra Etty e pro Chico era que montássemos uma peça urgentemente com os atores do elenco de “Pequenos burgueses” para não fechar o teatro e continuar entrando dinheiro.
A Etty lembrou do “Toda donzela tem um pai que é uma fera”, liguei pro Gláucio Gil, que é o autor, contei a história e pedi a autorização para encenar. Ele deu.
Fizemos produção, cenário e tudo, aí a Célia Helena ficou doente de nervosismo, faltando 15 dias para estrear a peça. A Etty sugeriu que eu fizesse. Eu nem tinha tempo, mas tive que assumir, porque a peça precisava estrear.
“No final, ganhei prêmio de melhor atriz, pode? Eu nunca optei por essa profissão, ela que foi me pegando.”
G1: Quando foi que você deixou de fazer teatro para fazer cinema?
Ittala: O primeiro filme que eu fiz foi o norte-americano “The gentle rain” (1966), do Burt Balaban. Eu fiz o filme, mas ele ele morreu antes de terminar. Nunca vi, nem sei onde pode estar.
Depois fiz o “Bandido da luz vermelha” (1968), do Rogério Sganzerla, com quem eu estava namorando na época. Foi premiado no primeiro Festival de Brasília [nas categorias melhor figurino, melhor diretor, melhor montagem e melhor filme].
Cena do filme “Bandido da luz vermelha”
Divulgação
Em 1969, ganhei uma bolsa de estudos, fiquei um ano na França e quando voltei, só fiz cinema. Fiz “Juliana do amor perdido” (1970), do Sérgio Ricardo, um belo filme.
Em um ano, acabei gravando dez filmes, sendo que três deles – “Os deuses e os mortos” (1970), de Ruy Guerra, “Pindorama” (1970), do Arnaldo Jabor, e “Prata Palomares” – foram para o Festival de Cannes de 1970.
Os jornalistas perguntaram se só tinha eu de atriz no Brasil. Nessa época eu parei de fazer teatro, porque não tinha mais tempo.
G1: Existe predileção por alguma das artes?
Ittala: O teatro é a vida. Se acontece uma desgraça no mundo inteiro e só fica uma pessoa, ela pode fazer um monólogo. O teatro é eterno. Se tiver duas, elas fazem um diálogo. Não precisa de luz, de nada, só de gente. É a coisa mais telúrica das artes.
O cinema eu acho uma aventura. Eu adoro cinema. É muito legal fazer filme. Agora, fazendo “Domingo” [de Clara Linhart e Fellipe Barbosa] foi bom demais.
Exibição do filme “Domingo”, de Clara Linhart e Fellipe Barbosa, no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Humberto Araújo/Divulgação
Ganhei o notório saber em artes cênicas, porque sou escritora e educadora, mas estou há 10 anos sem fazer teatro, louca pra voltar. Tenho duas peças escritas que estou aguardando a Lei Rouanet, para levantar verba.
G1: Qual a sua luta hoje?
Ittala: Eu a Leila conseguimos fazer a libertação sexual da mulher. Agora, a crise é outra. É o amor. A liberdade sexual já veio. É do amor no sentido amplo que falo, o sexual e o amor pelo outro, sem divisões.
A atriz Ittala Nandi aos 76 anos
Júnior Aragão/Divulgação
Os valores humanos, onde eles estão? Onde está a verdade? Agir corretamente? A paz? A não violência? Onde está o amor?
Esses cinco são as bases dos valores humanos e não se estuda mais isso. É só direitos não importante. Eles fazem o que querem com os direitos. Minha batalha agora é pelos valores humanos.
Leia mais notícias sobre a região no G1 DF.
Leia a notícia completa em G1 ‘Senti como se Leila estivesse presente em mim’, diz Ittala Nandi sobre homenagem no Festival de Cinema de Brasília

O que você pensa sobre isso?