Romance usa idas e vindas no tempo para contar história de tecelã que sofre acidente


O romance “Entre as mãos”, de Juliana Leite, não conta só a saga de uma tecelã. Traça a história de uma mulher comum que, após um grave acidente, passa por uma redefinição da própria vida. Além de adotar novas atitudes, Magdalena tem de reaprender a lidar com seu corpo, especialmente as mãos, e sua fala.

É nesse particular que a história contada por Juliana Leite cresce e ganha contornos de perenidade narrativa, indo além da mera fabulação. Sua destreza no manejo da linguagem conduz o leitor até o fim do livro, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura deste ano.

Em determinado trecho, Juliana chega a dizer, referindo-se à saga da sua protagonista, que é “preciso escolher por onde recomeçar”. Esta relação de começo e recomeço marca a confluência de Magdalena com a nossa realidade. Não só por ser uma personagem “do povo”, mas pela situação atual da mulher na sociedade brasileira, sua luta pela sobrevivência e pela postulação do lugar feminino — sem esquecer os demônios a vencer que são o lugar da afetividade, do corpo e da condição de ir e vir.

Minúcia que humaniza

Tudo isso diz respeito ao que vamos absorvendo em “Entre as mãos”, escrita de maneira direta e com certa eficiência lógica que nos faz vencer os obstáculos narrativos. Sobretudo na parte inicial, no capítulo “Trama”, o leitor é submetido a um processo de ida e vinda para entender exatamente onde a personagem e a autora querem chegar.

Costurando cenas do antes e depois do acidente, a voz narrativa detalha o atropelamento, o coma, a operação, a fisioterapia, as dosagens dos remédios, o cuidado da alimentação, a estranha volta para casa, o primeiro banho, a ajuda de uma “tia doida”. Nessa minúcia, aos poucos nos damos conta que estamos diante de uma história envolvente e comovente.

Nas duas últimas partes do livro — os capítulos “Avesso” e “Linhas soltas” —, o leitor tem mais clareza sobre o estado psicológico da personagem. No pós-acidente, as dificuldades do dia a dia (como pegar um ônibus, pagar aluguel, se não tem como trabalhar?) trazem mais sentido a tudo o que se lê.

A própria abertura do livro, sobre o cheiro da laranja, demonstra o acerto da escolha do enredo — afinal, é uma operadora que lida com as mãos, onde estabelece toda a parte táctil da sua existência e da afetividade, sensorial e corporal.

O ato de reaprender a falar, a lidar com as mãos e o corpo mutilado (e, portanto, ressignificar a si própria), é um movimento de ousadia não só da personagem, mas da própria escritora. Juliana trouxe para o cenário coletivo da fabulação uma história de resiliência, que se confunde com a vida de muitas mulheres, no redemoinho que perpassa a questão de gênero e do empreendedorismo feminino.

Vidas vividas

A sobrevida da protagonista deste romance, avivada pelo grave acidente que sofre, é a luta vivida por milhares de magdalenas Brasil afora. São mulheres fadadas aos diários acidentes reais e imaginários, sendo vítimas preferenciais, cujas consequências históricas nos fazem reféns de um corolário de grandes batalhas.

Com este romance, Juliana Leite pisa bem pisado no seleto (falando de qualidade) mundo competitivo da literatura de ficção. Seu “Entre as mãos” marca não só a história da sobrevivência de uma grande personagem, mas da sua própria sobrevivência como escritora.

Tom Farias é jornalista e escritor.

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“Entre as mãos”

Autora: Juliana Leite Editora: Record

Páginas: 256

Preço: R$ 42,90 Cotação: Ótimo


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