Real e ilusão

Desde a Antiguidade, o Pentateuco é objeto de interpretações e de reinterpretações. Os estudiosos do livro consideram que a obra, tal como se apresenta na atualidade, foi escrita por diferentes autores e em diferentes momentos. Trata-se de uma coletânea que cobre criação do mundo e história da humanidade, fixando-se particularmente na história dos judeus, compreendendo memórias orais da longínqua Antiguidade pré-histórica. E logo no seu primeiro livro, Gênesis, Bereshit em hebraico, comparece com diversos mistérios.

A começar com o nome de Deus. Em hebraico, ele aparece inicialmente, dezenas de vezes, como Elohim, Senhores, no plural. No capítulo II, versículo 4, aparece pela primeira vez Yehovah Elohim. Daí em diante, esta expressão, ou simplesmente, Yeovah, passa a ser o nome de Deus no Pentateuco. No capítulo IV, versículo 28, ao dar a descendência de Adão é dito que no tempo de Enosh se passou a invocar o nome de Deus. No capítulo V, versículo 24, conta-se que Enoque, sétima geração de Adão, foi passear com Deus e desapareceu. No capítulo VI, versículo 1, depois de se referir ao aumento da população, após gerações seguidas de Adão, é dito “que os filhos de Deus viram que as filhas de Adão eram boas e passaram a tomá-las como esposas”. Como interpretar estes fatos?

A antropologia provou que entre cerca o ano 80.000 Antes de Cristo e cerca o Ano 30.000 Antes de Cristo, houve a convivência e o cruzamento entre a espécie neandertal, mais antiga, hoje extinta, e a atual espécie sapiens. Indivíduos contemporâneos aparecem dotados de heranças genéticas do homem de neandertal. Assim, é possível pensar que os filhos de Deus seriam os filhos de sapiens, enquanto Adão seria de neandertal. Quando a cavalaria espanhola apareceu pela primeira vez para os astecas, eles pensavam que cavalo e homem fossem um único ser. Do mesmo modo, quando os sapiens apareceram, com as suas tecnologias mais avançadas, os neandertais os teriam tomado como deuses.

Os sapiens sabiam se comunicar com o cão pelo olhar, e este passou a ser empregado na caça e no pastoreio. Está provado que foi a dieta mais rica em proteínas dos sapiens, além dos conflitos entre as duas espécies, que os fez prevalecer.

Assim, nos tempos de Enosh, é quando os sapiens teriam deixado de ser considerados deuses, e a religião deles passou a ser aceita por todos. Enoque, um neandertal, teria saído em companhia de um sapiens e desapareceu.

Quanto ao termo elohim, com a desinência “im”, indicadora de plural em hebraico, são plausíveis duas explicações. Uma delas, relacionada ao narrado, é que ela trata de uma referência aos sapiens tomados como deuses pelos neandertais, e que os primeiros capítulos do Pentateuco compreendem memórias orais dos neandertais. A outra é que em hebraico não há a forma singular para os fluidos. Não existe água, ou céu, apenas águas, mayim, céus, shamayim.

Esta é uma lição para os tempos atuais e que lembra o mito da caverna de Platão. Há que se estar sempre muito atento, para não se tomar uma ilusão por real, quando verdade, legalidades, democracia transitam entre a ilusão e o real.

Pedro Geiger é professor da Uerj; Adair Rocha é professor da PUC-Rio e da Uerj


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