Otavio Frias Filho, uma referência única


Otavio Frias Filho, diretor de redação da ‘Folha de S.Paulo’
Reprodução/JN
Lá estava eu viajando para São Paulo. Seguia para um almoço com Otavio, convocado por ele para receber as diretrizes gerais a serem seguidas no comando da Sucursal de Brasília da “Folha”.
OFF, como nos referíamos a ele nas mensagens internas, havia me convidado para ser diretor-executivo do jornal na capital do país naquele ano de 1996. Uma enorme responsabilidade.
Fiquei no posto durante 11 anos, o que me levou a ter contatos praticamente diários com ele. Convivência que seguiu próxima depois de deixar o cargo.
Naquele almoço, o tempo dedicado às instruções sobre como tocar a sucursal, para minha surpresa, não foi longo. Eu já conhecia todas as regras básicas de excelência praticadas pelo jornal, no qual estava desde maio de 1988. Meu sonho sempre foi trabalhar na “Folha” por causa das Diretas Já.
Agora, além de ter conquistado meu grande objetivo na época, iria ocupar um posto importante no jornal a convite do dono.
Para minha surpresa, Otavio queria saber, entre uma garfada e outra, mais sobre minhas crenças espirituais.
Durante a conversa, ele perguntava detalhes a respeito do espiritismo, como funcionavam as reuniões no centro espírita, os projetos sociais do meu grupo.
Fiquei intrigado. Afinal, ele não tinha religião, era cético – pelo menos até então – em relação às coisas do plano espiritual. Mas ali descobria o lado curioso de Otavio, característica essencial de um jornalista.
Lembro de, perto do final do almoço, depois de me entusiasmar e falar muito, mas muito sobre espiritismo, concluir a conversa com algo assim: “Acho que você vai desistir do convite feito a mim para dirigir a sucursal. Você deve estar pensando que colocou um maluco na direção do jornal em Brasília”.
Ele olhou para mim, sorriu a seu estilo, baixando um pouco a cabeça, e disse que respeitava minhas crenças e admirava meu trabalho espiritual. Ali, fui eu que passei a admirá-lo ainda mais pelo respeito que sempre demonstrava por posições e opiniões divergentes. Marca que imprimiu no jornal, com seu pluralismo de ideias.
Acabei trabalhando no jornal por quase 30 anos. Durante todo esse tempo, ele sempre mostrou respeito pelas minhas opiniões e crenças.
Ia além. Sempre que tinha uma oportunidade, que a conversa escorregava para os temas sobrenaturais, ele elogiava meu lado espiritual. Costumava dizer que isso deveria trazer mais paz e tranquilidade na hora de enfrentar turbulências no jornal.
Aprendi a admirar profundamente aquele jornalista. Rigoroso ao extremo, ele testava nossos limites, o que nos impulsionava a buscar melhorar sempre.
Era também muito rigoroso consigo próprio. De inteligência acima da média, era uma referência de correção no trato da informação. Diria que era incansável na busca da exatidão, no emprego das regras estabelecidas por ele na rotina do jornal.
O erro, de qualquer tipo, o irritava profundamente. Isso me levava a ter um rigor elevado com meu trabalho, por ele e pelo jornal, o que me moldou como profissional.
Otavio era discreto e retraído no expediente de trabalho. Fora, era uma figura bem humorada, pelo menos nos meus contatos, com uma conversa inteligente e variada.
Seu estilo de buscar testar seus limites, regra que aplicava a todos nós no trabalho, fazia com que eu admirasse não só o comandante da “Folha” mas também o homem.
Ele costumava arriscar e sair da sua zona de conforto, experiências relatadas no seu livro “Queda Livre – Ensaios de Risco”. Todos deveríamos ser assim.
Vou sentir falta dele. Não tive tempo de me despedir daquele que foi e é referência profissional para mim.
Nas minhas meditações, continuarei orando por ele como vinha fazendo nos últimos meses a cada dia. Para ser envolvido em Luz e Paz. Seja feliz Otavio Frias Filho, aquele que foi mais do que um chefe para mim.

Editoria de Arte / G1
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