O que nos une

Mergulhados em crises que nos consomem há quatro anos, por vezes esquecemos que há um mundo lá fora, de cuja agenda estamos totalmente descolados. Constatei isso ao participar do Fórum da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O encontro, este ano apropriadamente intitulado “What brings us together?”, antecipa os temas que serão debatidos nos próximos encontros de líderes mundiais em Davos. Num momento em que nossas sociedades estão enfrentando crescente divisão e desconexão, o Fórum focou no que nos une e nas esperanças, valores, aspirações e preocupações comuns às sociedades mais inclusivas e resilientes. Foram cerca de 90 sessões com mais de 230 palestrantes, onde os participantes tiveram oportunidade de debater sobre questões como digitalização e o futuro do trabalho, políticas para tornar o crescimento mais inclusivo e sustentável e a melhor maneira de reiniciar a cooperação internacional. Grosso modo, o pronunciamento do presidente da França, Emmanuel Macron, ofereceu o roteiro para o diálogo: o enfrentamento da desigualdade e das questões climáticas, a cooperação e o multilaterismo, ressaltando-os como caminhos para equacionar questões como a fome, a imigração desordenada, a intolerância, a discriminação, o terrorismo, a xenofobia, o protecionismo e o autoritarismo. A relevância da questão da desigualdade decorreu da compreensão de que se de um lado a globalização retirou centenas de milhões de pessoas da linha da pobreza, barateou os produtos e alavancou o desenvolvimento de vários países; de outro, aprofundou a desigualdade de renda e entre os “que estão conectados e aqueles que estão sofrendo apenas as evoluções do mundo”. Resultou disso o “aumento da concentração de riqueza em algumas regiões do globo, a concentração de riqueza dos países mais desenvolvidos nas metrópoles e a concentração de riqueza nas mãos de alguns profissionais, os superastros, os mais inovadores”. A distribuição da riqueza de forma mais equitativa passa a ser o grande desafio no início do século XXI, particularmente face aos efeitos do advento da robótica e da inteligência artificial. A Quarta Revolução Industrial tende a alargar a desigualdade, o que coloca na agenda a busca de novos mecanismos de financiamento da enorme massa dos sem-trabalho que está por vir.A contraface dos efeitos da globalização são as tendências regressistas, presentes no protecionismo, nas guerras comerciais que se avizinham, no isolacionismo. O mundo experimentou esses caminhos no pós Primeira Guerra, com a falência dos mecanismos multilaterais como a Liga das Nações nos anos 1930. Não deram em boa coisa. Como observou Macron, estamos diante de uma globalização cada vez mais violenta e cada vez menos cooperativa. A saída está “no multilateralismo, que não é um acréscimo de bilateralismo. É um diálogo com muitas vozes, uma polifonia de ação, de pensamento que devemos sempre reinventar, aprender a tecer, fazer justo e efetivo no mundo de nós mesmos.” O Fórum da OCDE mostrou o impasse em que a humanidade se encontra: ou cooperação e civilização ou barbárie e autofagia. Hubert Alquéres é vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro
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