O jogo da vida: camaronês persegue chance no futebol brasileiro

Futkeu Petouochi Abdel acena com a cabeça sem saber o que lhe aguarda. Há pouco mais de um mês no Rio, o camaronês faz sinal positivo para o treinador, que mexe agitadamente numa prancheta magnética enquanto lhe sopra instruções de difícil compreensão para quem não fala português. Antes de entrar em campo, sozinho por alguns poucos segundos, concentra-se olhando para os céus. Alguns metros distantes, duas crianças observam a cena montadas em um cavalo.

Este é seu primeiro coletivo pelo Itaboraí, após uma semana de testes no time da Região Metropolitana do Rio, que se prepara para disputar a Série B do Carioca em maio. O adversário é um combinado de atletas de Rio Bonito, cidade onde acontece a partida, no local denominado Estádio Augusto Marinho: uma casa com campo de grama bem verde e um pouco alta, separado por uma cerca de madeira da estrada de terra que margeia a propriedade. Abdel, de 21 anos, se define como centroavante. Mas entra na ponta direita. Aos poucos, flutua até arrumar espaço no meio da área.

Ele pouco vai tocar na bola durante o coletivo, vencido pelo Itaboraí com facilidade: só no primeiro tempo, apesar de sair atrás, o time abre 3 a 1. Em certo momento, domina um cruzamento e chuta para o fundo da rede, mas nem esboça comemoração — a partida estava paralisada porque o autor do passe havia deixado a bola sair pela linha de fundo.

O jogo da vida: camaronês persegue chance no futebol brasileiro

Quando escuta o apito final após meia hora em campo, Abdel exibe certa apreensão apesar da vitória tranquila. Cada segundo precisa ser aproveitado ao máximo quando se está em período probatório no emprego mais importante da vida: jogador de futebol em um clube brasileiro.

Foi com este sonho na cabeça que Abdel juntou R$ 10 mil, deixou a família em Camarões e viajou sozinho para bater na porta de clubes do Rio. Quando o dinheiro começava a escassear, arrumou uma chance no Itaboraí, que realiza testes para montar o elenco antes da Série B. As condições oferecidas ao estrangeiro foram as mesmas dadas a outros operários da bola que passam por experiência no Itaboraí antes de assinarem (ou não) contrato profissional: custeio de alimentação e despesas básicas, e hospedagem no alojamento do clube, uma casa no bairro de Venda das Pedras. A residência fica próxima ao Alzirão, estádio do Itaboraí, e recebe hoje cerca de 15 atletas, segundo a direção do clube.

— Nunca tinha visto algo assim. Na concentração a gente dança, come, se diverte com os outros jogadores. Em Camarões não havia isso: antes ou depois dos jogos cada um ia para o próprio lado, cada um com suas dificuldades — lembra Abdel.

REALIDADE MODESTA

Quando perguntado sobre o porquê de ter cruzado o Oceano Atlântico para vir a um país cujo idioma sequer domina, Abdel recorre à linguagem mais universal conhecida: o futebol. Suas razões são nomes, exemplos que tomou como inspiração: Pelé, Ronaldinho, Neymar. Os dois últimos, além de craques globais, são contemporâneos de uma época em que os salários podem atingir cifras de milhares de euros.

Trata-se, no entanto, da ponta do icerberg que mascara uma realidade obscura: no Brasil, menos de 1% dos jogadores profissionais têm pagamentos de seis dígitos. Por outro lado, mais de 80% recebe salários de no máximo R$ 1 mil segundo o Relatório DRT, estudo da CBF divulgado em 2016.

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Embora os dirigentes não falem abertamente em valores, a realidade do Itaboraí — bem como de todos os outros clubes da Série B carioca — não fica muito acima disso. Mesmo sem falar português, Abdel já deve ter entendido que rema contra a maré. O mesmo estudo da CBF apontou que, em 2015, 83 jogadores estrangeiros passaram por clubes do Brasil, número que corresponde a menos de 1% do total de contratos definitivos e de vínculos não profissionais estabelecidos naquele ano.

— Os brasileiros são gentis. Estou aprendendo muito. No meu país, o futebol se baseia na força. Aqui, há mais técnica, existem campos com grama. Quase sempre eu jogava na areia em Camarões — avalia Abdel.

INTÉRPRETE POR ACASO

Uma feliz coincidência colocou no caminho de Abdel um intérprete para ajudá-lo na adaptação ao Itaboraí: o lateral-esquerdo Arthur Carangola, de 34 anos, que também faz testes no clube. Carangola aprendeu a falar francês após passar dois anos jogando futebol na Tunísia. Também já passou por países como Vietnam, Albânia e Grécia.

Quando vê o colega aquecer para entrar em campo, Carangola adapta a resenha, o bate-papo descontraído entre jogadores de futebol, para o idioma: “Aujourd’hui tu es comme Ronaldinho. Tout les cameras sur toi“, ele diz para Abdel, sorrindo. Naquele dia, Abdel era o alvo das câmeras.

A caminhada rumo ao sucesso internacional de um Ronaldinho Gaúcho, porém, não é tão simples. O próprio Carangola conhece os percalços. Depois de passar por todas as categorias de base do Botafogo, deixou o clube aos 21 anos, mesma idade de Abdel atualmente, atrás de promessas nunca concretizadas.

— As coisas poderiam ser diferentes se não fosse por um empresário que me atrapalhou. Fez promessas de que eu ia ganhar tanto se fosse para a Europa, decidi sair do Botafogo. Só quando cheguei lá fora fui ver que não era nada daquilo — lamenta Carangola.

Source: O Globo

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