O boom editorial conservador puxado por Olavo de Carvalho


Após indicar dois ministros do governo de Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho voltou aos holofotes. Por isso, gostaria de apontar um dos pilares do fenômeno de Olavo pouco explorado até agora: o boom editorial de tradução e publicação de autores conservadores, em sua grande maioria recomendados pelo próprio filósofo em suas aulas e cursos.São uma torrente de livros publicados por pequenas e médias casas editoriais ao longo dos últimos anos, que vão além dos bestsellers escritos por Olavo. Para entender o fenômeno, basta olhar casos como o da “É realizações”, “Vide Editorial”, “Editora Concreta” e “Edições Kírion”.Quem acompanha o trabalho de Olavo há algum tempo sabe que um dos seus maiores artifícios retóricos é o de seduzir seus alunos com a promessa de conhecimento proibido no mundo intelectual brasileiro. Se nossa elite intelectual regurgita apenas o consenso do “pensamento de esquerda” nas universidades e livrarias, seus alunos eram apresentados ao outro lado da moeda: o pensamento conservador do século XX. Assim, Olavo trazia figuras como Xavier Zubiri, René Girard, Mário Ferreira dos Santos, René Guenon e Eric Voegelin. Havia, porém, um pequeno problema: a maioria desses autores tinha escassas edições brasileiras e, em muitos casos, nunca sequer foram traduzidos. E não foram poucos, o professor incluso, que perceberam a oportunidade editorial de ouro que então se desenhava. O mercado apareceu junto à ideologia. É preciso pontuar, porém, que Olavo não é o único a influenciar o mercado editorial brasileiro com ideias conservadoras. Think thanks liberais, por exemplo, são protagonistas pela construção de uma nova base leitora de autores libertários, como os da escola austríaca. Nem é o filósofo o fundador da retórica das guerras culturais do século XXI, tema já recorrente nos EUA e Europa. E Olavo não ganha financeiramente nesse mercado que ele próprio criou. Ao menos não diretamente. É claro que, ao recomendar essas editoras que publicam suas sugestões — e que o citam como influência direta —, Olavo gera um contexto favorável para a expansão de seu curso e da sua receita.A exceção é a “É Realizações”, talvez a maior e mais antiga das aqui citadas. Fundada na virada do século, a “É” teve participação direta de Olavo em seus primórdios. Nas palavras do próprio, era a oportunidade de: “complementar e consolidar, mediante essas leituras, o que [seus alunos] haviam aprendido nas aulas. Não se tratava, portanto apenas publicar bons livros, muito menos divulgar autores, mas de refletir todo um projeto pedagógico que já havia beneficiado milhares de pessoas e criado um público cativo que garantia de antemão um mercado suficiente para sustentar a editora e fazê-la prosperar”, disse em 2011, em um de seus programas de rádio, onde também exaltava as próprias qualidades como editor e autor de sucesso. A parceria com o editor Edson Filho não durou para sempre e foi rompida em 2011, data do programa citado acima. Hoje é possível ver críticas diretas de Olavo à casa, que chegou até a publicar dois de seus títulos entre 2002 e 2006. Ainda assim, a “É” continua investindo na linha editorial recomendada originalmente por Olavo. Basta ver o seu catálogo e se deparar com livros de Mortimer Adler, Mário Ferreira dos Santos, Eric Voegelin. Este é um aspecto importante dessas editoras. Não se trata apenas de livros de filosofia. O escopo destas publicações é dos mais variados. A Editora Concreta, fundada por alunos de Olavo, teve entre um de seus primeiros projetos a publicação da obra crítica de Machado de Assis, e promove um largo catálogo de teologia católica. Já a Kírion, também recomendada pelo filósofo, aposta bastante nos lançamentos que falam sobre a educação do ponto de vista conservador. Outro exemplo a se destacar é o da Vide Editorial. Casa de uma série de publicações de Olavo, a editora é outra das maiores do segmento e traz títulos de filósofos como Ortega y Gasset, economistas como Ludwig von Mises e até de São Tomás de Aquino.De certa maneira, a existência dessas casas é de fato importante. Nomes antes pouco publicados ganharam nova vida. É o caso do próprio Ortega Y Gasset, cujo clássico “A rebelião das massas” havia sido publicado pela última vez nos anos 80. Tive de recorrer a uma edição argentina no passado, coisa que já não mais seria necessária. Ao mesmo tempo, em plena crise editorial no Brasil, é de se pensar da necessidade da publicação tão incessante de livros para uma base ainda limitada de leitores. promotoresMais do que isso, porém, essas editoras botam em xeque alguns dos argumentos centrais de Olavo. Que seus autores prediletos eram abandonados no Brasil, de que o conhecimento era limitado no país e que a porta para o conservadorismo nas universidades estava fechada por decisão da inteligentsia nacional. Agora, com sua biblioteca particular publicada massivamente no país, não há porque bater na mesma tecla. Resta saber se esses autores um dia tomarão o vulto que o filósofo tanto deseja ou voltarão ao esquecimento dos sebos e edições esgotadas.
Leia a notícia completa em O Globo O boom editorial conservador puxado por Olavo de Carvalho

O que você pensa sobre isso?