Novas formas de velhos clássicos surgem na remixagem do 'Álbum Branco', 50 anos depois


NOVA YORK — Foi preciso um esforço notável para o “Álbum Branco” parecer tão casual. Essa é uma das lições que se tira da reedição de 50º aniversário do “The Beatles”, o disco duplo que ficou conhecido como o “White Album”, em inglês, desde seu lançamento, em novembro de 1968.

O disco marcou uma transição da formalidade orquestral e experimentação sonora de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, com os quatro Beatles dedilhando suas guitarras e baixo, tocando piano e tamborilando na bateria. Há risos, gritos e piadas espalhadas pelo álbum, como se fazer música fosse uma brincadeira.

Mas, como os beatlemaníacos sabem muito bem e a reedição documenta, o “Álbum Branco” nunca foi uma volta ao básico. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr trabalharam meticulosamente, usando as gravações ao vivo no estúdio como base, para depois reconstruir os sons ao redor delas.

No estúdio, os Beatles repassavam canções repetidas vezes, em sessões que duravam a noite toda e deixavam produtores e engenheiros exaustos. A nova reedição revela com profundidade esse trabalho minucioso. Ela inclui, por exemplo, a tomada 102 de “Not Guilty”, de George Harrison, uma música que não chegou à versão final do álbum.

The Beatles Álbum Branco 50 anos

O disco do rompimento?

36138252_ZI Rio de Janeiro RJ 04-12-2009 coluna liquidificador - capas de discos dos Beatles Fot.jpgA edição de aniversário contém seis CDs (dois com remixes dos LPs originais, quatro com gravações inéditas) e um blu-ray com remixes de alta definição, embalados com um livro de capa dura cheio de anotações e imagens de letras manuscritas.

Um CD traz as chamadas demos Esher: gravações de quatro canais, basicamente com guitarras acústicas e vocais. São tomadas iniciais, às vezes brincadeiras, claramente à espera de mais desenvolvimento. Os outros três discos documentam as longas sessões de estúdio. Enquanto o folclore descreve a criação do “Álbum Branco” como o início do rompimento dos Beatles, as horas de fitas inéditas revelam uma banda trabalhando junta de forma paciente e muitas vezes jovial.

O Álbum Branco funciona como uma antologia: cada Beatle escreveu canções que foram executadas por alguns ou todos os colegas de banda. A variedade do disco é sua própria declaração de propósito, estendendo o conceito de “Sgt. Peppers” de que a música deles não estava mais presa a um formato, época ou estilo.

As canções reconhecem e parodiam as influências dos músicos: blues, country, doo-wop, músicas de salão, jazz dos anos 20, psicodelia, musica concreta, música de elevador, cravo barroco, bossa nova, bluebeat jamaicano, bandas de metal inglesas, Bob Dylan, Beach Boys. Para os Beatles, em 1968, valia tudo.

Espontaneidade ilusória

Em algumas faixas, eles reagiam ao turbulento clima sociopolítico de 1968. Uma delas é “Revolution”, de Lennon, um cético em relação aos pedidos por mudanças radicais, mas tão ambivalente que os Beatles gravaram a música duas vezes: um rock estrondoso no compacto dividido com “Hey Jude” (lançado em agosto de 1968) e como uma balada mais leve, “Revolution nº 1”, no próprio “Álbum Branco”.

“Piggies”, de George Harrison, zomba da complacência da classe alta; “The continuing story of Bungalow Bill”, de Lennon, ridiculariza os caçadores de troféus excessivamente indulgentes. De maneira mais sutil, “Blackbird”, de Paul McCartney, é um folk pé no chão em homenagem ao movimento dos direitos civis.

40113393_05102000 - SC - Conjunto The Beatles..pngMas o disco é bem mais introspectivo do que tropical. Ele é montado de forma a maximizar seus contrastes. Vai do hard rock estridente de “Helter Skelter” às reflexões muito particulares de “Julia”, passando por queixas existenciais amargas em “Yer Blues”, reflexões filosóficas em “While my guitar gently weeps” e a colagem de fitas em loop de “Revolution nº 9.”

O interminável senso de espontaneidade do álbum é sua ilusão mais bem realizada. Depois de uma tentativa não muito perfeita de “Blackbird” (tomada 28), McCartney reflete sobre a melhor maneira de cantar: “Acho que preciso ficar mais quieto”, diz.

Outras tomadas mostram letras sendo refinadas — Harrison tirando clichês de “While my guitar gently weeps” — e grooves evoluindo, como em “Ob-La-Di, Ob-La-Da”. Numa gravação de 13 minutos de “Helter Skelter”, os Beatles se tornam a banda psicodélica de improviso que eles eram disciplinados demais para eternizar em vinil.

The Beatles Helter Skelter versão de 12 minutos

Esquerda, direita e centro

O “Álbum Branco” foi repetidamente remasterizado ao longo dos anos. Mas esta edição toma liberdades mais profundas. Giles Martin, filho de George Martin, remixou o álbum com o engenheiro Sam Okell, revisitando cada instrumento e voz dentro das músicas. Inúmeros detalhes mudam na nova versão, alguns previsíveis no salto do vinil para o digital — há um pouco mais de baixo, embora não em excesso — e outros mais surpreendentes.

As mixagens originais nos LPs dos Beatles frequentemente colocavam instrumentos e vozes fora do centro, fazendo com que os dois canais estéreo soassem muito diferentes. As mixagens de 2018 costumam levar os vocais e as partes instrumentais principais em direção ao centro, de forma mais convencional.

Links BeatlesMas cada música tem novas idiossincrasias próprias. Na versão de 1968 de “Dear Prudence”, o baixo permanece do lado esquerdo, enquanto na mixagem de 2018 ele pula de um lado para o outro. “Birthday” tinha o baixo e a guitarra no centro, com os vocais bem à esquerda e à direita, enquanto em 2018, o baixo está à esquerda, a guitarra à direita e os vocais no centro — ou seja, funciona “de dentro para fora”.

A não ser numa comparação direta e imediata, os remixes de 2018 não soam tão drásticos. Nada quebra uma música ou deixa uma sensação anacrônica. Mas após meio século, essa restauração do “Álbum Branco” sugere que as canções ainda podem trazer surpresas.


Leia a notícia completa em O Globo Novas formas de velhos clássicos surgem na remixagem do ‘Álbum Branco’, 50 anos depois

O que você pensa sobre isso?