Noticiários violentos podem causar ansiedade em crianças, aponta pesquisa


Insegurança e medo de ficar sozinha. Timidez, alterações no humor e dificuldade de concentração. Esses são alguns sintomas presentes diariamente na vida de Isabela, de oito anos. Os sinais se manifestam durante todo o dia e, à noite, começam as crises. “É só falar que está na hora de dormir que ela começa a ficar irritada, grita, fala alto, chora. Nos acorda quase que de hora em hora, pedindo para ficar ao lado dela. Quando vamos ao quarto, ela se enrosca em nós, parece que tem medo que possamos sair de perto”, conta a mãe Flávia Valpassos. De acordo com a Sociedade Americana de Ansiedade e Depressão, uma a cada oito crianças sofre do mesmo problema de Isabela, a ansiedade.

Um estudo recente desenvolvido pela psicóloga clínica Luciana de La Peña mostrou que um outro fator tem contribuído para agravar as crises de ansiedade infantil. A exposição aos noticiários violentos, de acordo com Peña, pode fazer com que crianças deixem de se sentir protegidas e desenvolvam sintomas como insegurança de sair à rua, de ir à escola e de ficar sozinhas. “Começaram a aparecer muitas crianças na clínica, principalmente entre cinco e treze anos, se sentindo indispostas, com dor de cabeça e até com dificuldades na fala. Então, comecei a investigar”, conta a psicóloga. “A violência hoje em dia está muito mais próxima. E com as informações mais rápidas e acessíveis, as crianças não se sentem mais seguras. Ao contrário, elas estão desenvolvendo ansiedade.”

De acordo com o psiquiatra, psicanalista e professor da UFRJ Edson Saggese, a ansiedade é uma reação normal dos humanos e serve para antecipar situações que não seriam suportadas pelo aparelho psíquico. “O organismo é equipado com estruturas para dar “sinal de alarme” quando há algo ameaçador – real ou imaginário. Várias estruturas cerebrais, circuitos de neurônios e moléculas de substância do sistema nervoso estão ligados à produção da ansiedade”, conta.

Saggese explica que existem marcadores na vida mental, como as preocupações excessivas, no comportamento, como medo de certos lugares e animais, e no corpo, como excesso de suor e de batimentos cardíacos. A ansiedade pode se tornar patológica quando esses sintomas se tornam tão excessivos que impedem as atividades normais cotidianas. “Não existe uma faixa etária específica para ter ansiedade. Alguns tipos são mais comuns nas crianças, como a ansiedade da separação dos pais ou as fobias”, explica o psiquiatra.

No caso dos noticiários, Saggese explica que quanto mais nova é a criança, menor sua capacidade de separar a realidade da fantasia. Isso faz com que não compreendam o potencial de danos de certos comportamentos ou confundam fatos reais com brincadeiras, influenciando diretamente no futuro delas. “O efeito que os telejornais terão sobre as crianças depende do tempo em que ficam expostas a eles, à idade, que influencia o nível de compreensão das notícias e, sobretudo, da participação dos pais”, conta.

De 2004 a 2014, o número médio diário de horas que as crianças passam em frente ao aparelho televisor aumentou de 4 horas e 43 segundos para 5 horas e 35 minutos – aumento de 52 minutos, de acordo com o Painel Nacional de Televisão do Ibope Media. O número médio de horas recomendado pela maioria dos psicólogos é uma hora para crianças menores e de duas horas para as mais velhas. De acordo com a professora e pesquisadora de estudos sobre violência e saúde da Fiocruz Kathie Njaine, essa superexposição aos meios de comunicação, principalmente aos conteúdos violentos, pode fazer com que as crianças se tornem indiferentes na vida real, podendo ter um comportamento imitativo.

Njaine defende que esse tipo de noticiário pode comprometer a atenção, incitar a violência e trazer problemas de obesidade. “As crianças podem ter sentimentos de medo de algumas notícias ou de pessoas que possam ser relacionadas à criminalidade. Esse sentimento pode levá-las a ter uma percepção da violência superdimensionada e localizada em alguns perfis e lugares”, conta. Para ela, a abordagem das notícias pode contribuir para criar uma visão distorcida, parcial e discriminatória dos eventos violentos. “É importante abordar a violência, mas sobretudo apontar os danos e as soluções, os encaminhamentos e a superação”, argumenta.

A pesquisadora ainda chama atenção para outro fator decisivo no acesso aos noticiários. “As redes sociais, pelo seu incalculável alcance mundial, tem mostrado outras formas de violência que necessitam ainda ser mais pesquisadas”, conta. Se por um lado as redes difundiram mais conteúdos violentos, elas também trouxeram uma esperança. Njaine destaca que as redes têm mostrado o potencial dos grupos de apoio, das instituições que atendem pessoas em situação de violência, dos programas de intervenção e da necessidade de todas as sociedades debaterem as formas de violência que afetam a vida de milhares de pessoas no mundo.

Para a psicóloga e conselheira do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) Iolete Ribeiro, a melhor forma de combater a ansiedade infantil é por meio do apoio da família. “Os pais devem atuar como mediadores. A maneira como a família reage aos noticiários pode influenciar o processo de interpretação da criança”, conta. A conselheira defende que tanto a escola quanto a família podem ajudar a criança a analisar os noticiários, evitando a naturalização ou o exacerbamento do medo e da insegurança. “É importante dar valor a tudo o que as crianças expressam, sem ridiculariza-las, procurando entender o sentido que tem pra elas”, explica. perguntas-democracia

No caso de Isabela, o noticiário contribui ainda mais para que a menina não queira sair de casa. “Ela morre de medo de assalto. Fica apreensiva na rua. Sempre pede para que eu tome cuidado quando a deixo na escola”, conta a mãe. Mas o diálogo da família faz parte do tratamento. “No mundo de hoje, vivemos uma situação bem difícil. Então acredito que, de algum modo, passamos esse medo que sentimos para ela. Mas conversamos e explicamos que nada vai acontecer e temos notado melhora na hora de dormir. Está sendo um processo lento. Mas estamos sempre em progressão”, conta Flávia.


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