Na Rua da Carioca, Bar Luiz luta para sobreviver e reduz horário de funcionamento

RIO – O relógio marca 13h. Deveria ser um momento de intenso entra e sai de clientes, mas apenas três das 44 mesas do tradicional Bar Luiz estão ocupadas. Com os olhos fixos na porta, o garçom Antônio Barbosa leva uma mão à boca para disfarçar um bocejo. Nem sempre foi assim. Há 20 anos, quando começou a trabalhar ali, ele se acostumou a memorizar os pedidos, já que era impossível anotá-los em meio à correria do almoço. A fama do restaurante, que tem a mais antiga serpentina de chope da cidade, fazia com que se formasse uma fila ao longo da calçada da Rua da Carioca, no Centro. Hoje, o ritmo é outro. O fluxo despencou nos últimos anos, levando também ladeira abaixo o faturamento da casa centenária, que agora luta para não fechar as portas.

Pelos cálculos de Rosana Santos, proprietária do estabelecimento, houve, no ano passado, uma queda de 60% na receita, em relação a 2016. Medidas amargas foram tomadas. O quadro de funcionários, que já teve 48 profissionais, hoje se limita a 11. O horário de funcionamento também sofreu alterações: se antes o Bar Luiz ficava aberto até o último cliente, muitas vezes passando da meia-noite, agora fecha a cozinha às 19h.

— Nos 34 anos que acompanho a casa, vivenciei muitos momentos difíceis, como o Plano Collor, as mudanças na moeda e a época em que a Sunab controlava os preços. Mas a crise que enfrentamos hoje não tem precedentes porque falta o principal, que é o cliente — lamenta Rosana.

Fundado em 1887 na Rua da Assembleia, o Bar Luiz foi para o atual endereço em 1927. Em pouco tempo, a Rua da Carioca se tornou uma das áreas comerciais mais frequentadas da cidade, e permaneceu assim por décadas a fio. Hoje, mais parece um cemitério de lojas: são 26 estabelecimentos fechados em seus 300 metros de extensão.

“TEMPESTADE PERFEITA”

No fim do ano passado, uma notícia de que o Bar Luiz poderia ser vendido dividiu opiniões. Uns aprovavam a proposta do novo investidor, que prometia restaurar o espaço e modernizar a cozinha, trazendo um chef renomado. Outros clientes, mais tradicionais, temiam que a nova direção mexesse no cardápio. No fim das contas, prestes a assinar o contrato, o empresário interessado desistiu do negócio, e tudo ficou como estava.

Presidente da Sociedade de Amigos da Rua da Carioca e Adjacências (Sarca), Roberto Curi afirma que um conjunto de fatores formou uma “tempestade perfeita” para o esvaziamento das lojas”.

— Tudo começou em 2012, quando o banco Opportunity comprou 18 imóveis da Rua da Carioca e triplicou os aluguéis. Os lojistas que não tinham condição de pagar foram saindo. Depois veio a crise, que gerou desemprego e provocou uma debandada de empresas do Centro. E então começaram os atrasos nos salários de servidores estaduais, que eram clientes importantes. Tudo isso contribuiu para a queda no consumo — diz o empresário.

Em nota, o Opportunity Fundo de Investimento Imobiliário destacou que, em 2012, quando adquiriu imóveis da Rua da Carioca, muitos deles estavam em péssimas condições e vários inquilinos, inadimplentes. A instituição afirmou que entrou em acordo com a maioria dos locatários, mas alguns não conseguiram seguir com seus negócios. Além disso, lembrou que tem um projeto de revitalização de toda a área, que foi apresentado ao antigo prefeito, mas não chegou a ser aprovado.

A demora na conclusão das obras para a implantação do VLT é apontada por Rosana como um fator que contribui para espantar os clientes. Segundo ela, os constantes bloqueios de vias provocaram mudanças nos hábitos da clientela:

— O fechamento da Avenida Rio Branco prejudicou o comércio. Com as obras, também foram extintas muitas vagas de estacionamento. Para piorar, ao inverterem o sentido da Rua da Carioca, há dois anos, acabaram com a faixa onde motoristas podiam parar, aos sábados. Não é por falta de fãs que estamos nessa situação, é porque os clientes não conseguem chegar até aqui.

Além do Bar Luiz, dois estabelecimentos tradicionais da Rua da Carioca lutam pela sobrevivência. A loja Vesúvio Carioca, que vende guarda-chuvas desde 1946, luta na Justiça para não ser despejada. Já o Cine Íris, de filmes eróticos, fundado em 1909, planeja remodelar as atrações.

Rosana diz que está “esperando a maré ruim passar”. A empresária garante que a crise não vai botar água no chope do Bar Luiz:

— Venceremos, assim como o povo carioca, esses tempos difíceis. Vamos nos reerguer.


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