Modric representa brilho e sombras da Croácia

MOSCOU – Guiado por algo que lhe inspira, o herói improvável dribla as adversidades e encontra seu final feliz. Não é preciso mais do que duas linhas para resumir um conto de fadas, e se isso é o que se procura na trajetória do croata Luka Modric até a final da Copa do Mundo, no domingo, a leitura já pode acabar neste ponto. A realidade de Modric, no entanto, é mais complexa do que histórias infantis.LEIA TAMBÉM: Fernando Calazans: Mais um país na História da CopaAutor de gol croata tira onda no vôlei de praia e já jogou Circuito MundialEntenda como a Croácia pariu uma campanha em nove mesesÉ o protagonista, sim, de uma Croácia que redescobriu o poder magnético da seleção no seu povo, graças ao talento que costumava ser orgulho dos Bálcãs há décadas. Mas também representa as contradições de um país que viveu uma guerra há duas décadas, e cuja formação nacional se equilibra entre danos econômicos e políticos. Contos de fadas não têm porões, no sentido literal e alegórico. Da Croácia e de Modric, não se pode dizer o mesmo.LEIA MAIS: Croácia tem ótimos nomes, mas não um grande timeO camisa 10 completo, moderno, que marca e arma o jogo, costuma guardar para si as memórias da infância. A família perdeu sua casa em ataques do exército sérvio em Zadar, sua cidade natal. Modric tinha seis anos quando seu avô, também chamado Luka, foi assassinado por forças contrárias à independência croata da Iugoslávia, declarada em 1991. Passou o resto da infância e início da adolescência numa hospedaria de Zadar. Mas não quis falar sobre nada disso quando chegou à Inglaterra, em 2008, para atuar no Tottenham, numa venda que rendeu — ou renderia — € 16,5 milhões ao Dínamo de Zagreb. Gentilmente, disse ao “Telegraph” que “revisitar o passado não levaria a nada”.O passado perturbou Modric quase dez anos depois, desta vez na Justiça. Descobriu-se que o todo-poderoso Zdravko Mamic, ex-diretor do Dínamo com boas conexões na política croata, embolsou boa parte do valor da venda ao Tottenham. Convocado a depor, Modric mudou o testemunho, supostamente para proteger o dirigente. Foi acusado de perjúrio. A sentença ainda não saiu, mas a condenação pela opinião pública foi imediata: Modric acabou associado a um sistema sombrio que tumultua política e futebol da Croácia. A escuridão do país engoliu a estrela.Nada como uma Copa do Mundo, porém, para reverter panoramas. O sucesso improvável da seleção de Zlatko Dalic, que assumiu a equipe no aeroporto antes da última rodada das eliminatórias, recolocou o futebol no papel de fiador da unidade nacional. Era assim na década de 1990, nos primeiros anos pós-independência, quando a identidade nacional recém-forjada envolvia o apoio incondicional aos jogadores. Nos últimos anos, um nacionalismo exacerbado anti-Sérvia tentou ocupar este lugar.A presidente Kolinda Grabar-Kitarovic, conservadora de perfil moderado eleita em 2015, fez questão de assistir às partidas da seleção e até desceu ao vestiário para saudar os jogadores depois das quartas de final contra a Rússia. O gesto, por um lado, suavizou a imagem de um país que correu o risco de ficar fora da Euro-2016 porque recebeu a Itália nas eliminatórias em um campo com uma suástica pintada no gramado; por outro, foi visto como um ato populista de quem deseja maquiar a realidade.— Essas coisas não dizem respeito só a futebol. Há um contexto mais amplo, infelizmente — disse o zagueiro Lovren. — Você não pode exigir assim algo dos jogadores. Mas agora nós mudamos alguma coisa. Todos estão orgulhosos da Croácia. Quero convidá-los ao meu país agora. Vocês verão algo maravilhoso.— A Croácia não dorme — corroborou Modric. — Na final, seremos 11 guerreiros deixando tudo em campo pelo nosso povo.Apesar dos panos quentes quadriculados, a política não dorme, como se viu no vídeo em que o zagueiro Domagoj Vida, com uma garrafa de cerveja na mão, grita “Glória à Ucrânia”, “Que Belgrado queime” e outras frases interpretadas como mais do que simples afagos nos amigos. Vida pediu desculpas, mas não escapou das vaias dos russos na semifinal.Dalic, no entanto, quer falar de futebol, e cobre Modric de elogios. O camisa 10 é quem traz a melhor chance de que o talento escreva contos de fadas belos o suficiente para que os porões sejam esquecidos.— Ninguém ficará mais feliz do que eu se Luka ganhar o prêmio de melhor jogador da Copa ou a Bola de Ouro no fim do ano — disse.
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