Merkel nega que sua aposentadoria reduzirá influência da Alemanha


BERLIM — A chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, negou nesta terça-feira que a sua progressiva retirada política afetará a influência do país em negociações internacionais. No poder há 13 anos, a chefe do governo desistiu de concorrer em 2021 a outro mandato no cargo — ela já está no quarto consecutivo — depois de uma nova derrota eleitoral dos partidos que integram a sua aliança numa eleição regional em Hesse. Ela também não tentará ser novamente escolhida como chefe da União Democrata Cristã (CDU), no congresso anual da legenda em dezembro.

— Não acho que isso mude a influência nas negociações internacionais. Pelo contrário, terei até mais tempo para me concentrar nas tarefas de chefe de governo — declarou a chanceler em Berlim, durante uma entrevista ao lado do presidente egípcio, Abdel Fattah al Sissi.

Apesar das afirmações de Merkel, muitos temem que ela perca força nos âmbitos interno e internacional. Há dúvidas ainda sobre a capacidade da chanceler — recorde de longevidade no poder na Europa Ocidental — de se manter por mais três anos no cargo de chefe de governo, até o fim de seu mandato. “Acaba o reinado de Merkel”, dizia a manchete do jornal Bild nesta terça-feira. “Chega ao fim a era Merkel”, concordava o “Süddeutsche Zeitung”.

Os problemas de Merkel podem também limitar sua capacidade de liderança na União Europeia no momento em que o bloco está lidando com o Brexit, com uma crise orçamentária na Itália e com a perspectiva de partidos populistas obterem conquistas significativas nas eleições para o Parlamento Europeu de maio próximo.

— O papel de dirigente de Merkel na União Europeia poderá agora ser coisa do passado — avalia Lüder Gerken, analista do Centro de Política Europeia (CEP), um instituto alemão.

Merkel sempre enfatizou que a liderança do partido e o cargo de líder do governo deveriam estar juntos. Sua decisão de abrir mão da liderança do partido deve desencadear uma disputa pelo domínio da legenda, uma das siglas de maior influência do continente.

Possíveis candidatos para a sua sucessão na liderança partidária incluem a secretária-geral da CDU Annegret Kramp-Karrenbauer, a ministra de Saúde Jens Spahn, o primeiro-ministro da Renânia do Norte-Vestfália Armin Laschet e o ex-líder do grupo parlamentar da CDU Friedrich Merz. O novo presidente do partido será eleito por cerca de mil delegados reunidos em 7 e 8 de dezembro em Hamburgo.

A chanceler diz que não tem um favorito, mas especula-se abertamente que Kramp-Karrenbauer seja a sua predileta. pelidada de “Mini-Merkel” pela imprensa alemã por seu estilo sóbrio, ela foi designada secretária-geral do partido em fevereiro, uma manobra considerada parte de um plano de sucessão. De 2011 a 2018, ela foi a premier do pequeno estado de Sarre, na fronteira com a França.

Merz, por sua vez, é o líder da ala direita do partido e o principal rival interno de Merkel na CDU. Entre 2000 e 2002, ele foi o líder da CDU no Parlamento, até ser substituído pela atual chanceler. O advogado financeiro de 62 anos lidera a fração que deseja levar o partido de volta às suas raízes conservadoras, insatisfeita pela guinada ao centro promovida por Merkel, sobretudo no que diz respeito à imigração.

Desde a crise migratória de 2015, a Alemanha recebeu mais de 1 milhão de imigrantes, quantidade maior do que qualquer país europeu. Setores do partido atribuem a isso o crescimento da sigla de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD).

— Friedrich Merz abre uma imensa perspectiva para a CDU e marca posição contra a erosão crescente do partido para a AfD — disse o ministro de Estado e ex-secretário-geral da União Social-Cristã (CSU), coligada à CDU, Thomas Goppel.

Esta erosão foi vista nas eleições regionais de Hesse, onde a CDU viu seu percentual de votos cair em mais de 11 pontos percentuais. No mês passado, um aliado próximo de Merkel, Volker Kauder, foi retirado do posto de líder do grupo parlamentar da CDU, para ser substituído por Ralph Brinkhaus, um relativo desconhecido. A Afd atualmente está representada nos 16 parlamentos regionais alemães.

Já Spahn é um dos principais críticos das políticas imigratórias de Merkel dentro da CDU e uma estrela ascendente no partido. Aos 38 anos, ele se afirma como um político que vem de zonas rurais e é cético dos liberais urbanos e da elite globalista, o que, por um lado, atrai a simpatia dos conservadores da sigla, mas afasta de si os defensores de Merkel. Sua indicação para ministro da Saúde foi entendida como um movimento da chanceler para trazê-lo para perto de si.

A trajetória descendente da CDU é compartilhada por seus parceiros na grande coalizão governamental, o Partido Social-Democrata (SPD). Depois de, na votação na Baviera, perder cerca de metade dos votos e ver pela primeira vez o seu percentual cair para menos 10% em uma eleição num estado federado, em Hesse ontem a sigla obteve apenas 20%, um terço a menos da votação obtida há cinco anos.

Os percentuais reavivam um antigo debate no SPD: a participação numa grande coligação prejudica o partido e retira dele a sua identidade. A sua ida para a oposição, no entanto, significaria perder espaço e ver sua influência se reduzir ainda mais.


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