Matriarca da família Monteiro de Carvalho, Evinha viveu entre a fleuma escandinava e o samba carioca


Era o ano 1940. Eva Bügge, uma linda loira de 1,76m, filha de noruegueses,
circulava pelas ruas do Rio em seu carro conversível, grande ousadia para a
época (mulher nenhuma fazia isso) que lhe valeu o apelido “Eva Baratinha”.
Solteira por pouco tempo, veio a conhecer o então jogador de polo Joaquim
Monteiro de Carvalho, o Baby; a paixão foi exaltada pela sociedade inteira, pelo
espírito e pela beleza de ambos. No ano seguinte, casaram-se. Eram os primeiros
passos do casal que trouxe esplendor à sociedade carioca por décadas e décadas,
representantes de um Rio glamoroso, sofisticado, elegante e com uma certa
irreverência. Era uma anfitriã sem rival, fosse num jantar ou nas missas de
Natal que promovia desde jovenzinha, ampliadas com o passar dos anos.Na década seguinte, durante o governo de Juscelino
Kubitschek, Baby, engenheiro formado na Suíça, criou a indústria automotiva no
Brasil, com a instalação da Volkswagen. Foi então que o casal comprou um
apartamento em Paris, na Avenue Montaigne, como pouso-base para facilitar a vida
dele, cheio de negócios na Europa. Nos anos 1970, Baby se associou ao conde
francês Frédéric Chandon, acionista da Moët & Chandon, e fundou a vinícola
Chandon, em Garibaldi, Rio Grande do Sul. Foi a maneira de trazer ao Brasil a
qualidade dos espumantes franceses em tempos de proibição às importações. Evinha
sempre esteve ao lado do marido, em qualquer situação ou país.— Antigamente, as atividades empresarial e social eram
muito ligadas. Era nas festas e recepções que se faziam grandes contatos — conta
Olavo, sobrinho de Baby.O casal teve cinco filhos: Astrid, Sérgio Alberto, Ana
Maria, Joaquim Álvaro e Lilibeth. Na gravidez da última filha e temporã, no fim
da década de 1950, Evinha sofreu um grave acidente de carro, em Santa Teresa,
tendo ao volante o marido. Eles subiam para a propriedade da família, comprada
de um estrangeiro em 1938, quando a casa principal ainda nem estava pronta. O
rosto de Evinha foi reconstruído, com mais de 150 pontos, por um então cirurgião
em ascendência: Ivo Pitanguy. Desde a data, ela ficou com uma ligeira diferença
entre os olhos, mas que não mudou sua visão da vida; o detalhe em nada
atrapalhou seu jeito de ser, livre de preconceitos. E a paixão pela família,
pelas escolas de samba, pelo mar e pelos esportes (adorava jogar tênis e
caminhava pelo calçadão de Copacabana inteiro ao lado do motorista e amigo Ivan)
continuou intacta. Filhos, netos e bisnetos, todos a chamavam de “Mamy”. E não são poucos: em 2017, nasceu o bebê de número 50 da quinta geração da família, filho de Vanessa Arnêz e Sérgio Floris (ele, fruto do casamento de Lilibeth com o empresário Aldo Floris). — Minha avó era uma embaixadora da vida. Por anos e anos, todas as quartas-feiras almoçava com as amigas. Celebrar significava muito para ela. Era alguém de alma leve e jamais perdeu a alegria de viver — diz o neto Joaquim, filho de Sérgio Alberto. Sérgio Francisco, outro neto, acrescenta:— Ela era louca pelo Rio, apesar de sofrer demais com a impontualidade carioca. Foi muito importante na vida empresarial do meu avô, mas sempre se divertindo: quando íamos ao Régine’s (boate de muito sucesso nos anos 1970 e 1980), o difícil era tirá-la da pista de dança.Entre as casas pelo mundo, além da propriedade de Santa Teresa, suas preferidas eram uma em Cap Ferrat, na França; uma ilha em Itacuruçá; e outra casa em Petrópolis, onde viveu sua mãe, também Eva. E, ao contrário do que se possa imaginar, não se pode falar de uma vida com excesso de extravagâncias. Com base numa cultura mais escandinava, adquirida nos anos em que estudou na Noruega, o closet de Evinha era essencialmente composto de meia dúzia de camisas, meia dúzia de bolsas, meia dúzia de sapatos, tudo muito bom para não ter de ficar comprando sempre.— Nunca ouvi a Mamy dizer que estava indo às compras. Nem pensava nisso; gostava da essência da vida. E amava festas, era sempre a primeira a chegar e a última a sair — diz Lilibeth, lembrando que aprendeu também com ela a não falar mal de ninguém e a evitar pensar em coisas tristes.Se era carnaval, Evinha entrava mais forte em cena, virando noites na Marquês de Sapucaí. E algo que a deixava sentida, um gesto irreparável, era um convidado querer ir embora antes do fim dos desfiles — achava um desrespeito ao povo que passara o ano inteiro preparando aquela beleza. Uma das grandes companhias para muitos desses momentos era o sobrinho Olavo.— Éramos companheiros de noitada. Tia Evinha sempre curtia tudo isso, estava ou queria estar onde houvesse alegria — diz ele. Evinha e Baby recebiam num dos cenários mais lindos do Rio, a casa de Santa Teresa. E nunca houve estrangeiro que não se dissesse impressionado com o que via: da vista incrível às palmeiras imperiais; das seriemas às coleções de art déco, Lalique e galets (raríssimos) que deixaram Madonna encantada quando ali esteve em 2009. Aliás, foi lá que Mick Jagger conheceu Luciana Gimenez, numa festa para os Rolling Stones, e o resto é história. Durante o casamento da neta Constança Teixeira de Freitas com o francês Thierry Costes (da família do hotel homônimo em Paris), em dezembro de 2006, um dos convidados franceses, admirado com a grandeza e beleza do cenário, deleitou-se quando uma carioca disse: “Você não viu nada; numa parte secreta da casa, tem uma fonte de onde jorra champanhe”. Ele foi perguntar a Evinha, e ela apenas sorriu, num clima subentendido — não se sabe se a anfitriã não entendeu pelo barulho da música ou se entrou na brincadeira. Perder a piada estava fora de cogitação.A morte de Baby, em 2008, deixou a festa sem graça. O mais famoso clã carioca segue a escola da matriarca, adaptado a uma nova realidade. O que vai ser daquele tão famoso endereço? Sempre existiram rumores de que, quando esse momento chegasse, a casa de Santa Teresa viraria uma fundação. Por ora, só conversa mesmo, segundo Lilibeth:— Não existe nada definido e, por enquanto, não quero nem pensar nesse assunto.Da festa mais simples à mais sofisticada, Evinha deslizava os olhos azuis e protetores pelos salões e pelos convidados, deixando qualquer um perceber o grande prazer que aquela situação lhe trazia. Com a sua partida, aos 99 anos, no último dia 8, vêm à cabeça de muitos cariocas de todas as idades grandes recordações de tanta alegria de viver e desse Rio que se foi.
Leia a notícia completa em O Globo Matriarca da família Monteiro de Carvalho, Evinha viveu entre a fleuma escandinava e o samba carioca

O que você pensa sobre isso?