Lonas culturais chegam aos 25 anos sem festa


RIO – Aquele palco tem história. Já recebeu atrações internacionais como o guitarrista
americano Stanley Jordan. Elymar Santos e Agnaldo Timóteo, vez por outra, dão as
caras por lá. Mas, no geral, quem tem ocupado a agenda são grupos locais de
música ou teatro infantil. Vinte e cinco anos depois de inaugurada, a lona
cultural Elza Osborne, em Campo Grande, que abriu caminho para outras nove
espalhadas pelas zonas Norte e Oeste da cidade, luta para se manter de pé. Assim
como as de Realengo, Vista Alegre, Guadalupe, Anchieta, Maré, Santa Cruz, Ilha
do Governador, Jacarepaguá e Bangu.

— As lonas têm um papel importante na afirmação das identidades de gente que
sempre foi relegada a coadjuvante — diz o jornalista Vagner Fernandes, que
prepara um livro sobre o tema. — Nomes como Ana Carolina, Chico César e Mumuzinho
passaram por lá no começo.

Vistas como uma espécie de Circo Voador de seus territórios, elas lutam para não
estar na lona, nocauteadas pela falta de verbas. Quatro dos 10 equipamentos não
receberam o último repasse de dinheiro da prefeitura, que deveria ter sido feito
em agosto — referente a setembro, outubro, novembro e dezembro.78640395_Rio de Janeiro 31-08-2018 - 25 ANOS DAS LONAS CULTURAIS A Elza Osborne é a primeira lona cu.jpg

Para piorar, há o problema das adequações exigidas pelo Corpo de Bombeiros
depois do incêndio da boate Kiss, que em 2005 deixou 242 mortos em Santa Maria
(RS). Desde então, a lotação das lonas, que era de 600 pessoas, caiu para 320.
Com isso, mais o fato de várias delas ficarem em áreas conflagradas pela
violência, despencou a arrecadação com ingressos, o que garantia pagamentos como
os de faxineiro e segurança nas noites de shows, descontados 70% para os
artistas.

— Esses 70% não pagam nem os músicos. Nomes como Elba Ramalho vêm, hoje, no amor
— observa Francisco Antônio Rodrigues Costa, um dos gestores da Lona Gilberto
Gil, em Realengo.Lonas culturais

Com chancela da ONU, o projeto nasceu em 1993, a partir da iniciativa de Ives
Macena — até hoje gestor da lona de Campo Grande — e do então presidente da
RioArte, Ricardo Macieira, que encontraram uma forma de aproveitar as lonas
doadas pelos governos inglês e holandês na conferência Rio- 92. 78599134_Rio de Janeiro 29-98-2018 Lona Cultural Gilberto Gil em Realengo Na foto reproducao dos arq.jpg

— A ideia era promover inclusão social com participação das comunidades —
relembra Macieira, que credita o início da crise à decisão da prefeitura de
licitar os espaços, em 2008. — Foi o início da destruição de tudo. Até então, a
comunidade participava da implementação do projeto para depois assumi-lo. Só
dava certo por causa disso. Em 1995, o auxilio que recebíamos da prefeitura, de R$ 5 mil, equivalia a 50 salários mínimos. Hoje, representa menos de 25

— As licitações são realizadas para evitar subjetivismos no processo de
escolha da gestão — defende a secretária municipal de Cultura, Nilcemar
Nogueira. — Para isso, os critérios de seleção são detalhados, democratizando o
acesso.

Hoje, o prazo máximo de gestão é de cinco anos, e cada lona recebe
mensalmente R$ 25 mil para se manter.

— Em 1995, o auxilio que recebíamos da prefeitura, de R$ 5 mil, equivalia a
50 salários mínimos. Hoje, representa menos de 25. Chegamos a ter 14
funcionários. Hoje somos seis. Mesmo com a verba reduzida, se a gente pudesse
trabalhar com a quantidade de pessoas que a casa permite, conseguiríamos
mantê-la arrumada —observa Macena, um dos que estão sem receber desde
agosto.78599140_Rio de Janeiro 29-98-2018 Lona Cultural Gilberto Gil em Realengo. Foto Marcelo Regua - Agen.jpg

Segundo a Secretaria municipal de Cultura, o atraso nos repasses para Campo
Grande — assim como para Santa Cruz e Maré — ocorreu “porque a prefeitura tem
enfrentado problemas no fluxo de caixa devido à crise financeira”. O pagamento
está aprovado, mas ainda não foi liberado pela Secretaria municipal de Fazenda,
que diz estar atuando “de acordo com a disponibilidade orçamentária do Tesouro
Municipal”. A quarta lona com pagamento atrasado (Jacob do Bandolim, em
Jacarepaguá), está com problema de prestação de contas, segundo a secretaria. O
GLOBO tentou contato com seus administradores, sem sucesso.

Os contratos de sete das dez lonas foram renovados por um ano em outubro passado. Os de duas delas — Campo Grande e Bangu — vencem em fevereiro do ano que vem. Já o da Gilberto Gil completou cinco anos e, à época, não podia mais ser renovado com o mesmo grupo, que lá está desde sua inauguração, em 1997. Com isso, o espaço de Realengo, continua sob a mesma administração por conta de um termo de cooperação sem remuneração assinado após um chamamento público. Segundo a prefeitura, no próximo dia 19 de novembro será lançada uma nova licitação e, com ela, a gestão do espaço voltará a contar com repasses remunerados.

Nilcemar Nogueira diz ainda que vai lançar em 2019 um edital específico para apresentações nas lonas e arenas (que têm mais infraestrutura que as lonas).

— Nosso Plano de Trabalho Plurianual também prevê a transformação, até 2021, de duas lonas em areninhas, as da Maré e Vista Alegre.

Areninhas são lonas que já passaram por reforma estrutural e dispõem de ar condicionado. Embora continuem conhecidas como lonas, elas já são três: Ilha, Bangu e Realengo.

Foi na lona de Realengo que subiu ao palco pela primeira vez um ex-vizinho e aluno de oficinas do espaço, Mumuzinho. E onde Rafael Portugal, também morador do bairro, fez curso de teatro. As oficinas permanecem, mas ficou difícil manter a agenda de shows que já contou contou com nomes como Nana Caymmi, Ed Motta, Frejat, Nando Reis, Cassia Eller…

— Seria importante que as lonas tivessem mecanismos de autossustentabilidade, mas as empresas não se interessam por equipamentos culturais na periferia. E os empresários locais também não se interessam, diante de um cenário de crise econômica, de retração. Se o grande empresário se retrai, imagina o dono da padaria – diz Fernandes.

Apesar dos problemas, segundo
Nilcemar, de janeiro a setembro, a frequência de público não caiu em relação ao
ano passado: chegou à marca de 388 mil espectadores, enquanto no mesmo período
de 2017 foram 277 mil.

Arenas podem ter programação reduzida

Projeto derivado das lonas, as arenas cariocas nasceram em
2012 como uma estrutura mais elaborada, tendo capacidade para 330 pessoas
sentadas. Elas são quatro e também estão com repasses de verbas atrasados desde
agosto (os pagamentos são feitos pela prefeitura três vezes ao ano): Jovelina
Pérola Negra, na Pavuna; Dicró, na Penha Circular; Fernando Torres, em
Madureira; e Abelardo Barbosa/Chacrinha, em Pedra de Guaratiba.

Com orçamento anual de cerca de R$ 700 mil e 25
funcionários, a Jovelina Pérola Negra recebe cerca de 10 mil pessoas por mês em
shows e oficinas. Seu gestor, Anderson Barnabé, diz que, com a falta de repasse,
terá que tomar a difícil decisão de reduzir ou até mesmo cancelar parte da
programação.

— Inaugurei a
casa há sete anos e nunca tinha vivido uma situação tão dramática quanto agora.
Nossa situação está calamitosa. Esses equipamentos são a única referência de
cultura desses locais. Não queremos parar.

Junto com
representantes da Arena Dicró e da Lona da Maré, ele se reuniu anteontem com a
subsecretária de cultura, Rachel Valença. Ela se prontificou a pressionar a
Secretaria de Fazenda para que os recursos sejam liberados.


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