Liberação das faixas seletivas a carros de passeio atrasa viagens de ônibus em Niterói

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NITERÓI – Criadas para agilizar a vida do usuário do transporte público, as faixas seletivas estão com papel cada vez mais acanhado na cidade. Em trechos com trânsito carregado, como Fonseca e Centro, a orientação da Niterói Transpoprte e Trânsito (NitTrans) aos guardas é a de, nos horários de pico, liberar as pistas exclusivas também aos veículos particulares. O impacto da medida é sentido no dia a dia dos usuários, principalmente por quem passa pela Alameda São Boaventura. Lá, segundo levantamento do Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários (Sintronac), a travessia dos 3,1 quilômetros de corredor viário leva cerca de 40 minutos, 25 a mais do que o tempo gasto com o uso adequedo das seletivas. Para especialistas, a alternativa que beneficia os carros de passeio é um contrassenso à política de incentivo ao transporte público.

Tudo o que é preciso para resultar num engarrafamento pode ser observado na Alameda. Incrustada num bairro de grande densidade demográfica, a via é repleta de comércio e serve de passagem para quem vai e vem de municípios vizinhos, como São Gonçalo; da Região dos Lagos; e do Norte Fluminense. Não à toa, o número de ônibus ali impressiona: dados da Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Rio (Fetranspor) apontam que mais de 60 linhas passam diariamente por lá, entre municipais e intermunicipais. A solução para melhorar o fluxo foi o corredor viário construído em 2010, projetado para triplicar a velocidade média dos coletivos ao longo do trecho. Atualmente, no entanto, os ônibus perderam o privilégio justamente nos horários mais importantes: das 6h às 14h, todas as faixas no sentido Centro são liberadas. O sentido oposto é aberto a partir das 14h.

— É um contrassenso. Para implantar a faixa nesses moldes, é melhor não fazer nada. Essa é uma das ações que ajudam a estabelecer a primazia do transporte público sobre o privado. Se é esse o mote, não pode permitir o uso indiscriminado da faixa no horário de pico. O objetivo deve ser favorecer o transporte coletivo, submetendo seus usuários a um menor tempo de viagem — avalia José de Oliveira Guerra, do departamento de Engenharia de Transporte da Uerj.

Ainda segundo Guerra, quando os corredores viários são efetivos, o cidadão passa a considerar deixar o carro em casa. Para isso, ele explica, é desejável oferecer uma velocidade de tráfego notavelmente maior para os ônibus do que aos outros automóveis. Quem utiliza o transporte público concorda com a estratégia. A estudante de Psicologia Amanda Torres mora no Fonseca e sente o desgaste de perder horas no trânsito. Diariamente ela pega o horário de pico para ir e vir de Botafogo:

INFOCHPDPICT000059718561— Se você tira o único privilégio que a gente tem no transporte público, o serviço, que já não é tão bom, fica ainda pior e mais cansativo. Eu sempre notei como a faixa seletiva é um adianto, porque via os carros parados e os ônibus andando.

Além do Fonseca, a cidade tem faixas seletivas no Centro (nas avenidas Feliciano Sodré e Visconde do Rio Branco) e em Icaraí (na Rua Gavião Peixoto e na Avenida Roberto Silveira). No Centro, a pista exclusiva da Avenida Visconde do Rio Branco começa na altura do Terminal Rodoviário João Goulart, para absorver o volume de ônibus que saem de lá. O radar eletrônico instalado naquele ponto e que flagrava as infrações está desativado. A prefeitura informa, por nota, que o fato de um radar fixo estar momentaneamente sem operar não significa que a via está livre de fiscalização. Ressalta ainda que radares móveis também são utilizados. Naquele ponto, por volta das 18h, agentes de trânsito passam a direcionar os carros de passeio para a pista destinada aos coletivos. Um dos que estavam operando no local na última terça-feira justifica:

— Sem esse procedimento, o trânsito fica carregado até as 20h, 21h, e a cauda de veículos vai até a Feliciano Sodré. Com a liberação, às 20h a Feliciano Sodré já está livre. Atrasa um pouco os ônibus, mas melhora muito para os carros.

Professor de engenharia de transporte da Coppe/UFRJ, Paulo Cezar Ribeiro rebate:

— Se levar em consideração o número de pessoas que passam num determinado ponto, vai passar menos gente se você abrir (a seletiva) aos carros do que se você deixar livre para os ônibus. No conjunto, somando os usuários de automóveis com os passageiros dentro de ônibus, vai passar menos gente.

CERCA DE 60 BATIDAS POR MÊS

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Motorista da linha 731D (Charitas-Candelária, via Fonseca), Carlos Maurício dos Santos diz que o número de viagens que faz por dia caiu de três para duas com a complicação do trânsito:

— Na hora de pico, para tudo. Antes, fluía para os ônibus. Principalmente durante o horário de rush, tem que haver exclusividade.

Santos diz ainda que são frequentes os casos de batidas leves com veículos de passeio na Alameda São Boaventura, porque os mesmos não respeitam a preferência do ônibus na saída das baias centrais, em que passageiros embarcam e desembarcam. A queixa do motorista vai ao encontro das estatísticas do Sintronac. Segundo o sindicato, todo mês ocorrem cerca de 60 pequenas batidas envolvendo ônibus na Alameda.

— Existe um conflito entre carro de passeio e transporte coletivo, e a prefeitura não está sabendo administrá-lo. Os grandes centros urbanos priorizam o transporte público, enquanto aqui estão beneficiando o carro particular — diz Rubens dos Santos Oliveira, presidente do Sintronac.

A NitTrans explica que os guardas são orientados a liberar faixas seletivas apenas quando há fluxo intenso de trânsito. Destaca ainda que seus canais de comunicação vêm recebendo apoio de passageiros e motoristas de ônibus devido à fluidez do tráfego em horários de pico. A NitTrans ressalta que uma faixa segregada em uma via congestionada não garante fluidez na seletiva, pois o tráfego fica represado nos locais de saída, gerando um verdadeiro nó ao trânsito.


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