Kit Redstone é a principal atração do Festival Transarte


Não é a primeira vez de Kit Redstone no Brasil. Em 2017, o londrino de 37 anos montou uma apresentação única do premiado espetáculo “Testosterone” em Campinas (SP), num projeto apoiado pelo Consulado Britânico — na peça, ele abordava, com humor negro, situações delicadas que enfrentara após assumir sua identidade masculina. Desde então, os laços com o país ganharam força. Algo o atrai por aqui. “Há muitos abraços”, ele brinca. Nesta semana, o ator e escritor é a principal atração do Festival Transarte, que ocupa o Espaço Despina, no Centro do Rio, com espetáculos inéditos criados em colaboração com artistas transexuais da capital fluminense.— Não sei o que faríamos sem essa rede de aliados — comenta o homem trans, que iniciou a redesignação sexual há pouco mais de cinco anos: — A onda ultraconservadora que toma o mundo inteiro está diretamente relacionada ao aumento de representatividade da comunidade queer. Estamos apenas clamando por igualdade de direitos. Ninguém perderá nada. Programação cultural no Rio de Janeiro – RJQual a importância de um festival feito por artistas transexuais hoje?Para mim, a vinda ao Brasil deixou realmente claro o quão importante são festivais como esse. Não apenas pela celebração alegre da comunidade trans. Mas pela importância de existir um espaço onde as pessoas sejam aceitas e exaltadas e, mais do que isso, formem vínculos e conexões dentro um ambiente seguro. O que mais me impressiona no grupo com o qual tenho trabalhado é que todos ali reverberam amor e generosidade, apesar de terem todos os motivos para estarem zangados com o mundo. Não sei o que faríamos sem essa rede de aliados.Como será a apresentação que você preparou com os artistas participantes do evento?Nosso objetivo principal era criar um espetáculo a partir de relatos de organizadores e participantes do evento. A proposta era mostrar como aquele processo de criação coletiva poderia ser empoderador. O show é punk, poético e não-convencional, até mesmo surreal, pois reflete as contradições e diferenças dentro do próprio mundo trans. Mas é um trabalho em andamento. Minha esperança é que o grupo continue a transformá-lo depois que eu for embora.Recentemente, o debate sobre “lugar de fala” ganhou força no Brasil. Há pouco tempo, o primeiro personagem transexual numa novela brasileira foi interpretado por uma atriz cisgênero, o que gerou debates acalorados. Como avalia esse cenário?Também temos esse debate no Reino Unido. Dificilmente, vemos atores trans no universo artístico. Isso é um fato. Se os papéis trans são tomados por atores cis, significa que não há literalmente nenhum espaço para nós. Sou muito grato a atores como Hilary Swank, que fez o filme “Meninos não choram” (1999). Sua performance ali foi incrível. Mas ela é uma atriz cis que interpreta um homem trans, e isso certamente não combate a visão preconceituosa que defende que as pessoas trans carregam, na verdade, seu gênero de nascimento.No Brasil, vemos um crescimento de coletivos e grupos de artistas trans. Ao mesmo tempo, uma onda ultraconservadora surge no país — um espetáculo teatral estrelado por uma atriz trans foi censurado recentemente, por exemplo. Como você avalia esse cenário contraditório?A onda ultraconservadora que toma o mundo inteiro está diretamente relacionada ao aumento de representatividade da comunidade queer. Como estamos progredindo e avançando, muitas pessoas conservadoras e de direita sentem que o status quo está ameaçado. Atualmente, em todos os lugares do planeta, existe muita propaganda de movimentos políticos de direita sugerindo que as mulheres trans são predadoras sexuais, que as crianças trans estão colocando outras crianças em perigo e que existe uma “agenda trans” que quer acabar com os conceitos de masculino e feminino. Isso é um lixo completo.Dá para se manter otimista diante disso?Acontece que estamos clamando por igualdade de direitos. E para que isso seja refletido na lei. Não significa que alguém perderá algo. Significa apenas igualdade. No Reino Unido, algo muito obscuro está acontecendo: grupos feministas radicais estão criando um discurso perigoso sobre as mulheres trans, criticando as instituições de caridade que apoiam jovens juventude.Nesse contexto geral de discriminação, como foi assumir sua identidade masculina?Para ser honesto, a transição sexual foi incrivelmente fácil. Todos aceitaram. Minha mãe já estava acostumada com a ideia, e meus amigos não ficaram surpresos. Como um homem trans que “passa” como um homem cis, transito pelos lugares da maneira que qualquer homem branco e heterossexual faz, com muito poder e privilégio. Ironicamente, para mim, foi muito mais difícil antes de fazer a transição. Tinha um aspecto andrógino e era frequentemente confrontado com uma série de abusos nas ruas, particularmente por homens.No pouco tempo em que está no Brasil, você notou alguma diferença no comportamento das pessoas quanto a isso?Sei que é um momento assustador para o Brasil, mas tenho notado algo muito positivo: as pessoas, aqui, vivem politicamente. Todas as pessoas com quem trabalhei defendem o que acreditam com unhas e dentes. Nesse sentido, o Reino Unido parece um pouco apático. Nós estamos estragados, talvez. Outra coisa realmente adorável sobre o Brasil é como os homens são fisicamente afetuosos. Há muitos abraços! No Reino Unico, somos um pouco mais reservados, o que é uma vergonha. Apesar disso, vejo como a vida é difícil para a comunidade trans. Sou grato, por exemplo, por viver num lugar onde o fato de ser trans não me impede de ser empregado e de ter relacionamentos, pelo menos por enquanto. Será triste deixar o maravilhoso grupo que formei aqui, pois estarei pensando neles o tempo todo.
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