Isto é sofrência

Sofre-se o diabo na música brasileira e é bom que tenha sido assim desde sempre porque, de outro modo, fosse apenas um barquinho que vai, uma tardinha que cai, tudo seria fofinho e chato demais. Não teríamos Lupicínio Rodrigues aos santos clamando vingança. Ou Dalva de Oliveira se fazendo chorosa para declarar, sob a luz difusa do abajur lilás, que o ciúme se debruçou sobre seu coração. A sofrência, graças a Deus, não é de hoje. Ela estava no primeiro verso do primeiro samba-canção, o doloroso “Ai, Iôiô, eu nasci pra sofrer”. Mais adiante, macho dos machos, Vicente Celestino berrava a história do campônio que arrancava o coração do peito da própria mãe e, como prova de amor, levava-o em adoração, ainda sangrando, à presença de sua amada. Amar é um bolero barra-pesada, um inferno que pode acabar em cena de sangue num bar da Avenida São João. Um caso de polícia. Há muitas maneiras de se sofrer o diabo com a maldade alheia, mas o pé na bunda do ex-amor, a dor de corno, o ressentimento, o remorso e o risque meu nome do seu caderno são acontecimentos inerentes à vida de todos. A MPB registrou cada uma dessas formas de alguém ser infeliz. Amar dói. Não amar dói mais ainda. Deixar de ser amado é a outra opção. Foi aí que Caetano Veloso, autor de “Odeio você”, puxou da viola e escreveu “A tristeza é senhora/desde que o samba é samba é assim”. O amor é o grande desacontecimento da música popular brasileira. Ninguém escapa do tudo acabado entre nós, da dor tão cruel de uma saudade, dos nervos de aço e de todos os demais refrãos clássicos da música sentimental. Tire o seu sorriso do caminho, que os melhores compositores querem passar com a sua dor. Para quem duvidar, lá está o corpo infartado de Antônio Maria na calçada imunda de Copacabana, o autor de “Ninguém me ama, ninguém me quer”, quatro meses depois de ter levado o último passa-fora em sua gorda e infeliz existência. Ele era amigo de Maysa, aquela que disse “Meu mundo caiu”. Amicíssimo de Dolores Duran, a que escreveu “Um belo dia a gente entende que ficou sozinho/Vem a vontade de chorar baixinho”. Sofrimento é patrimônio nacional. Antes de Marília Mendonça se confessar amante de homem casado e ter ciúmes da mulher dele, Carmen Costa já tinha cantado nos anos 1950 que “Ele é casado/Eu sou a outra que o mundo difama”. Ninguém se tem em alta consideração. Machões choram. O baiano Waldick Soriano abusava de um soluço para dar clima ainda mais coitadinho a sua chorosa “Eu não sou cachorro não/Pra viver tão humilhado”. O nordestino, um forte na literatura de Euclides da Cunha, na MPB não passa de um fraco em busca de ouvidos para suas sofrências. Foi o que fez o pernambucano Reginaldo Rossi. Na noite em que seu grande amor estava casando, meteu-se num bar, tomou todas e desabafou ao garçom: “Ela deixou em pedaços o meu coração”. Uma das formas de identificar esse tipo de música é o rótulo “dor de cotovelo”, pelo óbvio de o sujeito se apoiar com ele no balcão enquanto rememora a desilusão amorosa. A bossa nova, criada pelos garotos da Zona Sul do Rio de Janeiro para enfrentar o baixo-astral do samba-canção, também enveredou pela melancolia. A garota de Ipanema passa soberba, inatingível, e ao cantor cabe apenas dizer “ah, como tudo é tão triste”. Herivelto Martins, Nelson Gonçalves, Adelino Moreira, Angela Ro Ro, além dos já citados, são mestres nessa tradicional arte brasileira de cortar os pulsos. Zero de orgulho. Errei, sim, manchei o meu nome. Todos fracassados, chifrados, perdedores, pobres infelizes abandonados ontem à noite por alguém que lhes foi sincero. Mandou procurar alhures o carinho que ali já não tinha mais. Noel sofreu em “Eu não mereço a comida que você pagou pra mim”. O samba, a prontidão e outras fossas são coisas nossas. Marília Mendonça faz muito bem em seguir a lamúria de Dalva de Oliveira. O amor não presta. Que ridícula é a vida!*Joaquim Ferreira dos Santos é jornalista, escritor e autor de biografias de Zózimo, Antônio Maria e Leila Diniz
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