Heather Webb, escritora: 'O conteúdo na tela não reflete a sociedade’

“Tenho mestrado em História da Arte e trabalho com cultura e arte há 25 anos.
Em 2011, tornei-me diretora executiva da WIFT-Toronto. Tem sido, para mim, uma tremenda
oportunidade de aprendizado, e fico honrada de partilhar do talento, da
criatividade e da paixão dos nossos colaboradores.”

Conte algo que não sei.

Mulheres tiveram 30% dos papéis com fala e dirigiram apenas 7% dos 250 filmes
com maior bilheteria nos Estados Unidos, no ano passado. É um retrato da
disparidade existente entre homens e mulheres na indústria audiovisual.

A indústria audiovisual, de modo geral, é machista?

A palavra machista é muito forte, mas ainda existe, de fato, uma grande
distância entre o número de homens e mulheres trabalhando na indústria, tanto na
frente como por trás das câmeras. Também há disparidade na quantidade de cargos
de liderança ocupados e nos salários pagos às mulheres que ocupam os mesmos
cargos que homens.

Por que isso acontece?

Em parte, porque existe um viés inconsciente que leva as
pessoas a contratarem quem é parecido com elas ou quem já está no mercado, que
historicamente é composto por homens e, geralmente, brancos. É importante haver
igualdade, inclusão e diversidade na indústria, seja de mulheres, indígenas,
pessoas com deficiência ou homens que estejam em minorias, porque, hoje, o
conteúdo na tela não reflete a sociedade.

Esse quadro está mudando?

Nas últimas três décadas, a situação não mudou muito, mas nos últimos três
anos vimos o tema da igualdade de gêneros se tornar uma preocupação global. Com
isso, temos recebido notícias de muitas iniciativas com o objetivo de dar um
impulso às mulheres nesse mercado. Apesar de representarem 50% da população
mundial, as mulheres não têm 50% de participação nas produções
audiovisuais.

Que iniciativas são essas?

A Suécia tem liderado esse movimento. A agência nacional
de filmes da Suécia traçou a meta de direcionar 50% dos seus financiamentos para
projetos liderados por mulheres. Outros países têm seguido a mesma linha. Há
iniciativas semelhantes no Reino Unido, na Austrália e, agora, no Canadá.
Estamos muito empolgadas e esperamos que ações como essa deem mais espaço para
as mulheres.

Como atua a Women in
Film & Television?

É uma organização composta por homens e mulheres que
trabalham em indústrias baseadas em tela, incluindo cinema, TV e mídia digital.
O objetivo é dar suporte às mulheres para que progridam na carreira. Fazemos
isso através de programas de desenvolvimento profissional, mentorias, networking e promoção de eventos que mostram ao
mundo a criatividade de nossos membros.

Qual será o impacto, para as produções, da maior participação das
mulheres?

As mulheres ainda são pouco vistas como protagonistas de
filmes ou como personagens multidimensionais. A desigualdade de gêneros por trás
das câmeras se reflete na tela. Por isso, é importante termos mulheres contando
e dirigindo histórias.

As mulheres que não fazem parte da indústria audiovisual podem
abraçar essa causa?

Com certeza. Estudos mostram que as mulheres representam
50% do público pagante no cinema. Como parte representativa da audiência, todas
nós temos certo poder, simplesmente escolhendo os filmes a que vamos assistir.
Indiretamente, esse tipo de informação chega até os organizadores de festivais e
financiadores da indústria. Definitivamente, as mulheres têm voz e podem fazer
com que ela seja ouvida.

Source: O Globo

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