Grupo Galpão estreia a peça 'Outros', desdobramento da montagem de 'Nós'


De repente, um ator decide trocar de roupa em plena praça pública. Em outra situação, ergue uma mesa sobre a calçada e oferece conversas cronometradas para os pedestres: “Sete minutos”, avisa. No outro dia, num local movimentado, um grupo de artistas promove um debate sobre determinados assuntos. Levadas a espaços públicos de São Paulo e Belo Horizonte neste ano, as ações performáticas — individuais e coletivas — tiveram importância crucial na concepção de “Outros”, o novo espetáculo do Grupo Galpão, em cartaz desde ontem no Teatro Sesc Ginástico, no Centro.Desdobramento da elogiada peça “Nós” , a atual obra volta a se debruçar sobre a dimensão política da palavra, ancorada agora numa ampla pesquisa sobre poesia e alteridade. Sob direção de Marcio Abreu, dez atores da companhia mineira se revezam em diálogos constantemente atravessados, sublinhados por reflexões sobre temas atuais. Leia mais: Grupo Galpão— Dos questionamentos que mais sobressaem no texto, ficam a necessidade de coexistência das diferenças e o esgotamento do modo de vida capitalista — ressalta Abreu. — Mas não é a gente que impõe essas questões. Uma determinada estrutura dramatúrgica, que exaure e exime a palavra, faz nascer isso.Abaixo, ele conta mais detalhes sobre o trabalho assinado por Eduardo Moreira, Marcio Abreu e Paulo André, com elenco formado por Antonio Edson, Arildo de Barros, Beto Franco, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André, Simone Ordones e Teuda Bara. Como “Outros” começou a ser concebido? Foi durante o processo de “Nós” (espetáculo anterior do grupo, encenado no Rio pela primeira vez em 2016)?”Outros” é mesmo um desdobramento de ‘Nós”, mas não no sentido narrativo. Não há ali uma continuidade imediata da dramaturgia. Há questões em comum, é claro, principalmente sobre o modo que pensamos o teatro hoje. Essa é a maior relação. De qualquer maneira, porém, a experiência que tivemos em “Nós” não se esgotaria num único trabalho. Essa consequência foi algo natural, portanto.Quais as questões que mais sobressaem agora?A linguagem é um ponto de constante fricção em ambos os casos. Ao longo do processo criativo de “Outros”, realizamos várias performances individuais e coletivas nas ruas, levando para espaços públicos de Belo Horizonte e São Paulo ações de natureza privada. Isso foi importante para que entrássemos em contato com os sentidos que conceberiam a peça. Nosso texto foi construído nesse vaivém entre as ruas e a sala de ensaios. Leia mais de TeatroComo eram essas performances?Tudo o que planejamos nas ruas seguia regras precisas, com dramaturgias internas bem próprias. Não fizemos nada no improviso. Numa das vezes, por exemplo, o Eduardo Moreira (ator e dramaturgo) montou um varal no meio de um lugar movimentado e sugeriu que os passantes trocassem de roupa com ele. Em outra ação, um ator propunha que as pessoas perdessem sete minutos para uma conversa. Teve também a performance coletiva, num percurso em que todos nós carregávamos nossa mesa de trabalho por vias de Belo Horizonte e São Paulo, parando para estabelcer conversas sobre assuntos pré-determinados com o povo. As experiências em tais performances compõem o cerne de “Outros”?As performances não estão no corpo dramatúrgico, mas foram importantes para entendermos a forma que colocaríamos sobre a palavra. Paralelamente a isso, fizemos uma aprofundada pesquisa teórica sobre a alteridade e a poesia, enxergando a poesia num sentido mais amplo e filosófico, não apenas como um gênero literário. Como definiria o enredo de “Outros”?Da mesma maneira que em “Nós”, existe um enredo claro em cena, mas não do jeito clássico que faz o teatro burguês. A peça começa com um show que se desdobra em diálogos e ações diversas que se estruturam e se desestruturam o tempo inteiro. Montamos um campo polifônico onde os sentidos se estabelecem a partir de sonoridades que se atravessam, em situações reconhecíveis para a plateia. A presença da palavra é forte: num primeiro momento, ela é exaurida, usada ao extremo; na outra parte, torna-se praticamente rarefeita, numa composição de imagens que quase corteja a dança. Isso se conecta com o que viram e ouviram nas ruas?É claro que é um reflexo de hoje. A palavra não dá mais conta desse mundo em que vivemos. No caminho entre se articular e se desarticular de modo tão abrupto, a palavra chegou ao seu limite. Em todas as performances que fizemos, por exemplo, havia um mesmo acontecimento vigoroso: víamos que todas as pessoas tinham uma necessidade grande de ser ouvidas. Na ação coletiva, isso era muito evidente. Os atores geravam os diálogos com o público, mas daqui a pouco precisavam silenciar a fala e apenas ouvir. Foi comovente perceber isso. “Outros” é uma obra que dialoga como uma metáfora atual, portanto?Dos questionamentos que mais sobressaem no texto, ficam a necessidade de coexistência das diferenças e o esgotamento do modo de vida capitalista. Não dá mais para aceitarmos um lugar onde milhões morrem de fome e poucos usufruem de direitos que deveriam ser igualitários. A peça também se coloca como um mecanismo de imaginação para novas perspectivas de futuro a esse mundo que não se configura mais como algo possível. Mas não é a gente que impõe essas questões. Uma determinada estrutura dramatúrgica, que exaure e exime a palavra, faz nascer isso.Teatro Sesc Ginástico: Av. Graça Aranha 187, Centro — 2279-4027. Qua a
sáb, às 19h. Dom, às 18h. R$ 30 (quem levar 1kg de alimento paga meia). 100
minutos. Não recomendado para menores de 16 anos. Até 23 de dezembro.
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