Goleada? Copa? A Rússia que tinha mais o que fazer

MOSCOU, SAMARA E SÃO PETERSBURGO — Era mais um dia na vida dos moscovitas na estação de metrô Teatralnaya, a um quarteirão do Kremlin, onde se concentram torcedores do mundo inteiro para acompanhar a Copa do Mundo. Indiferentes à bola que rolava no estádio Lujniki na capital russa, no primeiro jogo do campeonato de futebol, os moradores locais passavam apressados, enquanto a dona da casa ainda ganhava de 1 a 0 da Arábia Saudita. O desinteresse se repetiu pelo resto do país de maneiras variadas.— Está acontecendo agora? Estava trabalhando. Não estou muito interessado — disse o jovem Anton, de 24 anos, sem dar muita conversa, carregando uma pasta de documentos, tentando se esgueirar entre os outros para não perder o segundo trem lotado.Do lado de fora, era longa a fila em frente ao teatro Operetta de Moscou para assistir o musical “Anna Karenina”, baseado no clássico de Leo Tolstoi. Os espectadores esperavam tranquilos pelo espetáculo, sem se preocupar com o futebol. Mais adiante, os bares da rua de pedestres Kamergerski que exibiam o jogo ao vivo em televisões até tinham público. Mas era sobretudo de estrangeiros. E não chegaram a lotar. Para não dizer que o jogo foi ignorado no centro de Moscou, um entregador de pizza, não resistiu e, com a mochila cheia de entregas por fazer nas costas, decidiu dar uma espiada na televisão do restaurante italiano, onde estrangeiros e alguns russos assistiam de pé. Na saída da estação de metrô Paveletskaya, o GLOBO perguntou a um guarda por que não estava acompanhando o jogo, o primeiro da Copa. — Estou, sim. Está aqui, olha. Está 1 a zero para nós — disse, abrindo um sorriso, enquanto mostrava a telinha do celular. Em São Petersburgo, a temperatura acima dos 20 graus já convidava os russos a sair de casa. Na beira do rio Neva, muitos praticavam atividades e relaxavam em parques. Entre eles, dois pescadores, que lançavam suas varas como que em alto mar. Acabaram trazendo de volta menos peixes do que o número de gols em Moscou. Na verdade, a dupla era de motoristas de ônibus turístico e nada fãs de futebol. Eles queriam apenas colocar em prática o passatempo favorito, que não inclui a bola. — Não sou fã de futebol, estou aqui porque pescar é um hobby. Meus amigos ficaram me mandando mensagem com o placar, mas não estou nem olhando o telefone — sorriu Vladimir Shiryaev, que foi interrompido com oponião semelhante de seu colega de pescaria: — Não vendemos peixe, venho só para relaxar. Também não sou fã de futebol. Aproveito que todos estão no estádio para ter mais calma aqui — brincou Karim Ziuvdinov. Ao longo do rio Neva, muitos policiais acompanhavam a movimentação no dia da abertura da Copa do Mundo. Muitos também não viram o jogo, mas não tinha opção. O fim de tarde com sol ameno permitiu também ensaios fotográficos próximos ao Hermitage. Na praça do museu, também havia movimentação durante o jogo da Rússia. Na Avenida Nevsky, após a vitória, a cantoria rolou em alguns bares. A mil quilômetros da capital, em Samara, cidade que receberá seis jogos do campeonato, muitos também não deram bola para a Rússia. Aproveitaram a tarde de quase verão para padrões locais, com calor de 20 graus, para caprichar nas fotos de pôr de sol e selfies variadas. Quem escolheu o passeio pela orla do Rio Volga ainda pode se divertir com bandinha formada por senhores russos. Podia até ser uma comemoração da vitória dos donos da casa. Mas não. O jogo ainda rolava e nenhuma TV por perto para saber o resultado.Um grupo de artistas de rua de Togliatti capitalizou com o evento. Nos arredores do parque que recebe o Fifa Fan Fest (o maior da Copa com capacidade para mais de 15 mil pessoas), eles se vestiram de personagens de época, transformaram-se em estátuas vivas e esperaram os trocados daqueles que decidiram fazer parte da festa do futebol. — Sabíamos que aqui teria muita gente, e sempre querem tirar foto com a gente. Poderíamos ganhar algum dinheiro aqui — disse Cristina Chenenko, num dos momentos que deixou de ser a estátua da dama antiga. O jogo terminou com uma inesperada goleada de 5 a 0 para a seleção russa, comemorado pelo repórter que comentava ao vivo o resultado da partida no canal estatal 1 como “um dia histórico, futebol, carnaval, o cosmos”. Mas até o jogo da abertura, os locais estavam totalmente céticos em relação ao desempenho da equipe nacional, que consideram a pior em décadas. Talvez por isso, tantos tenham ignorado o primeiro jogo.
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