Ficção: Hadaddy issues


Sexta-feira é dia de maldadde. Comício na Cinelândia, eu pensei em ir de vermelho, mas, se eu for, ele não vai me ver. Não coloco verde e amarelo porque nunca mais vesti uma camisa da Seleção Brasileira sem passar impune. Eu poderia até apanhar por causa disso também, mesmo lá, e não quero que seja assim que ele me veja pela primeira vez.

Minha analista diz que é projeção porque perdi meu pai muito cedo, e que ele representa a figura sensata, firme e protetora que eu sempre quis ter, mas eu culpo mesmo é a fala que é mansa, forte e que sai daquela boca grossa libanesa que combina tanto com sobrancelha marcada. E também as mãos, enormes, que quando gesticulam na TV me fazem imaginar o que não fariam segurando firme meus flancos sussurrando palavras de democracia nos meus ouvidos.

A primeira vez que o vi foi num domingo no Minhocão, centro de São Paulo. Ele estava inaugurando uma ciclovia justamente numa das minhas visitas à cidade. De calça justa, em cima de uma mountain bike verde, liderando um monte de gente indo de bicicleta logo atrás, sorrindo para os moradores dos prédios do Minhocão. Foi amor à primeira vista, e comprovado não apenas pela sinastria amorosa que fiz quando voltei para o Rio, que confirma seu sol em aquário caindo exatamente na minha lua no mesmo signo, como pela taróloga que prometeu a chegada de uma paixão que reacenderia minhas esperanças no amor após a barbárie do meu último relacionamento.

Mas se antes nossa relação só era proibida pela distância, hoje em dia é pela família também. Me sinto uma Julieta ao ter que esconder a camisa com seu rosto no almoço de domingo, ao ouvir minha mãe rebater qualquer comentário que eu faça sobre ele dizendo que não quer filha dela metida com socialista enquanto eu tento explicar em vão que o capitalismo já venceu, o Brasil não virou a Venezuela e meu lance com ele é amor. Indignados, meus tios falam de corrupção e eu falo que corrupção também é sonegar imposto da loja que a gente tem aqui em Copacabana. Meu avô, que acha um absurdo, defende o conceito de tradição e família mesmo tendo outra família que mora ali no início da Barra da Tijuca.

Ainda não conheço esses meus parentes, me pergunto se eles também têm um fraco por democracia e libaneses de sobrancelha grossa.

Escolho uma camisa branca pra me destacar sem parecer que saí de uma passeata pró-impeachment e vou pra Cinelândia de metrô porque ainda não estou 100% na mountain bike. Colo uns adesivos na altura do peito e no caminho até a Cardeal Arcoverde umas cinco pessoas esbravejam com dedos na minha cara. Aperto o passo e o fone com o áudio de um vídeo onde, com um violão no colo, ele olha para a câmera e canta aquela música do Bob Marley, “Don’t worry about a thing ‘cause every little thing is gonna be all right”. Tenho certeza que é amor, tenho certeza que é pra mim.

Paula Gicovate é escritora e roteirista. Seu primeiro romance, “Este é um livro sobre amor”, está sendo adaptado para o cinema.

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