Festival do Rio 2018: Terror brasileiro ganha pegada pop com 'Morto não fala'


RIO — Se o terror brasileiro ganhou fôlego com os premiados “As boas maneiras” e “O animal cordial”, dois destaques do Festival do Rio do ano passado, chegou a vez de o gênero apresentar um exemplar pipocão. Após estrear no Fantasia Film Festival, em Montreal, em julho, “Morto não fala” chegou nesta segunda-feira à Premiére Brasil escancarando sua pegada comercial ao longo de quase toda a sua projeção. É um desses filmes que não economizam em jumpscare e sangue. Nas conversas pós-sessão, a brincadeira entre os espectadores era eleger a cena que deu mais susto. Do olho no potencial, a equipe do filme aproveitou para anunciar o plano de expandir a trama numa série de televisão.

Primeiro longa de Dennison Ramalho, “Morto não fala” conta a história de Stênio (Daniel de Oliveira), plantonista da madrugada de um necrotério situado numa região violenta de São Paulo. Os corpos normalmente chegam com marcas de tiros e agressão — condição normalizada pelos colegas de trabalho do protagonista.

Stênio tem o poder de falar com os mortos, habilidade que o roteiro escrito por Ramalho e Claudia Jouvin — com revisão e supervisão dos veteranos George Moura e Jorge Furtado — apresenta nos primeiros minutos, sem alarde. O conflito surge quando Stênio ouve um defunto dizer que sua mulher Odete (Fabiula Nascimento) está tendo um caso com o padeiro Jaime (Marco Ricca). Vingativo, o protagonista encomenda o assassinato do homem a uma facção criminosa. O plano não vai como o esperado e Odete acaba morrendo também. Diretamente do mundo dos mortos, ela faz uma promessa: infernizar a vida de seu marido —agora viúvo, claro — e até dos dois filhos do (ex-)casal. Links Fest rio

A partir daí, a dica para o espectador é desligar o cérebro e aproveitar as quase duas horas de filme. Diretor de curtas de terror e roteirista de “Encarnação do demônio” (2008), de José Mojica Marins (o Zé do Caixão), Ramalho despeja no público todas influências possíveis do gênero, indo do sobrenatural ao slasher. A proposta funciona graças ao uso eficiente de sonoplastia, fotografia e um jogo de câmera calculado para criar tensão constante. No cerne do horror existe um drama familiar, mas em última instância “Morto não fala” é feito para divertir. Tanto que, conforme explicam os créditos finais, o filme não foi dirigido, e sim “cometido” por Dennison Ramalho — que, antes da sessão, engajou num tom mais sério ao falar de sua “pequena abominação”, como ele definiu a própria obra.

— Quando o jornalista Marco de Castro escreveu o conto que deu origem a “Morto não fala”, a gente não imaginava, nem nos nossos piores pesadelos, que a história se aproximaria tanto da realidade do Brasil. Quais são nossos medos? Indefinição econômica, cerceamento da liberdade, sexismo, homofobia, tortura, fanatismo religioso… Que dirá um apagão da economia cultural. Esses medos nos atordoam e prometem um longo inverno à frente. Espero que essa expectativa seja suplantada e nossos governantes, nossos irmãos e irmãs brasileiros, após esse ano de paixões violentas, possam voltar a se guiar pelo bom senso e pela solidariedade. E que o necrotério de Stênio volte a ser um lugar de marasmo para que, em vez de necropsiar jovens baleados, ele volte aos cochilos e às palavras cruzadas. O terror tem que ficar só aqui, no cinema — disse o cineasta.

Mais cedo, foi exibido o documentário “Meu nome é Daniel”, no qual o carioca Daniel Gonçalves mostra a sua jornada para tentar diagnosticar uma doença motora que ele carrega desde o nascimento. Até hoje, nenhum médico ou exame conseguiu identificar a condição. O filme surpreendeu pelo bom humor e leveza com que trata o tema, e o longa foi aplaudido de pé, tornando-se forte candidato ao Redentor — pelo menos por voto popular. Assim como a maior parte dos realizadores desta edição da Première Brasil, Daniel comentou o contexto político do país e exaltou a resistência de minorias.

— Mas há milhares de pessoas com deficiência, então não somos tão minoria assim — ressaltou. — Num momento em que estão jogando as diferenças para debaixo do tapete, é importante mostrar que, de onde a gente saiu, não vamos mais voltar.

O 20º Festival do Rio vai até o dia 11 de novembro.


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