Festival do Rio 2018: Cinema pernambucano reafirma posição de prestígio com 'Azougue Nazaré'


RIO – O cinema pernambucano reafirmou sua posição de prestígio no audiovisual brasileiro com “Azougue Nazaré”, que encerrou a competição da Première Brasil do 20º Festival do Rio, nesta quinta-feira. Possivelmente a ficção mais aplaudida da mostra, este é o longa de estreia de Tiago Melo, que havia trabalhado na produção de “Aquarius” (2016), de Kleber Mendonça Filho, e “Boi neon” (2015), de Gabriel Mascaro.

A vigorosa narrativa, difícil de ser definida, passeia por elementos de terror, comédia e musical — gêneros que sustentam uma trama sobre intolerância (e liberdade) religiosa. “Azougue Nazaré” não é um filme convencional, mas, ao mesmo tempo, é fácil de ser digerido. Exibido na mostra paralela Bright Future, em Roterdã, poderia respeitosamente estar na mostra principal do festival holandês, afirmou a revista “Hollywood Reporter”. Links Festival do Rio

A trama é dividida, principalmente, em dois núcleos: o do maracatu e o evangélico. No primeiro habita Catita (Valmir do Côco), um homem dotado de um vozeirão capaz de proclamar versos improvisados nas rodas musicais. Ele é grande, mas submisso à mulher Darlene (Joana Gatis), que sofre com a ausência constante do marido. Ela condena o maracatu, uma “obra do diabo”, porque acredita no discurso do pastor (interpretado por Mestre Barachinha).

Para o pastor, os dois grupos não podem coexistir. “É verdade que você não gosta de Jesus?”, pergunta o pastor para Catita numa cena. “Não tenho nada contra ele”, responde o homem, incerto.

Ator não profissional, Valmir do Côco atribui espontaneidade cômica aos diálogos, ao mesmo tempo em que carrega fragilidade na postura e no olhar. No fim do filme, ele despeja um monólogo que, de tão catártico, beira a brutalidade.

Um terceiro núcleo, secundário, é responsável pelas sequências mais surrealistas e misteriosas. Este é frequentado por caboclos que rondam canaviais e que podem estar por trás do sumiço de habitantes locais. Eles surgem (e somem) por correntes elétricas.Movimentando-se com rapidez alucinante, capturam transeuntes desprevenidos. A mídia acredita que no comando desse ritual está um pai de santo, morador de uma casa isolada. Como consequência, cria-se na cidade uma atmosfera de paranoia que rapidamente descamba em perseguição religiosa. Tiago Melo trata a aparição dessas figuras com a gravidade do horror, filmando-os como vultos em pesadelos dos moradores.

“Azougue Nazaré” fechou a Première Brasil depois de passar por algumas mostras internacionais, incluindo o Festival de Mumbai e o Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires, de onde saiu com o prêmio de melhor direção. Cientes disso, Valmir do Côco e Mestre Barachinha, que estavam presentes na sessão, brindaram a plateia com uma performance musical privada. Eles cantaram uma música que dizia:

“Neste filme Azougue tem um elenco de respeito / Humilde, simples, direito / Que trabalhou muito bem / Por sinal o filme vem brilhando nos festivais / E onde vejo um cartaz do Azougue eu fico lendo / E quem assiste sai dizendo / Que o filme é bom demais.”

Mais cedo, foi exibida a ficção “A sombra do pai”, de Gabriela Amaral Almeida, sobre uma menina que se vê na temida função de cuidar da casa após a morte da mãe e a depressão do pai. O filme já havia sido projetado no Festival de Brasília, em setembro.

Os vencedores do troféu Redentor da Première Brasil serão conhecidos no próximo domingo.


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