Ex-presas políticas vão ao Festival de Brasília e causam comoção


BRASÍLIA — As reações a “Torre das Donzelas”, filme que abriu, neste sábado, a mostra competitiva do 51º Festival de Brasília, surpreenderam até quem frequenta o evento há anos.A sessão foi aplaudida de pé por cinco minutos, no início e no fim. Choros emocionados vinham da plateia — onde, aliás, estavam pelo menos oito ex-presas políticas que, na ditadura, viveram na tal torre do título, apelido dado ao conjunto de celas femininas do Presídio Tiradentes, em São Paulo. Essas mulheres são personagens centrais do documentário dirigido por Susanna Lira, que conta ainda com depoimentos inéditos e reveladores de Dilma Rousseff. “Torre das Donzelas” causou comoção porque apresenta relatos perturbadores sobre a tortura vivida diariamente dentro do local. Mas, numa reviravolta surpreendente, também explica como as prisioneiras transformaram o confinamento num espaço de resistência, sororidade e sobrevivência. Ainda neste domingo, as “donzelas” eram recebidas com aplausos por onde passassem.— Entendo o filme como um testemunho, que é diferente de memória, porque há a escuta. Eu falo, vocês ouvem — diz Rita Sipahi, uma das entrevistadas do filme, hoje conselheira da Comissão de Anistia. Na primeira metade do filme, os relatos são desconcertantes. “Parecia um campo de concentração”, diz uma das entrevistadas ao descrever a prisão. Uma delas diz ter visto uma colega pesar 37 quilos.Dilma lembra dos termos machistas usados pelos torturadores, que obrigavam as mulheres a se despir. “Nudez é algo pior para a mulher do que para o homem, porque o torturador é homem”, diz a ex-presidente.— Comecei a colher os relatos há sete anos como forma de resgatar a nossa memória. Hoje, eles são um alerta — afirmou Susanna Lira, fazendo um paralelo com o Brasil de hoje.Documentarista especializada em contar histórias de mulheres vítimas de opressão e violência — é dela obras como “Mataram nossos filhos” (2016), “Damas do samba” (2015) e “Legítima defesa” (2017) —, Susanna optou por um recurso incomum para extrair as histórias no documentário.Pediu que as militantes — que à época eram, em sua maioria, integrantes de organizações de combate à ditadura — desenhassem a Torre a partir de suas lembranças. Segundo a diretora, nenhuma ilustração ficou igual à outra. Construiu-se, então, uma instalação num estúdio de São Paulo que misturava todas as versões. O resultado é uma cenografia que lembra “Dogville” (2003), de Lars von Trier, citado pela diretora como referência.A emoção evidenciada no rosto das mulheres ao pisar no espaço pela primeira vez é de partir o coração. É ali que ocorrem todas as entrevistas — com exceção de Dilma, que na época precisou se defender no processo de impeachment.— A Dilma tem uma profunda relação com a gente — afirma Rita. — Somos a família dela. Quando ela precisa, chama a gente.Ana Miranda, outra ex-presa e hoje ativista de direitos humanos, elogia a capacidade de Dilma falar de maneira objetiva e análitica — habilidade que, segundo ela, ainda é desconhecida por parte de brasileiros que acompanha apenas a sua atuação política e pública.”A prisão tenta tirar duas coisas de você: o espaço e o tempo. Então foi isso o que fizemos: tomamos controle do espaço e do tempo”, afirma a ex-presidente numa cena do documentário, arrancando aplausos e gritos de apoio da plateia.Mas como fazer isso? Ora, lendo livros, praticando esportes e exercícios, estabelecendo rotina, trocando conhecimento e deixando o local limpo — quase tudo à revelia dos militares. Algumas, inclusive, tiveram sua formação política na cadeia. É aí que o filme deixa o tom sombrio de lado para tornar-se uma celebração da sobrevivência, resistência e união feminina. As mulheres passaram até se vestir bem dentro da prisão — algo aparentemente “fútil”, como define uma delas no longa, mas que no contexto do aprisionamento gera momentos de alegria.— Há o processo inicial da dor, da tortura, mas também há o acolhimento entre elas. Temos que fazer isso hoje também, porque a alegria é uma forma de resistência — afirma Susanna, sem segurar as lágrimas.— Contruímos na Torre um espaço de liberdade — acrescenta Marlene Soccas, uma ex-presa que também marcou presença no Festival de Brasília. — Fomos e seremos sempre a favor da liberdade. Na cela havia um cartaz com gaivotas voando. Uma freira que nos visitou comentou: “Como deve ser triste estar presa diante deste painel”. O que ela não sabe é que meu corpo estava preso, mas minha cabeça voava o mundo inteiro.Num dos momentos finais do documentário, Dilma resume, em duas palavras, o resultado da experiência: “Nós vencemos.”No primeiro dia de competição, também foi exibida a ficção “Los silencios”, de Beatriz Seigner. O filme já havia sido projetado em maio, na mostra Quinzena dos Realizadores, em Cannes.
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