'Eu quero independência', diz idoso abrigado em praça há mais de dois meses, na PB

Sessenta famílias estão vivendo em praça após reintegração de posse cumprida pela Polícia Federal, em julho de 2018. Famílias se alojaram em Praça da Juventude, no Conjunto Vieira Diniz
Dani Fechine/G1
Naquele início de manhã seu Severino Rufino estava sentado em um sofá velho, mas talvez o único, com as pernas cruzadas e ouvindo a conversa. Vez ou outra interferia. Parecia não querer falar, mas quando abria a boca, esbravejava indignação. “Eu quero independência”, foi só o que pediu, querendo esconder os olhos marejados. Setenta anos carregados de sol a chuva, mas terminados na quadra da Praça da Juventude, no Conjunto Vieira Diniz, no bairro das Indústrias, em João Pessoa, junto com outras 60 famílias, depois que uma reintegração de posse foi executada pela Polícia Federal há mais de dois meses.
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Dois filhos já crescidos, mas com a escola interrompida. Por conta da situação incerta, não têm como se deslocar até as escolas onde já estudavam. “Você acha que uma família num lugar desse está bem? Bem mal. Frio, chuva, arriscando a vida com isso aqui tudo aberto. A situação é essa aqui”, destacou Severino.
A água do local foi cortada desde o dia 7 de setembro. A informação que receberam foi que a bomba de água quebrou e ainda não foi consertada. Precisam andar cerca de 300 metros para lavar louças, roupas e tomar banho. Utilizam a água que sai de uma torneira em um terreno. “O que fazer é levar a vida”, lamenta Severino.
Severino Rufino e Rinaldo Ribeiro, na Praça da Juventude
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De vez em quando, vem na cabeça a imagem dos policiais chegando ainda no início da manhã. Perdendo o teto e, algumas pessoas, perdendo até os móveis que ficaram para trás. “Eu tô com 70 anos e nunca vi uma coisa daquela. Perdemos os ‘troços’. Isso é uma injustiça. Cadê os Direitos Humanos?”, se questiona.
Rinaldo Ribeiro, de 39 anos, carrega no rosto as marcas do sol. Ao lado de seu Severino, pede uma foto dos “trabalhadores”, sentados no sofá à beira da quadra. Diz que é catador de reciclagem e que, só por isso, ainda consegue comprar algum alimento. Ele sai de manhã e de tarde, consegue somar alguns trocados e fazer uma refeição em um fogão coletivo. “Cada um dá R$ 10 quando o gás seca”, explica.
A esposa dele, Ana Lúcia, já não aguenta mais a rotina cansativa. Enfrenta fome e frio. “Não temos como chegar para as crianças e dizer que vai melhorar”, lamenta. Ela conta que uma empresa que abriu recentemente na área não aceitou nenhum dos homens da praça como trabalhadores. “É como se a gente fosse um monte de bandido, com a ficha suja, não arruma emprego. A gente está discriminado”, diz. “Aqui ninguém tem independência, privacidade”.
Famílias compartilham fogão e alimentos recebidos por doação
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‘Estamos como indigente’
A solução é unânime: moradia. Ao chegar na praça, a imagem assusta. O que era uma quadra, agora é teto. Em todos os cantos há lençóis e barracas, cada um no seu quadrado, transformando o chão antes usado para brincar, agora para dormir. O banheiro da quadra se transformou também em casa, mas nunca em lar. Uma mulher, grávida, vive a sua gestação ali.
As casas parecem celas. Divisórias improvisadas com lençóis, colchões no chão, fogão improvisado, às vezes até à lenha. No chão, os poucos alimentos que receberam de doações. Faltariam as grades, se a quadra não fosse cercada por arames.
Embaixo dos lençóis às vezes se encontra uma TV, às vezes um fogão, mas nunca um aconchego. As crianças andam descalças, de um lado a outro, e identificam a casa pela cor do lençol que a mãe usa como porta.
“A solução aqui é a moradia. E emprego também. A gente não tem condições de pagar um aluguel. Se for arrumar emprego, não dão”, comenta Rinaldo. “Nós ‘está’ numa situação que tem que dividir os alimentos. Se levar para um posto de saúde, não querem atender ‘nós’ porque não tem endereço. Estamos como indigente, como um cachorro. O primeiro que ‘nós queria’ era um lugar pra gente viver, cada um no seu canto, tranquilo, cada um ser por si”, apela seu Severino.
Praça da Juventude tem 54 crianças
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Ação de reintegração de posse
De acordo com os moradores, a equipe de policiais chegou no Conjunto Habitacional Vista do Verde I e II no dia 12 de julho por volta das 5h. O mandado judicial foi expedido pela 3ª Vara Federal de João Pessoa. Algumas ruas foram bloqueadas no entorno do condomínio e um helicóptero também deu apoio à ação.
Além da Polícia Federal e Polícia Militar, participaram da ação oficiais da Justiça Federal, Caixa Econômica Federal, Corpo de Bombeiros, Samu, Semob-JP, Secretaria Municipal de Habitação Semhab), Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (Sedurb), Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social.
A ação foi determinada após uma decisão liminar não ter sido cumprida no dia 22 de maio e também, segundo a Justiça Federal, depois de tentativas de acordos e de ações de sensibilização, tais como visitas e reuniões com os ocupantes do residencial.
Das 239 famílias que foram retiradas do local, apenas 15 foram beneficiadas pela Prefeitura de João Pessoa, através do programa Minha Casa Minha Vida. De acordo com a secretária de Habitação da capital, Sachenka Bandeira, alguns critérios foram avaliados para atender as famílias.
Crianças dividem pão na Praça da Juventude, em João Pessoa
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‘A gente tá vulnerável a qualquer coisa’
Denise Carla tem 32 anos e tomou para si a responsabilidade de liderar as 60 famílias que estão abrigadas na praça. Depois da reintegração de posse, as famílias que não tinham como se abrigar em casa de familiares, foram para a Praça da Juventude, escolhida porque fica mais perto das creches da criança. Ainda assim, algumas delas estão sem frequentar a escola.
Assim que aconteceu a reintegração, os móveis ficaram em um ginásio aguardando retirada pelas famílias. Hoje, a maioria deles estão na Associação dos Moradores do Conjunto Vieira Diniz.
O que levaram para a praça foi pouco. Mas tem pessoas que já perderam muito desse pouco que ficou. Quando chove, segundo Denise, a quadra alaga. Faz frio. E as crianças precisam se abrigar em barracas mais quentes. O banho é feito na rua, de roupa mesmo. “Aliás, banho não, porque ninguém toma banho de roupa”, enfatizou Denise. Alguns preferem esperar a sorte de conseguir um balde com água durante o dia.
Casa de Ângela é coberta por lonas e lençol, na Praça da Juventude, em João Pessoa
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Denise tem quatro filhos que vivem com ela na quadra da Praça da Juventude. Dois estudam pela manhã e dois no turno da tarde. Mas quando chega a noite e qualquer policial aparece para alguma ação, todos se assustam. “A gente tá vulnerável a qualquer coisa, porque é tudo aberto”, alerta Denise.
A água pra beber, atualmente, está sendo administrada com os 60 garrafões de águas que foram doados. Alimento também vem de doação, mas no momento eles não têm recebido com frequência. No café da manhã, quando tem dinheiro, comem pão ou cuscuz. Quando não, aguardam até conseguir algo pra comer.
Ângela Maria da Conceição tem 58 anos e também não esperava que nessa fase da vida estaria em busca de um lar. “A cada dia que passa as coisas vão ficando pior”, conta. Quando aparece alguém que precisa de uma faxina, vai lá e faz. Quando não, fica na praça esperando a vida mudar a linha do destino. Deixou para trás todos os móveis. Não deu tempo recolher nenhum e até a cama que hoje dorme foi doada. “Vejo o dia amanhecer. Aqui a gente não dorme”, lamenta.
Ação ajuizada pelo MPPB
O Ministério Público da Paraíba (MPPB) ajuizou uma ação civil pública contra a Prefeitura de João Pessoa no dia 25 de julho, para que o município seja obrigado a promover o imediato abrigamento das 239 famílias que foram despejadas.
No entanto, em setembro, a Justiça decidiu não dar prosseguimento à ação civil pública, por não ter competência para julgar a questão. “Fui notificado que o juiz da Infância declinou da competência de decidir sobre a causa, argumentando que era competência da Fazenda Pública, porque há uma ação de reintegração de posse”, explicou o promotor João Arlindo. O MPPB recorreu e está aguardando alguma definição.
A prefeitura, de acordo com o secretário de Desenvolvimento Social, Eduardo Pedrosa, entrou com uma ação de reintegração de posse da área ocupada. No entanto, ele está estabelecendo um diálogo entre os moradores e o gabinete do prefeito para ver a possibilidade de liberar auxílio aluguel para as famílias. Ainda não há previsão para resolver a situação.
Roseane Maria da Silva cuida sozinha dos cinco filhos em praça de João Pessoa
Dani Fechine/G1
‘Hoje não tem nem pão pra eu dar a ele’
Naquela quarta-feira, João (nome fictício) só tomou café porque ainda não desmamou. Os outros irmãos estavam sentados no chão enquanto a mãe contava o quanto era difícil cuidar de cinco filhos sozinha e sem teto. Eram 8h45 e nenhum deles havia colocado sequer um pedaço de pão na boca. “Hoje não tem nem pão pra eu dar a ele, só o café mesmo”, lamentou Roseane Maria, de 33 anos. Ela se preparava para lavar roupa em um terreno distante da praça. No relógio, marcava 9h30 quando alguém chegou e doou pão para as crianças tomarem café.
No dia anterior, foram para a escola sem almoçar. Às vezes, às 14h ainda não têm almoço. Mas Roseane não tem escolha. A mãe mora na cidade de Dona Inês e a filha não tem condições de ir para o município com os cinco filhos. A praça foi a única saída. O único sustento que ainda consegue para comprar alimento é o benefício do Bolsa Família.

Beatriz tem 25 anos, um filho no colo e outro na barriga
Divulgação/PMPB
Se divide com os cinco filhos em dois colchões, um deles encontrado no lixo. Um dos pequenos foi diagnosticado com asma e precisa ser tratado com urgência. No momento, a mãe administra apenas um xarope.
Quem também começa a construir a vida debaixo de um lençol é Beatriz Pinheiro. Ela só tem 25 anos, mas carrega no colo um bebê de um ano e, na barriga, já nutre uma nova vida há quatro meses. Quando a reintegração de posse aconteceu, ela já estava grávida. “Só em pensar tem hora que eu choro. Esse fez um ano e um mês hoje. Quando soube que estava grávida, me desesperei”, conta.
Ainda não começou o pré-natal, nem sabe se o mundo vai ganhar uma menina ou um menino. Denise conseguiu uma ultrassom para a amiga e, só assim, ela vai poder sentir-se grávida com saúde. Beatriz, o marido e o filho de um ano dividem o mesmo colchão. Mas na casa improvisada falta leite e fralda para a criança. “Ele não mama mais, hoje tomou leite”, diz.
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