Estudante entrevistado pelo GLOBO é alvo de racismo em carta

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RIO – “Já viram ataque racista por carta?”. O questionamento do estudante de jornalismo Leonne Gabriel dá início a uma publicação feita pelo próprio no Facebook que já tem quase duas mil reações e foi compartilhada quase mil vezes. No post, ele, que é aluno da PUC, conta que recebeu, nesta segunda-feira, uma carta com ofensas raciais, entregue na universidade. As frases “Cara, com um cabelo desses queria o que?” e “Ser preto nenhum problema, mas esse cabelo?” estavam escritas em uma página de jornal que trazia uma reportagem de O GLOBO, em que Leonne é um dos entrevistados e fala sobre a realidade de alunos bolsistas, veiculada em 21 de fevereiro. A correspondência foi enviada pelos Correios e está assinada e com endereço do remetente.

— Esperava repercussões positivas após a reportagem, acreditava que poderia ser algo que levasse a sociedade a refletir sobre questões dos negros bolsistas periféricos na universidade. Nunca imaginei receber uma carta com um conteúdo desse, com ataque racista. O corpo negro ainda é apedrejado 130 anos após o fim da escravidão – diz Leonne, de 21 anos, acrescentando que o assusta o fato de alguém ter calculado o envio da carta, colocando-a nos Correiros e endereçando a ele, na universidade.

Leonne recebeu a correspondência por volta das 11h desta segunda-feira e ficou pensasdo por horas sobre o que fazer. Resolveu compartilhar com seus amigos no Facebook para saber sobre suas opiniões. Às 20h, fez a publicação. E sentiu-se tranquilo ao ver tamanha repercussão.

— Queria ver se só eu estava tendo aquela percepção, se estava vendo coisa além do que tinha. Mas as pessoas viram quão racista essa pessoa foi e reverberaram isso nas redes. O agressor não é um problema só meu, mas da sociedade brasileira. post leonne gabriel

Quase quatro horas na delegacia

Além de expor o caso na internet, Leonne afirma que resolveu tomar uma medida legal e foi à uma delegacia nesta terça-feira registrar o caso como injúria racial. O policial que o atendeu, segundo o rapaz, durante quase quatro horas tentou desestimulá-lo a registrar o ocorrido, dizendo que não daria em nada.

Ao contar o que havia acontecido ao policial, ele teria recebido como resposta: “Mas você é negro?”. As dificuldades, conta o estudante, não teriam parado por aí. Ele ouviu ainda que os policiais têm crimes mais graves para resolver.

— Ele disse que não era injúria racial e muito menos racismo o que aconteceu. Era um bullying. E eu questionei como poderia deixar mais uma vez um caso desses ser esquecido? Até quando vamos ficar colocando máscaras para reconhecer o que é de fato? — questiona Leonne.

Segundo o estudante, a amiga que o acompanhava na delegacia chegou a questionar o policial sobre uma possível negligência da ocorrência. Ao fazer isso, segundo Leonne, o agente teria a ameaçado dizendo que poderia dar voz de prisão por desacato. O caso, enfim, foi registrado como injúria.

Agora, o estudante diz que vai entrar em contato com advogados para decidir o que poderá fazer. Apesar dos problemas na Delegacia, Leonne conta que recebeu inúmeras mensagens de apoio e solidariedade pelas redes sociais. E diz que não vai deixar o caso morrer.

A Polícia Civil ainda não comentou o caso.


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