Enzo Traverso: "Quando a esquerda falha, os líderes demagogos aparecem à procura de um bode expiatório"


8 perguntas para Traverso1. O que é melancolia de esquerda?A política não é feita exclusivamente de projetos, ideias e teorias. Organizações e movimentos não existem sem paixão, utopia e fortes expectativas. É impossível mudar o mundo sem mobilizar paixões e sentimentos. A melancolia é um sentimento que sempre pertenceu à cultura da esquerda. Emergiu com as ideias socialistas, depois da Revolução Francesa, no começo do século XIX. Meu livro, Melancolia de esquerda, não é um diagnóstico da situação atual da esquerda ou uma terapia. É o esboço de uma história intelectual.2. A esquerda sempre foi melancólica?No fim do século XX, repentinamente, a esquerda revelou uma melancolia que sempre a acompanhou. É uma melancolia sustentada por suas derrotas frequentes, como a derrota da Comuna de Paris, os muitos massacres e guerras, as ditaduras latino-americanas. A história da esquerda é uma história de reveses, fracassos e derrotas. No século XX, a esquerda ainda conseguia superar suas derrotas, sublimá-las dialeticamente, porque a cultura esquerdista era formatada por uma visão teleológica da história. Nós perdíamos as batalhas, mas a história nos pertencia e venceríamos. O socialismo não era só um objetivo. Era concebido como o desenlace inelutável da história. Era tudo ilusão, claro, mas uma ilusão que deu à esquerda uma força extraordinária. Após o colapso do socialismo real e os fracassos das revoluções do século XX, o dispositivo teleológico que permitia à esquerda superar suas derrotas parou de funcionar, e a melancolia se tornou visível e compreensível. Nos anos 60 ou 70 não seria possível um livro com o título Melancolia de esquerda.3.A esquerda brasileira costuma brincar com a semelhança das palavras “luto” e “luta” em português. A melancolia, o luto, é só fonte de resignação ou também pode inspirar a luta política?A proximidade dessas palavras em português — “luto” e “luta” — é a melhor resposta para essa pergunta. É preciso fazer um trabalho de luto, no sentido psicanalítico mesmo, de elaborar fracassos, derrotas, ilusões e erros — grandes erros. Elaborar o luto é também recuperar a memória dos camaradas que perdemos. Alguma nostalgia é aceitável. Nesta era neoliberal, de competição e individualismo, a memória de um tempo em que as pessoas acreditavam ser possível mudar o mundo por meio da ação coletiva pode ser um sentimento frutífero. Mas não podemos deixar de responder aos novos desafios, como a crise ecológica, o aumento da desigualdade e a eleição de Jair Bolsonaro. Melancolia de esquerda não tem nada a ver com resignação, recuo ou passividade; é combinação de memória crítica e ação no presente.4. Que movimentos foram ou são bem-sucedidos em usar a melancolia para a ação política?Um deles é o das Mães da Praça de Maio, na Argentina. Foi um movimento poderoso de luta contra a ditadura. Outro exemplo foi o movimento gay na época da epidemia da aids. Eles estavam de luto, mas não recuaram. Organizaram passeatas e exigiram políticas públicas para a saúde. Há exemplos atuais, como o Black Lives Matter, nos Estados Unidos, um movimento organizado por jovens negros enlutados pela violência policial contra a juventude negra. enzo5. O senhor chama de “pós-fascistas” os movimentos de extrema-direita atuais. O que é “pós-fascismo”?O conceito de pós-fascismo se refere à ascensão de uma nova extrema-direita na Europa Ocidental e Central. Não é um conceito que pode ser facilmente transposto para os Estados Unidos ou o Brasil. Os pós-fascistas são uma direita que, embora tenha rompido com o fascismo clássico, ainda mantém uma matriz fascista comum. São nacionalistas, xenófobos, islamofóbicos e populistas. Ocupam um espaço intermediário entre o fascismo clássico e uma nova forma de direita que ainda está em formação.6. Bolsonaro é pós-fascista?Bolsonaro pode ser considerado pós-fascista no sentido cronológico do termo, porque ele é posterior ao fascismo clássico e às ditaduras latino-americanas. Se comparados a Bolsonaro, líderes pós-fascistas europeus como Marine Le Pen (França), Matteo Salvini (Itália) e Viktor Orbán (Hungria) são damas e cavalheiros, modelos de virtude democrática. Bolsonaro se aproxima do fascismo no sentido mais literal da palavra. Mas é um fascista que venceu eleições democráticas. O Brasil não é um país fascista e Bolsonaro sofrerá forte resistência. O caso dele tem peculiaridades. Na Europa, a extrema-direita é influente nas eleições e se beneficia de sua oposição ao neoliberalismo da União Europeia. Bolsonaro combina características fascistas com um neoliberalismo selvagem. Ele adotou uma posição forte contra o Estado de Bem-Estar Social e a intervenção estatal na economia.7. Como defini-lo, então?É mais seguro compará-lo a Trump. Ambos incorporam a mentalidade fascista, os impulsos e a linguagem fascistas. Nos EUA, há um grande debate na imprensa sobre se Trump é ou não fascista. Ele até pode ser fascista, mas os EUA, assim como o Brasil, não são. A pergunta é: o que será dos dois países depois de vários anos de Trump e Bolsonaro, especialmente se forem reeleitos? Um líder fascista num país democrático é uma contradição que inevitavelmente encontra uma solução: ou o líder fascista é derrotado, ou a democracia é destruída.8. Quais são seus conselhos para a esquerda brasileira?A esquerda tem de se mobilizar e defender as instituições e conquistas democráticas. A esquerda brasileira precisa entender que sua derrota é resultado de fracassos de estratégia e de projetos políticos. A única maneira de lutar efetivamente contra as novas ameaças fascistas é mudar de estratégia. Bolsonaro venceu também por causa da decepção de grande parte das classes mais baixas com a política. O PT não ofereceu uma solução. Quando, em tempos de crise política, econômica e social, a esquerda falha, os líderes demagogos aparecem à procura de um bode expiatório.
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