Entre exemplos de 'nós contra eles', Rakitic guia a Croácia antes da final

MOSCOU – Ivan Rakitic é o meia completo do Barcelona, que balança a rede numa final de Liga dos Campeões e se candidata a preencher o vácuo deixado por Iniesta. Ivan Rakitic é também, ao lado de Luka Modric, o centro criativo do meio-campo da Croácia, enxergada como zebra na final da Copa do Mundo. Na dicotomia entre leste e oeste europeu, Rakitic é visto como um talento natural, digno dos maiores feitos, quando empilha taças na Espanha. Mas causa estranheza ao chegar tão longe com o uniforme croata. O roteiro deste Mundial, o primeiro recebido pela Rússia, tem insistido em derrubar ideias pré-concebidas sobre o papel reservado a cada um. Para a Croácia de Rakitic, o ato final é virar a mesa continental justamente contra a França, uma das maiores potências da Europa Ocidental. E dona do favoritismo.LEIA MAIS: Bolão: Tudo o que você precisa saber sobre o Bélgica x InglaterraCarlos Eduardo Mansur: Planejamento é importante, mas finalistas não contaram apenas com eleCulinária russa oferece iguarias que merecem a atenção do turistaOs desafios de ser drag queen na Rússia contra uma política de estadoOs jogadores croatas têm insistido, desde a vitória sobre a Inglaterra, em contestar o papel subalterno que julgam ter sido atribuído à seleção neste Mundial. Apontar o dedo para os críticos é, a bem da verdade, uma surrada estratégia de motivação. Mas também reflete, neste caso, um discurso de autoexaltação que tem ganhado força na Croácia, muitas vezes através de cânticos nacionalistas e gritos anti-Sérvia.As tensões políticas nos Bálcãs fazem parte do mosaico do leste europeu. Explicam movimentos migratórios — como o dos pais de Rakitic, que deram ele à luz na Suíça —, turbulências econômicas e fissuras sociais. Não foi o acaso que empurrou o leste europeu para a falta de protagonismo após a dissolução da URSS e o fim da Cortina de Ferro nos anos 90. O futebol também sofre: faltam infraestrutura, organização e transparência para que o talento se configure mais frequentemente em força coletiva. Os líderes da seleção saem cedo para o exterior. Rakitic, então, nem passou pelo futebol croata: começou no suíço Basel, depois rumou para o alemão Schalke e por fim alcançou o estrelato na Espanha.LEIA TAMBÉM: História croata mostra complexidade além do embate entre neonazistas e oprimidos Martin Fernandez: A final que a Copa mereceDiário de Moscou, capítulo 27: Bélgica e Inglaterra ainda têm um pouco mais a provar— Este jogo não diz respeito apenas aos 23 jogadores, ao técnico, a nosso estafe. Haverá 4,5 milhões de jogadores no campo carregando uns aos outros — disse Rakitic, em referência ao tamanho da população croata. — Sabemos que é o maior jogo de nossas vidas. Quando você coloca a camisa croata, você se transforma. Vira outra pessoa. Pago qualquer preço pela minha Croácia.O nacionalismo e o “menosprezo” são temáticas que grudaram no discurso croata, e a Europa rica — representada na final pela França — é o principal alvo. Rakitic e Modric, referências técnicas e mentais do time, cutucaram o oba-oba da imprensa inglesa antes da semifinal, lembrando que jogos se ganham em campo. O técnico Zlatko Dalic reclamou que não só seus jogadores, mas também os treinadores croatas são vistos com desconfiança na porção ocidental da Europa.— Não somos respeitados por lá, apesar de os técnicos croatas terem alcançado grandes resultados. Na Europa, só olham para quem tem fama — atacou Dalic. — Chegamos à semifinal cercados por comentários negativos. “Por que jogam deste ou daquele jeito?”. Quem se importa? Estamos na final.Rakitic, contudo, tem mais a oferecer do que a oratória do “nós contra eles”, do “leste contra oeste”, ou qualquer outro dualismo. Seu desempenho tático é prova: percorre todas as faixas do campo, ataca e marca, com um estilo que agrega mais do que separa. Fluente em cinco línguas, segundo perfil publicado no jornal “Guardian”, Rakitic se adaptou a complementar seu estilo ao de Modric: rivais na Espanha, um por Real e outro por Barcelona, somam forças e principalmente talentos na seleção.O melhor exemplo de que a lógica binária pode ser superada foi dado pelo próprio Rakitic ontem, em entrevista coletiva. O tenista sérvio Novak Djokovic foi criticado por políticos de seu país após manifestar torcida pela Croácia na reta final da Copa do Mundo. Sérvios e croatas, como se sabe, tiveram seus atritos na fragmentação da Iugoslávia. Perguntado sobre o recado de Djokovic, Rakitic fez questão de devolver a gentileza.— Tenho que tirar meu chapéu para ele. Torço por ele em Wimbledon, queria vê-lo jogar a final no domingo, seria fantástico se nós dois tivéssemos um grande dia. Somos seres humanos acima de tudo, temos que deixar a história para trás. Para mim, Djokovic é um fantástico atleta e uma fantástica pessoa. Recentemente nos encontramos em Miami. Desejo toda a sorte do mundo a ele e espero que ambos celebremos no domingo.
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