Entenda: O que é o 'Triplo A' citado por Bolsonaro e por que ele não tem a ver com o Acordo de Paris



RIO – Ao afirmar que pediu ao atual governo para que o Brasil desistisse de sediar a Conferência do Clima da ONU — a COP 25 — em novembro de 2019, o presidente eleito, Jair Bolsonaro, mencionou o “Triplo A”. — Houve participação minha nessa decisão. Ao nosso futuro ministro (Ernesto Araújo, das Relações Exteriores) eu recomendei que evitasse a realização desse evento aqui no Brasil. Até porque está em jogo o Triplo A nesse acordo. O que é o Triplo A? É uma grande faixa que pega do Andes, a Amazônia e Atlântico, de 136 milhões de hectares, que poderá fazer com que percamos a nossa soberania nessa área — disse Bolsonaro, no último dia 28 de novembro. Durante a campanha presidencial, ele citou o tema algumas vezes. Na verdade, Bolsonaro fala sobre o “Triplo A” desde, pelo menos, setembro de 2015, três meses antes do Acordo de Paris. E não há, no texto do acordo, sequer uma linha que trate do assunto. O presidente eleito alega que o “Triplo A” foi discutido nos bastidores do Acordo de Paris, e que estaria implícito no tratado. Não há, porém, qualquer diplomata ou chefe de estado que confirme isso.O que é o ‘Triplo A’?Essa teoria chamada de “Triplo A” ou “Corredor AAA”, proposta por um ambientalista colombiano há alguns anos, consistiria na formação de um grande corredor ecológico abrangendo 135 milhões de hectares de floresta tropical, dos Andes ao Atlântico, passando pela Amazônia — daí os três “A” do nome.A ideia é que ao longo desse imenso corredor, que passaria por oito países da América do Sul, as unidades de conservação e os fragmentos florestais não fossem mais separados por interferência humana. O conceito remonta aos anos 90 e tem como objetivo permitir o livre deslocamento de animais, a dispersão de sementes e o aumento da cobertura vegetal.De onde surgiu a ideia?A ideia do “Triplo A” é creditada ao colombiano Martín von Hildebrand, fundador da Fundação Gaia Amazonas, sediada em Bogotá, capital do país. Em 2015, durante um encontro com o então presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, em um sobrevoo pela parte da Amazônia que pertence ao paí, Hildebrand indicou no mapa as diversas áreas protegidas e sugeriu a possibilidade de um corredor ecológico que ajudasse a proteger aquele ecossistema. — O presidente se interessou, e toda a ideia deslanchou — contou Hildebrand à veículos locais na época.Como se tratava de um projeto necessariamente transnacional, a intenção do ambientalista, na ocasião, era propor isso ao países vizinhos. No entanto, nunca chegou nada oficial à chancelaria brasileira.De acordo com a proposta original de Hildebrand, o grande corredor iria dos Andes, incluindo o norte do rio Marañón no Peru, até o Brasil, passando por toda a Amazônia equatoriana, colombiana, venezuelana, a porção amazônica de Guiana, Guiana Francesa e Suriname. Todos estes comporiam o mosaico que uniria áreas protegidas e terras indígenas. Seria, no total, 309 áreas protegidas (957.649 km2) e 1.199 terras indígenas (1.223.997 km2) ligadas pelo imenso corredor. Em solo brasileiro, o Corredor AAA passaria pelos estados do Amazonas, Roraima e Amapá.Essa proposta, apesar de a conectividade entre ecossistemas ser entendida como um tema muito importante mundo afora, tem problemas de ordem diplomática e de formatação, segundo especialistas. Embora possa de fato colaborar para a proteção ambiental na região, essa proposta é vista como pouco factível e de difícil implementação. Em especial, porque assumir um compromisso internacional sobre um determinado território implicaria chegar a um consenso entre governos nacionais, locais e suas populações. Isso é extremamente improvável. Políticos identificados mais à direita, como Bolsonaro, alegam que tal projeto ameaçaria a soberania do país e o controle da Região Amazônica. No caso do presidente eleito brasileiro, ele também costuma usar a ideia do “AAA” para atacar defensores ambientais mesmo que não estejam relacionadas ao projeto colombiano, como o Acordo de Paris.Quem é o autor da proposta?Nascido nos Estados Unidos e naturalizado colombiano, Hildebrand tem de 75 anos e se tornou um renomado ambientalista e defensor dos povos indígenas desde que começou a viajar pelos rios da selva da Colômbia, na década de 70, e contribuir para a demarcação de terras indígenas e áreas de conservação. São quase cinco décadas em que se dedica à conservação da floresta. Esteve por trás da criação e ampliação do parque nacional Chiribiquete, de 1,3 milhão de hectares, localizado nos departamentos de Caquetá e Guaviare. E se tornou internacionalmente conhecido quando ganhou, em 1999, o prêmio da fundação sueca Right Livelihood Award e concede o “Nobel alternativo” dos direitos humanos.
Leia a notícia completa em O Globo Entenda: O que é o ‘Triplo A’ citado por Bolsonaro e por que ele não tem a ver com o Acordo de Paris

O que você pensa sobre isso?