Desaparecimento de jornalista saudita é risco para genro de Donald Trump

WASHINGTON – Para o presidente americano Donald Trump, que fez da Arábia Saudita o centro de sua política para o Oriente Médio, o possível assassinato de um jornalista na Turquia é uma crise diplomática iminente. Para seu genro, Jared Kushner, é uma questão bem mais pessoal. Mais do que qualquer pessoa no governo Trump, Kushner cultivou o relacionamento com o líder saudita, o príncipe Mohammed bin Salman — cuja família pode estar envolvida no desaparecimento do jornalista, Jamal Khashoggi —, o que tornou Salman um aliado-chave no mundo árabe e o principal interlocutor da Casa Branca no reino.Kushner cortejou politicamente o príncipeKushner tomou o partido de bin Salman, de 33 anos, quando o príncipe manobrava politicamente para se tornar o herdeiro de seu pai; jantou com ele em Washington e Riad, a capital saudita; vendeu armas aos militares do país no valor de US$ 110 bilhões (R$ 413 bilhões); e até alimentou expectativas de o príncipe aprovaria seu plano de paz entre israelenses e palestinos. Ainda não está claro o que aconteceu com o jornalista, que morava nos EUA e era colunista do “Washington Post”, mas alegações de que foi morto por ordem da corte real saudita levantaram sérias dúvidas sobre a aposta de Kushner no príncipe.Bin Salman pode não ser o reformista capaz de correr riscos tão calorosamente abraçado pela família Trump, mas um governante temerário, ainda “verde”, cujos poderes foram aumentados, segundo seus críticos, pelos laços com os Trump. Assim, ele se sentiria confiante para pesar a mão em ações tanto em seu país quanto no exterior. Plano sobre jornalista foi interceptadoAs agências de inteligência americanas interceptaram comunicações de autoridades sauditas debatendo um plano para atrair Khashoggi de volta à Arábia Saudita e prendê-lo, diz um ex-funcionário sênior de Washington, que falou sob condição de anonimato. Segundo ele, é inconcebível que tal plano fosse levado adiante sem a aprovação do príncipe.kushner Se por um lado é possível que o plano envolvesse o assassinato de Khashoggi, por outro também faria sentido que a trama para atraí-lo, ou sequestrá-lo, tenha dado errado e resultado em sua morte. Os líderes sauditas, incluindo o príncipe, insistem que Khashoggi saiu do consulado em Istambul sozinho e que não sabem o que aconteceu com ele depois. Mas se ficar claro que bin Salman ordenou o assassinato ou estava ligado a ele de alguma forma, haverá um forte clamor no Capitólio. Empresários americanos ficarão embaraçados — muitos deles estão viajando a Riad para uma conferência onde o príncipe deve discursar. E isso vai pôr Kushner, que já foi dono de um jornal, numa posição muito difícil. Pressão americana e turcaDepois de uma semana em silêncio, a Casa Branca está aumentando a pressão sobre os sauditas. Na terça-feira, segundo Washington, Kushner e John Bolton, conselheiro de Seguraça Nacional, falaram por telefone com o príncipe sobre o desaparecimento de Khashoggi. O secretário de Estado Mike Pompeo também lhe telefonou.— Nas duas ligações, eles pediram mais detalhes sobre o caso, e também que o governo saudita fosse transparente na investigação — disse a assessora de imprensa da Casa Branca, Sarah Sanders. A Turquia também aumentou a pressão. Na quarta-feira, autoridades turcas e um jornal próximo ao governo identificaram 15 agentes sauditas que teriam viajado a Istambul na semana passada atrás de Khashoggi.Um dos homens da lista publicada no jornal é especialista em autópsias na agência de Segurança Interna da Arábia Saudita, dizem as autoridades. Outro aparentemente é um tenente na Força Aérea saudita. Todos os agentes trabalhavam para o governo de bin Salman.Carta a bin Salman do “Post”Kushner não quis comentar sobre sua relação com o príncipe. Mas uma fonte próxima disse que ele enviou a bin Salman juma carta do editor do “Washington Post” expressando preocupação com o destino de Khashoggi e pedindo ajuda.Funcionários do governo em Washington dizem que ainda há muitas perguntas sem resposta para que se tire qualquer conclusão sobre o que aconteceu em Istambul. Trump disse achar provável que os sauditas tenham matado Khashoggi e afirmou que ficaria furioso se o assassinato fosse confirmado.— Eu não ficaria nada contente — afirmou à Fox News. — Creio que, até agora, parece que aconteceu. Mas o presidente se mostrou relutante quanto a punir a Arábia Saudita com cortes na venda de armas, como alguns em Washington sugeriram.— Isso nos prejudicaria. Temos [que pensar nos] empregos, há muito acontecendo nos EUA. Parceria mal das pernasMesmo antes caso de Khashoggi, a parceria de Kushner com bin Salman já não ia muito bem. A Arábia Saudita rejeitou os pedidos de Trump para acabar com uma disputa com o vizinho Qatar. Suas compras de armas americanas acabaram sendo menores que os US$ 110 bilhões anunciados por Kushner, em parte pela resistência do Congresso, em parte porque o preço sempre foi meio exagerado. O pai do príncipe, o rei Salman, descartou apoio à proposta de paz de Kushner depois que Trump decidiu reconhecer Jerusalém como capital de Israel, uma decisão que alienou os palestinos.E, o que mais gerou críticas entre os deputados e senadores dos EUA, a Arábia Saudita continuou a matar civis em bombardeios no Iêmen, numa polêmica intervenção na guerra civil do país comandada pelo príncipe.Informes sobre a possível e dramática morte de Khashoggi só fizeram aumentar as críticas, tanto de democratas quanto de republicanos no Congresso, que há muito tempo desconfiam do radicalismo religioso dos sauditas e de seus laços com o terrorismo.
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