Crítica: Novo romance de Toni Morrison não é seu melhor, mas merece leitura

RIO — “Deus ajude essa criança” e o décimo primeiro romance da vencedora do Nobel Toni Morrison e uma obra um tanto quanto medíocre se comparada a seus trabalhos anteriores, especialmente a “Song of Solomon” (1977) e a “O olho mais azul” (1970). Mas um romance nota seis de Morrison ainda é melhor do que quase tudo na prateleira de lançamentos, e merece ser lido.Publicado nos Estados Unidos em 2015, o livro conta a história de uma menina que nasce retinta mesmo sendo filha de negros de pele clara. A vergonha e a repulsa que a mãe sente pelo bebê se traduzem em uma educação para a rejeição: Bride é ensinada a chamar a própria mãe de Mel, nunca de mãe, e sonha em levar uma surra só para receber algum contato físico por parte da genitora.Antes mesmo de ouvir qualquer agressão racista na rua, Bride já havia escutado todas as ofensas possíveis em sua própria casa, na forma de “alertas pedagógicos” brutais. Na infância, o único episódio de maior proximidade familiar foi quando a menina denunciou uma professora que teria abusado das crianças. Por seu comportamento exemplar no tribunal, a mãe aceita pegá-la na mão e a leva para colocar brincos pela primeira vez.LEIA MAIS: Em carta aberta, professoras da UFRJ acusam Flip de promover ‘Arraiá da Branquidade’Colson Whitehead: ‘Estou sempre perdendo e ganhando leitores com os meus livros’Para Mel, Bride seria uma espécie de regressão no sentido de resgatar uma negritude que a mestiçagem foi atenuando ao longo das gerações, embora ela insista que em sua família a pele clara tenha sido uma constante. O pretume da menina revelaria um mal que pode correr escondido em qualquer um de nós.A ideia de regressão também é exposta na comparação da filha mamando em seu peito com um filhote de macaco. Mais adiante na história, a regressão assume outra forma e, ao ser abandonada pelo namorado e levar uma surra de uma antiga inimiga, Bride começa a regredir a uma forma infantil, perdendo pelos pubianos, seios e o tão batalhado furo na orelha.Dividido em quatro partes, cada uma delas com subcapítulos narrados por diferentes personagens e alguns deles por um narrador de onisciência seletiva, o livro aborda temáticas recorrentes da literatura de Morrison: negritude, racismo, relações familiares, infância, trauma, abusos sexuais.A infância é apresentada como uma fase de sujeição e de internalização da violência do mundo; como a época em que estamos à mercê da bondade e da maldade alheias. No entanto, se em “O olho mais azul” os abusos e violências contra as crianças chocam pela crueza, mas também pela beleza e originalidade com que são descritos e analisados, aqui tudo tende ao simplismo e à falta de elaboração estética.Erros de preparaçãoComo a crítica americana está sempre obcecada por “personagens complexos”, que “pareçam gente”, as resenhas negativas recebidas pelo romance por lá seguiram essa linha. De fato, os personagens são um tanto quanto tipificados e estereotipados. Para saber quem é o namorado de Bride, basta pensar em qualquer homem lindo, misterioso e emocionalmente indisponível que no fim descobriremos que tem um ótimo motivo para isso.Em um personagem assim, nota-se que o sangue de Mr. Darcy foi rareando pelo caminho, e deu nisso. A melhor amiga da protagonista é literalmente uma loira de dread que se comporta como uma loira de dread. Temos a tia hippie com ensinamentos de vida edificantes, mas que também tem seus próprios defeitos pincelados.A mim incomodou a forma como a sexualidade da protagonista e o efeito de sua beleza no todo da sociedade são descritos. Lembra o modo como Régine Deforges retrata sua personagem naquela série barata que lemos na adolescência, “A Bicicleta Azul” (1981), e me arrisco a dizer que soou objetificado.A cena em que uma multidão admira os seis da personagem, que tirou a camiseta para salvar uma mulher das chamas, é o ápice desse exagero. Se tinha alguma função oculta na narrativa ou um descolamento que não consegui identificar, fica como falha da resenhista.Como não dá para ser mais desagradável do que isso, aproveito para registrar o descuido da preparação do texto pela Companhia das Letras. Muitos anglicismos sintáticos e alguns erros de tradução que o leitor consegue pegar sem nem sequer cotejar com o original. Era de se esperar que uma laureada ao Nobel sendo traduzida com uma distância temporal considerável recebesse melhor tratamento.* Juliana Cunha é jornalista e mestranda da USPSERVIÇO“Deus ajude essa criança”Autora: Toni Morrison. Editora: Companhia das Letras. Tradução: José Rubens Siqueira. Preço: R$ 44,90. Cotação: Regular.
Leia a notícia completa em O Globo Crítica: Novo romance de Toni Morrison não é seu melhor, mas merece leitura

O que você pensa sobre isso?