Corretor diz que presenciou entrega de malas de dinheiro a irmão de Beto Richa


O empresário e corretor Paulo Victor Junqueira da Cunha relatou, em depoimento ao Ministério Público do Paraná (MP-PR), que presenciou dois repasses de dinheiro vivo – cerca de R$ 300 mil, no total – ao ex-secretário Pepe Richa, irmão do ex-governador Beto Richa (PSDB)
. O montante corresponderia a propina paga como contrapartida a um decreto assinado pelo governador, que alterou o zoneamento ambiental na região metropolitana de Curitiba e valorizou um terreno de 300 mil metros quadrados. No total, Richa teria recebido R$ 5 milhões, entre dinheiro, doações oficiais de campanha e participações em negócios imobiliários. Veja o que dizem os acusados.
O depoimento faz parte de um procedimento investigatório criminal (PIC), instaurado em junho pelo MP-PR para apurar os
crimes de corrupção ativa e passiva. O decreto em questão é o de número 11.660, assinado por Richa em julho de 2014 e que alterou o zoneamento da Área de Proteção Ambiental (APA) do Iraí, permitindo a exploração de atividades de serviços em um terreno que pertencia à Transportadora Gralha Azul (GTA). Adquirido em 2010, por R$ 1,4 milhão (R$ 2, o metro quadrado), o imóvel foi vendido quatro anos depois por quase R$ 30 milhões (R$ 100, o metro quadrado).
Segundo as investigações, o terreno pertencia ao ex-prefeito de Quatro Barras, Loreno Tolardo (ex-PSD), e ao irmão dele, Luís Tolardo. Em depoimento, Junqueira da Cunha relatou que, após a assinatura do decreto, acompanhou Luís Tolardo ao restaurante Babilônia, no bairro Cabral, em Curitiba, onde se encontraram com Pepe Richa. O corretor disse que presenciou a entrega de R$ 200 mil ao então secretário de Infraestrutura e Logística. O dinheiro estava em uma bolsa e, conforme o relato, Tolardo “ainda brincou com o secretário, [perguntando] se ele iria conferir o dinheiro”.

O outro repasse teria sido feito ainda antes da alteração na APA do Iraí. Segundo Junqueira da Cunha, “os irmãos Tolardo disseram que teriam que dar dinheiro ao governador Beto Richa para que ele assinasse o decreto”. Na ocasião, os empresários já negociavam a venda do terreno a uma empresa.
Parte do pagamento teria sido feito por outro empresário, Luiz Bonacin Filho, apontado como sócio dos Tolardo. Segundo Junqueira da Cunha, após passar em uma agência do Bradesco, no Centro de Curitiba, Bonacin Filho colocou R$ 100 mil em uma maleta, que havia acabado comprar de um camelô. “Então chegou o irmão do governador, senhor José Richa Filho [o Pepe] e pegou a maleta com o dinheiro”. O depoente afirmou ter visto os maços de cédulas, porque ficou com R$ 15 mil, que Bonacin Filho lhe devia, por causa da venda de um trator.
Doação
Segundo o depoimento, a assinatura do decreto da APA do Iraí também estaria condicionada a doação à campanha de reeleição de Richa ao governo do Paraná, em 2014. Na prestação de contas do ex-governador, aparecem quatro doações oficiais de empresas do grupo GTA, somando R$ 800 mil. Apesar de ter descrito as entregas de dinheiro a Pepe, Junqueira da Cunha declarou que “não sabe, exatamente, se o governador Beto Richa chegou a receber o dinheiro”.
A investigação
A investigação começou a partir de uma sindicância, instaurada a partir do depoimento de Junqueira da Cunha. O processo foi encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), porque, na ocasião, Richa ainda era governador do estado – e detinha foro especial. Assim que Richa renunciou ao cargo para concorrer ao Senado, o ministro Jorge Mussi, do STF, remeteu a sindicância à Promotoria de Campina Grande do Sul. No despacho, o magistrado observou que a “valorização expressiva [do terreno] possivelmente tenha decorrido da perspectiva de alteração do zoneamento”, por meio do decreto. Mussi destacou ainda que “o Ministério Público Federal aponta que há inequívocos indícios de que pelo menos os valores doados à campanha constituíram retribuição ilícita pela alteração do zoneamento da APA do Iraí”.

Assim que o processo foi devolvido ao MP-PR, os autos foram remetidos ao Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que aprofunda as investigações.
Outro lado
Beto e Pepe Richa declararam, por meio de sua assessoria, que vão se manifestar apenas no processo.
A Gazeta do Povo entrou em contato com o advogado de Luiz Bonacin Filho, mas o empresário não se manifestou.
O advogado Ricardo Menon Esperidião, que representa a GTA e os irmãos Tolardo, emitiu uma nota em que diz que a empresa “jamais participou de negócios duvidosos e/ou obscuros, seja porque respeita a lei, seja porque isto é necessário para ter o efetivo controle administrativo e financeiro do seu patrimônio, evitando desta forma eventuais prejuízos para si e para a sociedade”.
A defesa disse que a TGA acabou por fazer doações eleitorais a Richa por “vislumbrar” que as propostas do tucano eram as melhores para o governo do estado. Segundo o advogado, essa visão da empresa foi corroborada pelo fato de o Paraná ter sido “um dos poucos estados que apresentou contas positivas no final da gestão”.
“São levianas e unicamente decorrente de perseguição política as acusações do Ministério Público de que a TGA realizou doação eleitoral ao ex-governador Beto Richa em troca de benefício de alteração da Lei de zoneamento em local onde possuía imóvel”, acrescentou Espiridião.
O advogado da TGA ressaltou ainda que a alteração do zoneamento foi precedida “de pareceres favoráveis do Instituto das Águas, SANEPAR, CAT do Iraí, COMEC, Câmara Municipal de Quatro Barras, Conselho Gestor dos Mananciais, audiências públicas e Procuradoria Geral do Estado, sendo, por último validado por meio de decreto”.
“Portanto, a TGA repudia as falácias atreladas ao seu nome e de seus sócios, colocando-se à disposição para dirimir quaisquer fatos e dúvidas que pairarem sobre o assunto”, finaliza a nota.

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