Como caprichos do mar determinaram a cara dos maguezais brasileiros

O biólogo Gustavo Mori, professor do Instituto de Biociências da Unesp, chegara há pouco à cidade de Bragança — um município paraense de 100 mil habitantes e 2 mil quilômetros quadrados — quando teve de conter um arrepio de espanto (reação pouco compreensível ante ao calor daquela região equatorial). O ano era 2008 e Mori conta que fora ao Pará para estudar um tema que, então, começava a fasciná-lo: o mangue. Uma faixa de vegetação entre a terra e o mar, banhado por água doce e salgada, o manguezal é um bioma lamacento e, a olhos desavisados, monótono. Não os de Bragança. Esses, Mori descobriu, eram exuberantes já à primeira vista: “Eu jamais encontrara árvores como aquelas”, lembrou Mori, rindo da própria reação, uma década depois. “Eram gigantescas.Tinham 30, 40 metros de altura, e se espalhavam pelo rio que cortava a cidade. Chegava a ser assustador.”Na época, Mori era um estudante de mestrado e sua grande ambição era aliar estudos de genética a projetos de conservação. Seu projeto poderia dar pistas de como os manguezais evoluíram ao longo dos milênios, e do que é preciso fazer para preservá-los. A viagem para Bragança aconteceu por um golpe de sorte: sua co-orientadora desenvolvia projetos de pesquisa na cidade. Mori, que nasceu no Paraná e estudou em São Paulo, só visitara os mangues da porção sul do país: “Onde as árvores mais altas chegam a 10 metros de altura”, diz. Seus colegas em Bragança já estavam acostumados à vegetação agigantada da região. Solitário em seu espanto, Mori precisou guardar a surpresa para si.Uma década de pesquisas depois, os estudos de Mori e seus colegas mostraram que a diferença entre aquelas árvores do norte e do sul não se restringiam às dimensões. As análises genéticas de Mori sustentam que, mesmo quando pertencem à mesma espécie, as plantas que nascem no norte do país são drasticamente diferentes daquelas que crescem no sul. Tão diferentes que uma não sobreviveria caso fosse plantada no mesmo ambiente que a outra. O trabalho permitiu aos pesquisadores entender como as espécies de plantas de mangue se propagaram pela costa brasileira. O estudo também tem impactos na forma como são planejados projetos de reflorestamento dessas áreas.Para um recém-chegado, o mangue parece uma sucessão de mesmices. Em todo o mundo, o bioma é formado por dez espécies diferentes de plantas cuja ocorrência varia. No Brasil, há cinco delas. Três do gênero Rizophora (aquelas árvores de raízes arqueadas), e duas do gênero Aviccenia: “No Brasil, não há lugares em que as cinco espécies coexistam”, diz a professora Anete Pereira de Souza, do Instituto de Biologia da Unicamp, e orientadora de doutorado de Mori. É difícil distinguir uma planta da outra. As raízes aéreas das árvores são o traço distintivo do bioma que, de resto, desaponta o observador comum: “Até porque, está tudo na lama”, diz Anete.Simpatizar com o mangue não é para todos. Essa falta de graça aparente deixou o bioma relegado a uma posição desconfortável: “Há menos gente estudando o mangue que a Mata Atlântica, por exemplo”, diz Anete. E menos gente pensando em como protegê-lo.Desde 2008, a equipe de Mori, Anete e da bióloga Patrícia Mara Francisco monta um quebra-cabeças da diversidade genética dos mangues do país. Para fazer isso, coletaram espécimes espalhados por 15 pontos ao longo da costa. Descobriram que osmangues nacionais podem ser divididos em dois grupos: os que existem acima e os que existem abaixo do Rio Grande do Norte.O estudo exigiu a análise de trechos do DNA das plantas que os cientistas chamam de microssatélites: “É o mesmo tipo de técnica usada em testes de paternidade de humanos”, afirma Mori. Eles são uma espécie de gagueira molecular: em meio à sequência de letras que compõem o DNA dos seres-vivos, ocorrem repetições sem utilidade aparente. Elas são transmitidas ao longo das gerações, e sua ocorrência pode revelar laços de parentesco. Mori e Patrícia analisaram 40 microssatélites: “O que a gente descobriu é que as plantas ao norte do Rio Grande do Norte formam uma comunidade, que compartilha semelhanças genéticas. E que essa população é muito diferente, em termos genéticos, da que existe ao sul do Rio Grande do Norte”, conta Mori. Essas diferenças, segundo os pesquisadores, são resultados de um capricho do mar. A vegetação dos manguezais teve de se adaptar a condições de sobrevivência ingratas. São poucas as espécies capazes de resistir em áreas alagadiças, plantadas sobre solo pobre em oxigênio. Suas adaptações incluíram o desenvolvimento de sementes e frutos — que os cientistas chamam de propágulos — capazes de sobreviver por mais de um ano submersos. São as correntes marítimas que carregam essas sementes e garantem a propagação das espécies de mangue. São também as correntes marítimas que ajudam a definir qual o perfil genético dos manguezais.O que acontece, na altura do Rio Grande do Norte, é uma bifurcação. De lá, parte a corrente do Brasil, que segue para o sul do país. Parte também a corrente do Norte do Brasil, que corre na direção oposta. Cada qual carrega sua cota de sementes para um lado e para o outro. O resultado disso é que os manguezais ao norte e ao sul não compartilham material genético entre si. Ao longo de milhares de anos, essas populações evoluíram de maneira independente. E se especializaram para sobreviver cada qual em seu ambiente: “As árvores do Pará, por exemplo, demoram mais a crescer, e têm mecanismos para sobreviver a períodos de seca”, afirma Mori. Já as árvores do sul e sudeste são mais afoitas: crescem mais rapidamente, e estão mais aptas a sobreviver em climas mais frios. Se uma planta do norte do país for plantada no sul, ela vai morrer.Essa compreensão é importante porque pode subsidiar projetos de reflorestamento dessas regiões. O Brasil é o país com a segunda maior área de manguezais do mundo. Perde somente para a Indonésia. Mas trata-se de um patrimônio sob ameaça: metade da área original já foi perdida. Perder mangue significa perder diversidade marítima. O bioma é um grande berçário para espécies de peixes e crustáceos. Inclusive espécies de valor comercial, como o robalo: “Nas regiões em que o mangue desapareceu, caiu também a diversidade de peixes”, diz Anete.O mangue que restou no Brasil vive pressionado pelo avanço imobiliário. Preocupa também o avanço do nível do mar, provocado pelo aquecimento global: “Nós ainda não sabemos para onde essa vegetação vai migrar, quando o mar subir. Se é que vai conseguir migrar”, diz Mori.Hoje, o professor fala do tema com a verve de um apaixonado pelo seu objeto de estudo. Descobriu que a aparente monotonia dos mangues esconde mistérios: “Por que as mesmas espécies se repetem ao redor de todo o mundo?”, pergunta Mori, animado. “E, será que essas variações genéticas, que a gente descobriu, foram influenciadas pela seleção natural?”. Desde que começou a estudá-los, os mangues só lhe trouxeram mais dúvidas: “Mas é essa a graça da ciência, né? Uma pergunta sempre leva a outra”.
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