Como cães farejadores podem se tornar arma no combate à malária em países pobres


Freya, cachorrinha Springer Spaniel, que foi treinada para sentir o cheiro de malária (Foto: Medical Detection Dogs via BBC News Brasil)

 

 

Cães farejadores estão sendo treinados para ajudar a diagnosticar malária em locais com dificuldade de acesso a sistema de saúde, com bons índices de sucesso. A ideia, segundo os cientistas, é conseguir análises rápidas em um processo simples e barato – sem necessidade de exames de sangue.

O trabalho foi apresentado nesta segunda-feira no congresso anual da Sociedade Americana de Medicina e Higiene Tropical, em Nova Orleans, nos Estados Unidos.

“As principais vantagens desse método com cães é que os testes são muito rápidos, não requerem coleta de sangue e podem funcionar facilmente em áreas remotas”, afirmou à BBC News Brasil o entomologista Steve Lindsay, especialista em Saúde Pública, professor da Universidade de Durham, da Inglaterra, e principal autor do trabalho.

A pesquisa foi financiada pela Fundação Bill e Melinda Gates, instituição filantrópica criada pelo fundador da Microsoft para fomentar projetos de melhoria à qualidade de vida, principalmente em soluções de saúde e combate à pobreza.

Participam do projeto, além da Universidade de Durham, a instituição Medical Detection Dogs, a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, a Universidade de Dundee, também britânica, e o Programa Nacional de Controle da Malária da Gâmbia, país da África Ocidental.

Cães podem farejar pessoas infectadas com malária

A nova técnica ainda está em fase de estudos. “Mas, em princípio, demonstramos que os cães podem ser treinados para detectar pessoas infectadas com a malária pelo seu odor”, diz Lindsay.

Os cientistas acreditam que, com o método não invasivo de análise, seja possível diagnosticar um maior número de pessoas, ajudando assim a impedir a disseminação da malária e ampliando o tratamento precoce da doença.

“Os cães são treinados com uma meia de uma criança com forte infecção por malária”, explica o pesquisador.

“Durante o treinamento, o animal é treinado a recuperar a meia e a tarefa progressivamente vai se tornando mais difícil, escondendo a meia da vista do cão. Gradualmente, os animais começam a distinguir meias infectadas e não infectadas.”

Conforme ele contou à reportagem, dois cães – um mestiço labrador e golden retriever chamado Lexi, e Sally, da raça labrador – foram treinados para fazer isso. “Um levou 19 semanas para estar treinado, outro, 24”, diz.

No processo, eles utilizaram meias de náilon que foram vestidas por crianças e adolescentes aparentemente saudáveis, com idades entre 5 e 14 anos, todos moradores na região do rio Gâmbia.

As mesmas crianças também foram submetidas a um exame de sangue convencional para detecção do parasita da malária, o Plasmodium falciparum.

O olfato super sensível de Freya pode ajudar a realizar o primeiro teste de malária não invasivo (Foto: Medical Detection Dogs via BBC News Brasil)

 

No total, foram 175 amostras. Trinta crianças foram diagnosticadas como portadoras do parasita, 145, não.

Os cientistas lembram que o método, pela facilidade, possibilita verdadeiros mutirões de análises, já que exames de sangue acabam sendo inviáveis em grandes populações remotas – pelas dificuldades de coleta e transporte do material.

“Os cães identificaram corretamente 70% das amostras de meias utilizadas por crianças infectadas com malária e 90% de crianças não infectadas”, conta Lindsay. Pelos padrões da Organização Mundial de Saúde (OMS), os diagnósticos de malária precisam ter uma precisão superior a 75% em testes com amostras acima de 200 parasitas por microlitro.

“Considerando apenas essa proporção, nossos cães obtiveram 82% de êxito”, diz o cientista. “Portanto, acima do padrão.”

Ele ressalta, contudo, que novos testes precisam ser feitos, com uma amostragem maior. “Estamos bem adiantados no projeto. Calculo que dentro de 3 a 5 anos poderemos ter o método aplicado como um programa”, planeja.

Cão é bem-vindo pelas comunidades, diz o estudo

Neste caso da pesquisa, as amostras foram transportadas para a Inglaterra, onde o procedimento foi feito. Mas numa situação em que a técnica seja implantada como política de saúde pública, animais treinados podem ser levados para as comunidades, facilitando, assim, os testes.

Por isso, em paralelo ao estudo principal, pesquisadores fizeram um teste com um cão farejador não treinado, que foi levado até vilarejos da Gâmbia. O objetivo era testar sua aceitabilidade pelas populações locais. Segundo os pesquisadores, a maioria absoluta das pessoas foi favorável ao método.

De acordo com a psicóloga Claire Guest, cofundadora e diretora da instituição Medical Detection Dogs, o uso de cães neste tipo de trabalho é algo que deve ser “muito utilizado no futuro”.

“Já registramos resultados positivos no treinamento de cães para diversas doenças, incluindo câncer e diabetes. Eles podem perceber alterações de açúcar pelo odor”, afirma. “Esta foi a primeira vez que treinamos os animais para detectar infecção parasitária. Estamos muito satisfeitos com os resultados iniciais.”

Ela vislumbra possibilidade de utilizar método semelhante para diversas outras doenças tropicais, como a leishmaniose e a tripanossomíase, sobretudo em países com dificuldades de diagnóstico.

O estudo mostrou que os cachorros podem ser treinados para sentir cheiro de malária em meias de crianças infectadas. A imagem mostra pedaços das meias em um laboratório (Foto: Medical Detection Dogs via BBC News Brasil)

 

Identificar o parasita da malária tem sido um desafio

A malária é uma doença causada por protozoários parasitários, os Plasmodium falciparum, transmitidos para pessoas por meio de picadas de mosquitos do tipo anopheles.

Os sintomas mais comuns são febre, calafrios, fadiga, vômitos e dores de cabeça – no princípio, facilmente confundidos com uma gripe forte. Casos graves podem evoluir com convulsões, icterícia e até coma.

Em geral, os sintomas começam a se manifestar de 10 a 25 dias depois da picada do inseto.

É uma doença de clima equatorial, com regiões endêmicas na América, na África – o continente contabiliza mais de 85% das mortes por malária no mundo – e na Ásia.

No Brasil, 99% dos registros ocorrem na região amazônica. No ano passado, foram registrados 194 mil casos da doença – mas, no país, a principal forma da doença é a vivax, mais branda e com menos risco de vida do que a versão africana.

O grande desafio tem sido identificar o parasita em pessoas que ainda não apresentam sintomas. Estas precisam ser tratadas para que a disseminação da doença seja evitada.

De acordo com o último relatório mundial sobre a doença divulgado pela OMS, em 2016 houve 216 milhões de casos de malária – um número 5 milhões maior do que no ano anterior. Cerca de 450 mil pessoas morrem, por ano, em consequência da doença.

 

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