Comissão de frente da Mocidade usou tecnologia com 2 milhões de volts

RIO — Durante as duas noites de desfiles na Marquês de Sapucaí, muitos foram os momentos que chamaram a atenção do público. Na apresentação da Mocidade Independente, no domingo, a comissão de frente que mostrava a fúria do deus hindu Indra, divindade do trovão e das tempestades, foi o ponto alto da verde e branco de Padre Miguel. Soltando raios de verdade graças à tecnologia de uma bobina de Tesla (invenção do cientista Nikola Tesla, no final do século XIX, capaz de produzir descargas elétricas de alta voltagem), a exibição impressionou quem assistia ao desfile.

Sapucaí 12/02

Por trás de todo o encantamento e magia despertados, uma explicação técnica. O programa foi desenvolvido durante seis meses pela D2G Tecnologia, empresa gaúcha especializada em projetos especiais tecnológicos para ações de marketing e eventos. Diego dos Santos, um dos engenheiros responsáveis pelo projeto e que estava dentro da alegoria comandando o equipamento, explica que o mecanismo funciona a partir do armazenamento de uma grande quantidade de energia dentro de uma bobina capaz de transformar a tensão de 220 volts em algo próximo a 2 milhões de volts. Diego revela que o custo girou em torno de R$100 mil.

— Foi um grande desafio. Nós construímos uma bobina nova, que tivesse uma grande potência mas que fosse totalmente controlável, garantindo a segurança dos bailarinos. É uma das maiores do mundo. Eu estava dentro do carro e outro engenheiro me passava comandos via rádio. O resto da equipe estava na Avenida dando o suporte necessário — conta Diego, que trabalhou com os sócios Diego Trindade e Grégory Gusberti, todos formados no Rio Grande do Sul.

Segundo o engenheiro, o dispositivo foi ligado a um gerador que estava dentro da alegoria presente na comissão de frente. A bobina, de 2,7 metros de altura e tubo medindo 40 cm de diâmetro, ficou em cima da cabine do motorista, armazenou a energia e liberou toda a tensão em um curto espaço de tempo. A alta voltagem fez com o que o ar ao redor do bailarino fosse ionizado, possibilitando que a energia escapasse pelas partes pontiagudas da fantasia em forma de raios. Foram duas sequências a cada coreografia completa.

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SEGURANÇA EM PRIMEIRO LUGAR

O bailarino Saulo Finelon, de 39 anos, foi o responsável pela coreografia junto com Jorge Teixeira. Ele conta que o trabalho de pesquisa foi bastante extenso, para garantir a segurança do bailarino Bruno Fernandes, que representou o deus Indra, e também a beleza plástica da comissão. A roupa de Bruno era toda confeccionada com um material metálico muito fino, além da “gaiola” utilizada para proteger a cabeça e os pés.

— Fizemos muitas pesquisas sobre como colocar essa nossa ideia em prática. Queríamos algo bonito plasticamente também. Como havia a possibilidade da escola desfilar sob a luz do dia, pensamos em algo que funcionasse também no sol — conta o coreógrafo Saulo, acrescentando que os ensaios começaram em outubro de 2017, sempre às madrugadas — Em janeiro o ritmo ficou mais intenso e, no início deste mês, começamos a ensaiar já com a bobina funcionando, para que nada desse errado.

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O carnavalesco Alexandre Louzada destaca a qualidade do trabalho da equipe de bailarinos que participou da comissão. Ele, que é o maior vencedor da história do Sambódromo, com seis títulos, obtidos por quatro agremiações diferentes, defende as inovações nas comissões, mas lembra que faz questão que os grupos apresentados pela escola tenham sempre uma coreografia de dança na comissão de frente.

— Fiquei muito feliz com o resultado. A comissão teve todo um sentido dentro do enredo. E a tranquilidade e calma do bailarino também foram fundamentais para o sucesso do trabalho. Ele confiou no nosso trabalho, isso foi extremamente importante.

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Indra, filho de Aditi (deusa do céu) com o sábio Kasyapa, era o rei de todos os deuses no passado e perdeu importância no período pós-védico. Diz a lenda que sua fúria surgiu quando seus seguidores abandonaram o seu culto e passaram a venerar Krishna, outro deus do Hinduísmo. Quando Indra enviou uma tempestade cheia de raios para puni-los, eles oraram a Krishna, que ergueu uma montanha para protegê-los da força da tormenta. A comissão de frente apresentada pela Mocidade Independente este ano contou ainda com outros deuses da cultura hindu e com monges indianos.


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