Coletes amarelos: a revolta francesa que emparedou o presidente Emmanuel Macron


A França está tomada pela ira. “Insurreição dos caipiras ou a ira justa do
povo?”, “Governo ameaçado pelo crescimento da ira” e “Muitos passam da ira ao
ódio” foram alguns dos títulos, conforme a semana transcorria, de jornais —
respectivamente, do Libération, de esquerda, do Le Monde, de centro-esquerda, e
do Le Figaro, de centro-direita —, em meio a dezenas de outros parecidos. Como é comum quando se trata de raiva, o alvo não tem fronteiras totalmente
definidas e se transforma constantemente. Na última semana, os coletes amarelos
obtiveram sucesso em sua reivindicação inicial, de abaixar o preço do
combustível. Conforme o tempo passa, no entanto, a insatisfação cresce cada vez
mais e se volta contra toda a classe política.O inimigo inicial dos coletes amarelos era o “imposto carbono” adotado pelo
presidente francês Emmanuel Macron para desestimular o uso do automóvel. O
tributo recaía principalmente sobre o diesel, considerado mais poluente que a
gasolina. Ele se somava a aumentos nas bombas dos postos devido à alta do preço
do barril de petróleo. Em um ano, o diesel subiu 23% e a gasolina 15%. Novos
aumentos estavam previstos para os próximos anos, de modo a incentivar o uso de
carros mais modernos ou elétricos. Em outubro, o abaixo-assinado “Por uma queda nos preços do combustível nas
bombas” — lançado em maio no site change.org por Priscilla Ludosky, uma
vendedora de cosméticos a domicílio de 33 anos de Seine-et-Marne, a uma hora de
Paris — popularizou-se nas redes sociais e foi assinado por centenas de milhares
de pessoas. A página, criada, segundo Ludosky, “a partir da simples constatação
de que sua conta aumentou”, lista motivos para o aumento do preço, como a
aspiração do governo de mudar os hábitos dos motoristas, o contexto geopolítico
e a alta dos impostos. Em seguida, em maiúsculas, conclui: “TODOS MOTIVOS PELOS
QUAIS NÓS CIDADÃOS NÃO SOMOS RESPONSÁVEIS!”. protestoA mensagem ressoou em Éric Drouet e Bruno Lefevre, caminhoneiros da mesma
região de Ludosky, que, em 10 de outubro, lançaram nas redes sociais um chamado
para uma “paralisação nacional contra a alta do combustível” em 17 de novembro,
um sábado. Em seguida, mensagens e vídeos começaram a ser publicados na
internet, alguns deles chegando a milhões de visualizações. Um desses vídeos
sugeria que os manifestantes vestissem coletes amarelos fluorescentes — um item
de segurança indispensável a todos os carros na França desde 2008. Os coletes amarelos têm origem na classe média baixa, que se considera
negligenciada pela classe política, entendida como favorável aos ricos. O
geógrafo francês Christophe Guilluy definiu essa camada da população como “a
França periférica” — em oposição à burguesia rica das cidades. Eles vivem em
zonas periurbanas e têm mais dificuldade de acesso a serviços públicos como
saúde, educação e transporte. Grande parte dessa camada tem dificuldades para
fechar as contas no fim do mês e relata falta de dinheiro até para comprar
comida.“São setores extremamente diversos, mas o seu centro é formado por membros da
classe média baixa”, disse o sociólogo Louis Chauvel, da Universidade de
Luxemburgo. “É um conjunto de trabalhadores qualificados e empregados que,
depois de se beneficiar entre os anos 40 e 70, agora empobrece.”Em 17 de novembro, após algumas interrupções em estradas, o movimento estava
nas ruas. Àquela altura, já estava claro que as paralisações causariam impacto.
Três dias antes, Macron havia declarado que os manifestantes tinham o direito de
se manifestar. “Eu os compreendo”, disse, para depois ressaltar que não voltaria
atrás no aumento. O presidente seguia fiel a uma de suas promessas de campanha:
resistir à pressão das ruas para impor suas reformas na economia francesa, a um
estilo que definiu como “jupiteriano” e inspirado por Napoleão Bonaparte. No primeiro sábado, os coletes amarelos reuniram centenas de milhares de
pessoas ocupando estradas, com mais de 500 casos de violência, incluindo duas
mortes. Em larga medida, os protestos dos coletes amarelos remetiam aos de junho
de 2013 no Brasil. A organização era principalmente pela internet, à margem de
sindicatos e partidos políticos. A ausência de líderes e a horizontalidade
também eram traços marcantes, assim como a violência nas manifestações e a
difusão das causas.Macron, naquele momento, contava com seu pior índice de popularidade até
então: 25%, de acordo com uma pesquisa publicada no Journal du Dimanche
de 18 de novembro e realizada antes dos protestos. Isso explicou o apoio de 77%
da população aos protestos em sua primeira semana, apesar das condenações à
violência.Ao lado de uma mistura que, àquela altura, incluía membros da Reunião
Nacional de Marine Le Pen, black blocs, sindicalistas de extrema esquerda e mais
de 100 mil cidadãos comuns, os coletes amarelos voltaram às ruas nos dois
sábados seguintes, contra os aumentos, mas também contra Macron. Em 1° de
dezembro, a capital francesa viu sua maior destruição em décadas, com lojas
saqueadas, carros destruídos e monumentos depredados. O movimento permanecia apartado do resto da classe política tradicional,
apesar de aproximações de todos os lados — tanto da extrema-direita quanto da
esquerda que, na voz de Jean-Luc Mélenchon, candidato a presidente em 2017 pela
França Insubmissa, chegou a falar em revolução.Na última terça-feira, o primeiro ministro francês Edouard Philippe foi à
rede nacional de TV anunciar que o governo suspendera a alta dos combustíveis.
Anunciou também medidas como o congelamento por seis meses dos preços da
eletricidade e do gás. Na quarta-feira 5, o aumento foi definitivamente
cancelado. Macron, com 23% de avaliação positiva, tem evitado aparecer e dar
declarações públicas.
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