Civi-co admite erro e diz que pagará direitos de recepcionista dispensada na véspera do parto


A direção do Civi-co, coworking para organizações não-governamentais e startups com objetivos sociais de Pinheiros, em São Paulo, anunciou que pagará licença-maternidade e outros direitos de uma recepcionista de 26 anos, que foi contratada como pessoa jurídica e dispensada na véspera do parto. O caso foi revelado pelo site da Época e gerou reação de dezenas de organizações e empresas que alugam espaços de trabalho no Civi-co, e que não concordaram com a postura da direção. “Reconhecemos que nossa conduta não foi a mais apropriada e sensível à situação, ainda que tenha sido cumprido o contrato acordado entre as partes. Iniciamos também uma análise interna para resolver qualquer outra questão similar que possa haver com nossos atuais e futuros colaboradores”, informou a direção, em nota pública divulgada na noite desta quarta, depois de uma reunião com representantes de dezenas de organizações que atuam no local. De acordo com a nota, a recepcionista foi convidada a se reintegrar à equipe depois do período de licença, em regime de CLT. A reunião com empresas e ONGs durou cerca de uma hora e foi conduzida pelos dois sócios do empreendimento, o engenheiro Ricardo Podval e a empresária Patrícia Vilella Marino, que é da família dona do Itaú. “(A recepcionista) faz parte do time e vai ser reintegrada ao time, com todos os direitos pagos. Essa é nossa obrigação não só com ela, como com qualquer colaborador”, disse logo no início Podval, que é o CEO do espaço. “Na correria do dia-a-dia não nos percebemos a detalhes extremamente importantes, que não são detalhes, são vidas de pessoas”, afirmou.Vilella Marino lembrou que, em sua curta trajetória, o Civi-co “acertou em várias coisas”, mas também “vai errar em outras, porque aqui ninguém tem a arrogância ou a intenção de ser perfeito”. Ela disse aos locatários que não abre mão do “exercício da humildade e da cidadania” e que se considerada “uma grande sonhadora deste lugar”, numa referência à proposta do Civi-co de reunir em um único espaço de trabalho diferentes organizações que buscam impacto social em suas atividades. A ideia é que elas interajam e troquem experiências úteis a potencializar o resultado de suas ações. A sócia disse que nunca quis que a recepcionista deixasse o espaço e considerou um erro “seguir com o acordo feito com ela”, numa menção ao prazo de seis meses de trabalho previsto no contrato. “Aí é que nós faltamos com a sensibilidade”. Ela continuou: “Era ótimo chegar e conversar com a Raiane, e ver ela sempre com aquela disposição toda, com aquela barriguinha maravilhosa que ela carregava. E agora com esse filhinho maravilhoso que ela está carregando”, disse. Vilella criticou o texto publicado no site da ÉPOCA, chamando-o de “leviano” e “tendencioso”. “O que se quis foi fazer um rodamoinho, acho que a gente tem que começar a discernir o texto e o contexto das coisas”, reclamou. A representante de uma das organizações instalada no Civi-co pediu a palavra para dizer que também achava “importante contextualizar o debate”. Disse que considerava o caso da recepcionista “chocante”, e que não poderia ser analisado sem considerar sua origem social e sua condição de jovem negra. “A gente quer mudar o Brasil, mas esse é um país que até 130 anos atrás tratavam negros como objetos, o trabalho doméstico ainda é feito por mulheres negras”, lembrou. O diretor-executivo da Transparência Brasil, Manoel Galdino, também interviu e mencionou a necessidade de se reconhecer “que existe uma desigualdade estruturante”. Em outras palavras, “mesmo que uma pessoa voluntariamente aceite (ser contratada como PJ e em período determinado), não há uma condição de igualdade entre o Civi-co e a pessoa que se viu naquela situação, tendo que fazer uma escolha”. Ele sugeriu que o coworking busque a diversidade dentro da própria direção, para evitar a repetição do problema. “Não acho que falte sensibilidade, vocês são pessoas sensíveis, acho que falta mais diversidade mesmo, para ter pessoas que vão se colocar no lugar de quem precisa, e vão ficar antenadas”, pontuou. Fundador de uma startup que tem entre suas missões melhorar a relação de trabalho entre pessoas e empresas, a Santo Caos, Jean Soldatelli sugeriu que o Civi-co e as organizações ali instaladas se mobilizem para discutir o dilema ético de cada tipo de contratação, para além de questões legais. “Se nosso objetivo é mudar a sociedade, a gente tem que usar esse erro para ensinar o mercado como um todo como agir a partir disso”, sugeriu. Mãe de dois filhos, entre eles um bebê de um ano e sete meses, a representante de outra organização disse ser “inadmissível” que a recepcionista estivesse em casa nos dias atuais, “buscando renda para criar uma criança de 22 dias”, e chorou ao mencionar o direito do bebê de ser “bem cuidado por sua mãe”. Ela sugeriu que a empresa também se ocupe de ajudar a garantir que a criança “será bem cuidada depois do ocorrido”. O substituto da recepcionista que engravidou sugeriu que os ocupantes do prédio se unam em torno da construção de políticas afirmativas e inclusivas. Nesta quinta, a recepcionista visitou o Civi-co com o bebê e formalizou seu interesse em continuar trabalhando lá depois da licença-maternidade, que agora será paga. No dia anterior, ao saber do caso, uma rede de mães empreendedoras de São Paulo disponibilizou uma outra vaga de emprego a ela, como atendente, mas ela deve declinar. Depois da repercussão do caso, um aplicativo de transporte com mulheres motoristas disponibilizou três meses de créditos em corridas para ela usar o quanto quiser.

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